Em “Spencer”, Kristen Stewart encarna Diana com toda a teatralidade, a ingenuidade, a sensibilidade e o sentido de humor que caracterizavam a “princesa do povo”. Mesmo entre todas as fortes escolhas estilísticas do realizador, Pablo Larraín, é em torno de Stewart que tudo revolve, como uma espiral que converge para um único ponto central. Mas os elementos estilísticos não funcionam como partes de uma máquina que fizessem funcionar o todo que é o filme; na verdade nada gira em torno de Stewart, tudo se emparelha com ela para em conjunto se criar um complexo (de imagens e cor, de coreografia e gestos, de som e música, de ritmo e duração, de guarda-roupa e cenários) fascinante. Não são componentes que contribuem individualmente para um resultado, nem se trata de uma soma que ultrapassa as suas partes – há em tudo uma indivisibilidade que cria uma unidade irredutível, como se “Spencer” não pudesse ter sido feito de outra forma.
Tal não significa que o filme seja uma obra-prima, mas que há uma congruência especial entre tudo o que está em ecrã. Os familiares da casa real, os criados e os fantasmas que assombram a propriedade de Sandringham convivem naturalmente. A gastronomia requintada das refeições e a bulimia de Diana contrastam-se perfeitamente. A natureza da relação entre a princesa e a família real materializa-se na frieza do espaço da casa real. O simples amor maternal pelos seus filhos encontra nas roupas informais que usam a sua expressão visual. E assim por diante, numa harmonia que prova a destreza de Larraín a contar histórias a partir de todos os elementos fílmicos possíveis.
Esta não é primeira vez que o realizador chileno filma uma biografia. Se “Jackie” (2016) é a sua obra mais célebre, “Neruda” (2016) não lhe fica atrás em qualidade, e os três filmes juntos formam uma trilogia de biografias que não tem par. Há sempre nestas personagens, sob o olhar de Larraín, uma urgência claustrofóbica, uma ameaça que permanece mais invisível do que verdadeiramente presente, mas cujo peso se sente continuamente. Em “Spencer”, esse peso é a tradição, as regras de etiqueta, a falta de espontaneidade, enfim, o controlo total da vida individual pela instituição que é a realeza. E é também, claro, a amargura da traição e da rejeição. Tudo isso é habilmente representado por Kristen Stewart, que vacila inicialmente mas acaba por desaparecer por detrás da personagem.
É sempre arriscado criticar uma obra por aquilo que ela não é e podia ter sido, mas no caso de “Spencer” nem parece ser possível fazer isso – aquilo que se desejou fazer realizou-se, e nesse sentido o filme é um triunfo. Talvez nem seja apropriado dizer que se trata de uma biografia; é um retrato de um fim-de-semana natalício em que se descortina uma pequena porção da história de Diana, algures entre a realidade e a fantasia, cuja vida é muito maior, muito mais rica e complexa do que aquilo que aqui se vê. Se isso é a maior falha ou a maior virtude do filme é o que fica para o espectador decidir, mas numa indústria inundada por cinebiografias que tentam condensar à força percursos de vida inteiros em duas ou três horas, a estratégia de Larraín destaca-se pela positiva.




















