E o Oscar vai para…

A 94ª edição dos Oscars acontece este domingo à noite

(Fotos: Divulgação)

Nunca as votações para os Oscars contaram com uma participação tão ampla e abrangente. A 94ª edição daquela que é a maior e mais celebrada cerimónia de prémios de Hollywood contou com a participação de cerca de 9400 membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS), numa tendência de progressivo aumento que se iniciou em 2016, altura em que os protestos de #OscarsSoWhite fizeram correr muita tinta – recorde-se que à época, a AMPAS contava com cerca de 6000 membros. E como não poderia deixar de ser esta vai ser uma edição com algumas novidades.

Em primeiro lugar, e olhando logo para aquela que será uma das estatuetas mais cobiçada, a de Melhor Filme, esta é a primeira vez desde 2011 que conta com 10 nomeações – isto numa categoria que este ano que não teve propriamente uma má colheita. E num contexto de sucessivas quebras de audiência televisiva da transmissão da cerimónia, com a apresentação a ficar a cargo de Amy Schumer, Regina Hall e Wanda Sykes, também houve mexidas no formato de exibição. De todas as categorias premiadas (e são 23), há 8 que vão ficar de fora e não vão ser transmitidas em direto – são fundamentalmente categorias técnicas, onde se incluem Melhor Montagem e Melhor Design de Produção, mas também categorias destinadas a produções de menor duração, como é o caso de Melhor Documentário em Curta-Metragem. E ainda no que respeita à interação e participação do grande público há ainda lugar à atribuição de uma espécie de “prémio dos fãs”, através da participação no hashtag #OscarsFanFavorite via Twitter.

The Power of The Dog

Quanto aos nomeados, o filme com mais nomeações é o “The Power of The Dog” (O Poder do Cãopt; Ataque dos Cãesbr ). O filme realizado pela neozelandesa Jane Campion lidera com 12 nomeações, incluindo Melhor Filme, Melhor Realização, e Melhor Fotografia. Segue-se de perto “Dune” (Duna pt|br), a adaptação do épico de ficção científica de Herbert Read a cargo de Denis Villeneuve, e que conta com Timothée Chalamet e Zendayaa nos papéis principais. O filme do realizador canadiano arrecadou 10 nomeações. A completar o pódio encontramos um “empate técnico” – “Belfast” e “West Side Story” (Amor, Sublime Amor br), ficaram cada um com 7 nomeações. Para lá deste grupo destacado, um dos filmes do ano vem mesmo do campo da animação e chama-se Flee (A Fuga pt; Fuga br ) Trata-se do documentário animado assinado pelo dinamarquês Jonas Poher Rasmussen, um filme poderoso para uma época difícil e que toca num tema que atravessa o nosso tempo: os refugiados. Nomeado em 3 categorias – Melhor Animação, Melhor Filme Internacional e Melhor Documentário -, o flime é uma das nossas apostas para esta edição.

Nos últimos dias, que é quando mais facilmente se mede o pulso ao resultado da votação que vamos todos descobrir já na madrugada de Domingo para Segunda – “CODA” (No Ritmo do Coraçãobr) tem vindo a ganhar terreno como um dos mais proáveis vencedores daquela que é uma das estatuetas mais cobiçadas, a de Melhor Filme. Realizado por Sian Heder, o filme tem vindo a acumular distinções em tempos recentes – e o prémio atribuído pela Producer Guild Awards no passado domingo é prova disso mesmo – pelo que o burburinho já quase que se consegue ouvir ao fundo da sala. Curiosamente, trata-se de um remake de um filme do francês Eric Lartigau, estreado em 2014 com o título “La Famille Bélier” (A Família Bélier pt|br), e conta a história de uma família de surdos-mudos que vive numa aldeia piscatória perdida no Massachusetts. É um filme sobre a luta entra a obrigação de um trabalho de família e o sonho de viver uma vida mais próxima da arte. Troy Kotsur, nomeado para Melhor Ator Secundário é também o favorito desta categoria. É a segunda nomeação de um ator surdo-mudo de toda a história da Academia – é preciso recuar cerca de 35 anos para encontrar aquela que foi a primeira surda-muda a ser nomeada para um Óscar, ainda que na categoria de Melhor Atriz: Marlee Matlin em “Children of a Lesser God” (Filhos de um Deus Menor pt; Filhos do Silêncio br), numa edição que acabou por vencer) – não por acaso e de forma bastante expressiva, esta é outra das atrizes do elenco de “CODA”. Troy, que tem sobretudo feito um percurso no teatro, é o pai de família da família de pescadores na qual a história se baseia. Mas se “CODA” parece ter chamado a si o favoritismo para o Óscar de Melhor Filme, o grande filme da noite continua a ser – provavelmente – “The Power of The Dog“.

Duna

Dune” é o regresso mais que aguardado de Denis Villeneuve à realização, desta feita com um épico da ficção científica com um historial atribulado no que respeita às adaptações para cinema. Depois de David Lynch e do falhanço romântico do projeto de Alejandro Jodorowsky, “Dune” é uma visão contemporânea do imaginário de Herbert Read. Nomeado em mais de metade das 23 categorias, o filme de Villeneuve bem que poderá ser um dos mais galardoados, tendo ainda assim mais hipóteses de triunfo em algumas das categorias técnicas para as quais esta nomeado: Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Efeitos Visuais e Melhor Som. É um espetáculo visual sem rival na presente edição, um contraste vincado da Irlanda a preto e branco de Kenneth Branagh.

Belfast”, é o regresso do multifacetado Kenneth Branagh à sua Belfast natal. Ambientado na Irlanda do Norte da década dos anos 1960, é um filme pessoalíssimo onde o realizador revisita as memórias e a mitologia da sua infância. Apesar das 7 nomeações, Belfast apresenta-se melhor colocado nas categorias de Melhor Filme e Melhor Argumento Original.

West Side Story

Esta 94ª edição dos Oscars assinala também o regresso de um dos grandes da Academia: Steven Spielberg. Uma nova adaptação de um dos musicais mais célebres da história, uma criação de Jerome Robbins com música de Leonard Bernstein e letras de Stephen Sondheim, um musical que contou com Natalie Wood e Richard Beymer como protagonistas na sua anterior versão cinematográfica realizada a duas mãos pelo próprio Robbins e Robert Wise. O “West Side Story” de Spielberg mantém o ambiente da Nova Iorque dos anos 1950 e tem no elenco Rita Moreno, uma das atrizes no filme de 1961. Com 7 nomeações, a categoria em que tem provocado maior entusiasmo prende-se com o papel de Ariana DeBose, a atriz que interpreta a personagem Anita, uma personagem “lendária” e até agora indissociável de Rita Moreno, a atriz porto-riquenha que tinha encarnado o papel na versão cinematográfica de 1961. Atriz já com alguma experiência no musical – fez precisamente parte do elenco da produção da Brodway de Hamilton, para alem de uma presença constante no cinema, onde participou em “The Prom” para a Netflix e “Schmigadoon!” para a Apple TV+ – Ariana esteve perto de recusar entrar no flime de Spielberg (o diretor de casting em entrevista à Variety afirmou que Ariana só aceitou o papel ao quarto convite). É a sua primeira nomeação, mas se a história se repetir pode seguir os passos de Rita Moreno, que em 1962 venceu o Oscar com o mesmo papel.

King Richard: Para Além Do Jogo”.

Outro flime que tem uma presença mais forte nas categorias de interpretação é “King Richard” (King Richard: Para Além do Jogo pt; King Richard: Criando Campeãs br. Com 6 nomeações, o flime conta com Will Smith no papel principal, nesta que é a sua terceira nomeação. É um dos mais fortes candidatos na categoria de Melhor Ator. Trata-se de uma biografia cinematográfica de prestígio pensada a régua e esquadro para a época dos Oscars, uma espécie de “Óscar bait” realizado por Reinaldo Marcus Green. O filme conta a história das irmãs Serena e Venus Williams , duas das tenistas mais aclamadas da história da modalidade. E se “King Richard” é um filme de recorte biográfico, no lado oposto do court encontramos um flime de um nome que nos habituámos a reconhecer no universo fantástico: Guillermo Del Toro.

Nightmare Alley” (Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas pt; O Beco do Pesadelo br) é uma adaptação do romance de William Lindsay Gresham e conta a história de um vigarista que decide trabalhar numa feira de horrores. Guillermo del Toro insere a sua narrativa numa tradição evocativa do film noir, numa viagem sempre paredes meias com o sobrenatural e o fantástico, e conta com Bradley Cooper, Cate Blanchett e Rooney Mara nos papéis principais. Tem 4 nomeações mas não se apresenta particularmente bem posicionado em nenhuma delas – uma situação bem diferente de há um anos atras, quando “A Forma da Água” teve uma noite triunfal. E se Del Toro é um veterano nestas andanças, um dos grandes momentos da noite poderá estar guardado para o pequeno ovni desta edição: “Drive My Car”, do japonês Ryûsuke Hamaguchi.

Drive My Car

É uma das grandes surpresas desta edição – e um dos melhores filmes do ano. “Drive My Car”, do mesmo realizador de “Wheel of Fortune and Fantasy” (Roda da Fortuna e da Fantasia pt; Roda do Destino br)”, fala-nos sobre o intervalo entre a vida e a arte como um espaço luminoso, capaz de revelar a beleza mais profunda das emoções. Chega a esta edição dos Oscars depois de um percurso importante, tendo vencido o prémio do círculo da crítica de Nova Iorque e de Los Angeles e mais recentemente o prémio de Melhor Filme para a National Film Critics Award. Arrecadou 4 nomeações, e é um forte favorito para vencer a estatueta de Melhor Filme internacional. E se Hamaguchi é uma estreia absoluta, outro dos grandes flimes desta edição é de um senhor chamado Paul Thomas Anderson, um dos cineastas com uma das carreiras mais entranhada na história dos Oscars.

É a oitava nomeação do cineasta norte-americano, que na verdade só não conseguiu ser nomeado na sua estreia em 1996, com “Sydney” (Passado Sangrento pt; Jogada de Risco br) Um dos autores mais importantes da sua geração, o realizador tem aqui um dos seus filmes mais nostálgicos, uma pequena janela sobre uma era que se abre sobre um longo verão cheio de amor e amizade, e que conta com Alana Haim e Cooper Hoffman (filho de Philip Seymour Hoffman), nos papéis principais. “Licorice Pizza” é a obra de um realizador em total controlo da sua arte. Com “apenas” 3 nomeações, talvez ainda não seja este o momento de Paul Thomas Anderson – apesar do longo historial nos Oscars, o realizador ainda não venceu qualquer prémio. Nesta edição, terá mais probabilidades no Óscar de Melhor Argumento Original, e mesmo aí terá forte concorrência noutro dos “outsiders” deste ano, “Don’t Look Up” (Não Olhem Para Cima pt; Não Olhe Para Cima br), realizado por Adam McKay.

Não Olhes Para Cima

É um dos filmes que mais terá dividido a crítica no ano passado, e é também por isso que o filme protagonizou um dos momentos mais vibrantes da cultura cinematográfica. É aliás difícil pensar noutro filme que em tempos recentes tenha sido capaz de mobilizar a mesma quantidade de comentários apaixonados. Se é verdade que as séries têm dominado aquilo que de mais causal há na conversação no espaço público, ocupando um espaço noutros tempos dominado pelo cinema, “Don’t Look Up” , foi um daqueles momentos cada vez mais raros em que o espírito dos tempos foi pensado coletivamente graças à arte do grande ecrã. 4 nomeações, e é mesmo no Melhor Argumento Original que se depositam as suas esperanças.

São estes os filmes com maior destaque numa edição que invariavelmente contará com algumas surpresas. E embora o grupo dos “10 magníficos” – as obras nomeadas para Melhor Filme – representem um apanhado interessante da produção cinematográfica do ano passado, há ainda pontos de interesse para lá desse horizonte.

A Filha Perdida

Por exemplo, a estreia na realização de Maggie Gyllenhaal, com o extraordinário “The Lost Daughter” (A Filha Perdida pt|br), um filme que tem na sua protagonista um tesouro de atriz: Olivia Colman, a âncora onde a estreante na cadeira de realizadora depositou a força que move o filme. “The Lost Daughter” adapta um romance homónimo de Elena Ferrante e conta a história de uma académica a passar férias na Grécia, e que no decorrer da estadia se vê confrontada com a sua difícil relação com a maternidade. A interpretação de Colman nunca deixa de impressionar pela forma como ilumina a complexidade daquilo que está em causa quando se é Mãe, colocando de lado representações mais românticas, mas nem por isso menos em choque com a realidade. É a segunda nomeação da atriz na categoria de Melhor Atriz, ela que já venceu em 2019 com o seu papel em “The Favourite” (A Favorita pt|br).

Ainda na categoria de Melhor Atriz podemos encontrar Nicole Kidman, protagonista em “Being The Ricardos” (Apresentando os Ricardos br), um flime ambientado na época dourada da televisão norte-americana, mas que revela um Aaron Sorkin realizado uns bons furos abaixo do Sorkin argumentista. A performance de Nicole Kidman é um decalque fotocopiado dos maneirismos e poses de Lucille, enfim, de toda uma linguagem não verbal que dá forma a uma personalidade. Mas do que filtrar a personalidade e presença da atriz, a interpretação de Kidman é um daqueles exercícios de transformação que têm tanto de “arriscado”, como de tecnicamente impressionante. Figura incontornável da história contemporânea de Hollywood, esta é a quarta nomeação da atriz australiana, numa categoria que inclui uma estreante absoluta – Kirsten Stewart enquanto Lady Diana, no biopic de Pablo Larraín, “Spencer”.

E o Oscar vai para…


Em Portugal a cerimónia será transmitida pela RTP1. No Brasil essa transmissão será no TNT.

Últimas