Aleksandr Kuznetsov sobre “Dois Procuradores”: “A personagem não é ingénua. Recusa-se a acreditar que o mal possa ser tão vasto”

Um dos rostos mais reconhecíveis da nova geração do cinema russo, Aleksandr Kuznetsov viu a sua vida mudar radicalmente em 2022. Depois de condenar publicamente a invasão da Ucrânia numa entrevista que lhe fechou as portas da indústria russa e levou ao bloqueio de vários projetos em que participava, o ator foi forçado a abandonar o país e a reconstruir a carreira.

Muito antes de chegar a Hollywood com Fantastic Beasts: The Secrets of Dumbledore (2022) ou de colaborar com Sergei Loznitsa em Dois Procuradores (2025), Kuznetsov já dava cartas em projetos como Better Than Us (2018-2019) — uma das primeiras séries russas distribuídas globalmente pela Netflix —, a comédia negra Mas Porque É Que Não Morres?! (2018), o filme de guerra Bratstvo (2019), a série Khimera (2022) e a fantasia épica Heart of Parma (2022). Pelo caminho, trabalhou com alguns dos nomes mais importantes do cinema russo contemporâneo, entre eles o próprio Kirill Serebrennikov, em Leto (2018), também ele uma figura marcada pelo confronto com o poder político russo.

Na mais recente obra de Sergei Loznitsa, Dois Procuradores (2025), Kuznetsov interpreta um jovem procurador soviético que se recusa a aceitar a dimensão da máquina repressiva estalinista, numa história sobre como o idealismo é esmagado pela burocracia e pelo terror político. Uma personagem que, como o próprio ator admite, nunca foi construída como ingénua, mas como alguém incapaz de acreditar que o mal pudesse ser tão vasto e tão difícil de derrotar.

Foi há precisamente um ano, em Cannes, que nos sentámos à conversa com Aleksandr, falando sobre o método enigmático de trabalho de Sergei Loznitsa, a herança dos Gulags na Rússia contemporânea e o peso do exílio político. A conversa, sempre mordaz, tocou ainda em estereótipos russos no cinema internacional e na experiência de viver entre países e identidades. Pelo meio, revelou-nos também os primeiros detalhes sobre a sua intenção de passar para trás das câmaras e iniciar um novo capítulo da sua carreira como realizador.

Dois Procuradores

Algumas das memórias mais sombrias da União Soviética continuam ausentes dos livros de História. O que lhe foi realmente ensinado na escola sobre esse período e quanto conhecia, na altura, sobre temas como os Gulags e a repressão política? 

Podemos olhar para isso de duas formas: aquilo que eu próprio sabia e aquilo que nos ensinavam na escola. A verdade é que não nos ensinavam muito. Os manuais eram constantemente reescritos e a questão dos Gulags, que Sergei Loznitsa aborda no filme, era uma espécie de tabu subconsciente. Não porque alguém proibisse explicitamente o assunto, mas porque parecia algo tão horrível que quase não podia ser nomeado.

Não me lembro de ouvir falar dos Gulags ou dos campos de concentração criados para o próprio povo, para quem discordava politicamente do regime.

Pessoalmente, também me protegia desse tipo de informação. Não por superficialidade, mas porque sou uma pessoa muito empática. Como ator, não precisamos de ser documentalistas. Precisamos de ter os olhos e os ouvidos abertos e prestar atenção ao que acontece à nossa volta.

Se observarmos a forma como a polícia atua, as detenções em manifestações ou as razões pelas quais certas pessoas acabam presas, percebemos imediatamente a ligação com o que acontecia há cem anos. Nem sequer é preciso conhecer todos os nomes da História para sentir essa continuidade. Em muitos aspetos, continua a ser a mesma coisa.

Antes de entrar neste universo, sentiu necessidade de visitar o livro? Como preparou uma personagem que parece caminhar constantemente entre aquilo que sabe e aquilo que prefere não ver? 

Não li o livro. O Sergei Loznitsa disse-me que não era necessário. O seu argumento funciona mais como um esboço do que como um guião tradicional: dá-nos uma estrutura mínima e depois espera que confiemos nele.

Também não havia muito para preparar. Loznitsa é um realizador intuitivo e pouco comunicativo. Ou confia nos atores ou simplesmente não trabalha com eles. Quando decide fazê-lo, delega-lhes uma parte da responsabilidade e espera que descubram muitas coisas sozinhos.

Além disso, a minha personagem vive na escuridão, na ignorância. Pressente o que acontece, mas não o compreende totalmente. Se tivesse lido demasiado ou investigado em excesso, corria o risco de abordar tudo de uma forma demasiado intelectual, quase como um realizador, e não como alguém perdido dentro daquela realidade.

Dois Procuradores

Muitos dos momentos mais fortes do filme parecem não estar escritos no argumento. Como nasceram esses silêncios, olhares e pequenos gestos da personagem? 

Para ser sincero, Sergei Loznitsa nunca me explicou grande coisa. Há uma cena em que uma mulher deixa cair uns papéis e a minha personagem é a única que a ajuda. Essa cena nem sequer estava prevista. No final de um dia de filmagens na Letónia, ele decidiu simplesmente fazê-la e disse apenas: “Ela deixa cair os papéis e tu ajudas.”

Nunca me explicou onde olhar, como reagir ou o que pensar. E isso acontecia constantemente. Se algo não funcionasse, limitava-se a dizer: “Outra vez.” Eu tinha de descobrir sozinho o que estava errado.

Ele não trabalha com sistemas de interpretação nem com explicações psicológicas. Se lhe perguntarmos algo sobre a personagem, responde: “Isso é o teu trabalho.”

Mas é precisamente aí que reside a liberdade. O truque é não lhe explicar nada. Fazemos algo diferente e, se resultar, recebemos um “ok” ou um sorriso. É a forma dele de comunicar.

Os tiques obsessivos da personagem foram ideia sua?

Sim. Vieram do próprio Sergei. Nunca me pediu para os fazer, mas comecei inconscientemente a imitá-lo.

Ele próprio tem muitos gestos obsessivos e extremamente precisos. Toda a equipa acabou por notar isso. No fundo, interpretei um pouco o próprio Sergei.

Mas nunca discutiram a ingenuidade e a inocência da personagem?

Nunca discutimos isso. E, mesmo que tivesse tentado, provavelmente não teria obtido resposta do Sergei Loznitsa, pois ele é como um matemático.

Para mim, a personagem não é ingénua. É alguém que se recusa a acreditar que o mal possa ser tão vasto e impossível de derrotar. Compreende perfeitamente o que está a acontecer, mas continua convencido de que existe uma solução, de que basta falar com a pessoa certa e corrigir o erro.

Durante vinte anos ensinaram-lhe que o socialismo funciona. Por isso, até ao último momento, ele acredita que tudo será resolvido. Ele é de certa forma como um Samurai. Nunca imagina que acabará preso, torturado ou forçado a confessar crimes absurdos.

Acredita genuinamente no ideal socialista. E isso tornou-se, para mim, uma homenagem aos idealistas. Eu próprio sou um pouco idealista e acho que precisamos dessas pessoas. Sem elas, afundar-nos-íamos muito rapidamente.

Qual é o seu método enquanto ator. É mais uma intuição ou um método? 

Neste caso foi quase intuitivo, mas também muito próximo do método, pois não me deram qualquer referências. Estava num país diferente, numa casa diferente, completamente afastado da minha vida habitual. Sou um imigrante político russo e não posso regressar à Rússia. Filmávamos numa prisão real, fria e desconfortável.

Não tinha grandes conversas sobre a personagem. Tinha apenas uma equipa extraordinária, um realizador genial e uma sensação de isolamento muito semelhante à dela. Acabei por viver como ele, falar como ele e pensar como ele também fora das filmagens.

Todos os dias chegava ao plateau e observava. O Sergei criava um ambiente incrivelmente preciso à minha volta. É um perfeccionista obsessivo. Escolhe cada rosto com um rigor absoluto. Às vezes aborda pessoas na rua e diz-lhes simplesmente: “Tem uma cara incrível, quero-a no meu filme.” As pessoas acham-no louco, mas é assim que trabalha.

Bastava prestar atenção ao mundo que ele construía à minha volta. O resto acontecia quase sozinho.

O que significa ser um imigrante político russo?

Saí da Rússia em 2022 e não posso regressar. Pelo que sei, se voltar, ou colaboro com o governo ou acabo preso, algo que já aconteceu a várias figuras conhecidas.

Era um ator bastante famoso na Rússia quando, após a invasão da Ucrânia, dei uma entrevista ao jornalista Yuri Dud. Não disse nada de particularmente radical: sou meio russo, meio ucraniano, falo as duas línguas, vivi 19 anos na Ucrânia e construí a minha carreira na Rússia. Transformei-me num ator com uma imagem de herói. Por alguma razão o governo acha que lhes devo algo por isso. Que me deram tudo tudo e que sou um traidor. Apenas recusei a ideia de que devia lealdade eterna ao Estado russo.

Disse que a cultura russa não pertence ao governo, recuso-me a não poder criticar a Gazprom, que é a principal financiadora do cinema russo, que a Ucrânia tem razão, que Putin é “um pouco fascista” e recusei ficar calado.

A partir desse momento tornou-se impossível permanecer no país. Todos os filmes em pós-produção em que participava foram bloqueados e nunca chegaram a estrear. Em grande parte, porque eu falava demasiado. Mas é o que é.

Dois Procuradores

Teme pela sua vida?

Hoje não. Em Moscovo, durante algum tempo, sim. Mas não quero dramatizar.

Não sou alguém como o Navalny. Não sou alguém que o regime queira necessariamente assassinar. Sou apenas um ator. Existem pessoas muito mais expostas do que eu.

Como foi viver na Europa depois de sair da Rússia?

Há dois lados da questão. Para quem nunca quis sair do país, deve ser uma tragédia. Eu nunca tive vontade de ficar preso a um único lugar. Por isso foi mais fácil.

Materialmente foi muito difícil. Passei de um ator que ganhava milhares de euros por dia para alguém que, durante seis meses, não tinha dinheiro para comer. Mas nunca me arrependi.

Sempre achei a situação excitante. Gosto de viajar. Gosto de dormir em sofás. Gosto dessa sensação de movimento. Não espero que toda a gente pense da mesma forma, mas para mim foi assim.

Como reage quando é julgado por ser russo?

Não me afeta minimamente. As pessoas que julgam alguém por ser russo, ucraniano, húngaro ou qualquer outra coisa estão a pensar de forma absurda.

Sou o Aleksandr Kuznetsov. Faço coisas boas ou más e sou responsável por elas. É isso que importa. Não quero ser amigo de pessoas que não respeito. O resto não me interessa.

Como vê o facto de os russos surgirem tantas vezes como vilões no cinema?

É um problema. Felizmente nunca fui muito confrontado com isso. O único “mau russo” que interpretei foi num grande filme de ação com o Idris Elba, mas aí fazia parte do género de blockbuster.

O que considero um verdadeiro crime é quando um ator aceita reproduzir o cliché da sua própria nacionalidade. Mesmo que o argumento seja mediano, devemos tentar tornar a personagem mais humana e mais real. Caso contrário estamos a prejudicar a indústria. E, se insistirem no estereótipo, talvez seja melhor recusar o papel.

Sente-se em casa em Londres?

Sim. Mas também em Lisboa e Paris. Sinto-me em casa onde tenho muito amigos. As pessoas dizem que amam um país ou uma terra. Eu acho que amamos as pessoas. Amamos as memórias e as ligações. Se levarmos essas pessoas para outro lugar, esse lugar também se transforma em casa.

Está a trabalhar em novos projetos?

Sim. Tenho um grande filme para a Amazon a estrear em breve [entretanto já estreada: Heads of State]. Estou também a preparar a minha primeira longa-metragem como realizador. Estudei realização e finalmente chegou o momento. Vou filmar uma curta-metragem na Irlanda e continuo a fazer castings para vários projetos.

Pode falar da sua primeira longa?

Ainda não. Mas posso dizer que, em termos de atmosfera, é uma mistura entre Only Lovers Left Alive e Fight Club.

A curta é uma espécie de cruzamento entre Another Round e Green Street Hooligans. É um filme de ação muito físico, com grandes cenas de combate.

Ainda há espaço para o teatro?

Sim. Mas como encenador. A minha formação é em encenação teatral. Se fizer teatro, quero fazer algo grande, em Londres. Não tenho paciência para coisas pequenas. Sou muito impaciente.

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