Com uma obra marcada pela ironia e humor ácido, Martin Parr fez das contradições da vida quotidiana, das ambiguidades da cultura popular e do lado menos glamoroso do lazer moderno a sua marca pessoal – o que o tornou num dos mais conceituados documentaristas da sua geração.
Da década de 1970 até hoje, este fotógrafo, nascido em 1952 em Epsom, no condado de Surrey, Inglaterra, e falecido em dezembro passado, sempre soube usar a ironia na sua atenção ao banal, mostrando aquilo que muitos preferiam ignorar. E por trás do óbvio, havia o político e o social. Durante os primeiros anos de formação, como se lê na sua página na web, refere como influências Bill Brandt e Henri Cartier-Bresson, bem como imagens publicadas na revista Creative Camera por fotógrafos como Robert Frank, Lee Friedlander e Gary Winogrand. Contudo, diz o próprio, o momento decisivo ocorreu quando viu o trabalho de Tony Ray-Jones, apresentado por Bill Jay na faculdade, que mudou completamente a sua visão sobre a fotografia documental.

Depois de se mudar para Hebden Bridge, em Yorkshire, nos anos 1970, aí fotografou a vida das comunidades metodistas, sobretudo nas capelas locais. Foi, contudo, entre 1983 e 1985, com a série fotográfica apelidada de The Last Resort, que brilhou e apontou os holofotes a si. Com cores saturadas, alcançadas através do um intenso recurso aos flashs e à utilização câmaras e película específicas, retratou as famílias em New Brighton, uma estância balnear perto de Liverpool – um destino de lazer barato para a classe trabalhadora, muitas vezes afetada pelo desemprego e pela precariedade da era Thatcher.
Lixo no chão, cimento a substituir areia, comida gordurosa, roupa fluorescente, carrinhos de choque enferrujados, e salões de jogos demonstravam o contraste entre a procura do prazer no lazer e um ambiente em ruínas, refletindo, simbolicamente, o impacto das políticas de Thatcher no tecido social britânico e na sua paisagem urbana.



As imagens causaram controvérsia. No Norte de Inglaterra, muitos reconheceram-se nelas; em Londres, onde a série foi exposta, as críticas foram severas. Parr foi acusado de crueldade, condescendência e voyarismo. Ao C7nema, em Paris, no início de 2024, Parr lembrou isso: “The Last Resort foi muito polémico em Londres, mas não no Norte, onde as pessoas ficaram satisfeitas com as fotografias.”
Com a sua vida, obra, influências e referências expostas no documentário I Am Martin Parr, o britânico continuou até ao fim da sua vida a fotografar, mesmo que já precisasse de um andarilho para o fazer. “Hoje em dia ando com um andarilho, o que me limita um pouco fisicamente, mas continuo a fotografar. Não posso trepar rochedos, mas continuo rápido — ao ponto de muitas vezes a equipa de filmagem me perder de vista na rua”, explicou-nos, por entre risos, adicionando que sempre se viu e sentiu como um outsider em relação ao que retratava: “Mesmo quando trabalhei em Hebden Bridge, com uma comunidade muito próxima, no fim continuava a ser visto como um estranho. O fotógrafo nunca deixa de ser outsider.”
I am Martin Parr (Eu Sou Martin Parr)

Realizado por Lee Shulman, um realizador premiado de filmes publicitários e videoclipes, além de colecionador conectado ao The Anonymous Project, este documentário retrospetivo – que chega aos cinemas portugueses a 26 de março – acompanha Parr nos dias de hoje a reencontrar as suas fotografias mais antigas e a revisitar os locais por onde passou. Pelo meio, apresenta-nos algumas das pessoas mais próximas de si – a esposa, colegas, curadores e membros da equipa da Martin Parr Foundation, espaço expositivo que o fotógrafo criou em 2017, em Bristol.
“Vinha do cinema, mas nunca tinha feito um documentário. Depois da exposição em Arles fizemos juntos um livro chamado Déjà Vu, onde pusemos lado a lado fotografias da minha coleção e fotografias do Martin. Era quase um jogo visual. Mais tarde, como vivo em Paris, surgiu a ideia de fazer um documentário. Contactei o Martin e ele disse logo que sim”, explicou Shulman ao C7nema, acrescentando que afastou imediatamente o cenário de fazer uma biografia convencional: “Propus uma viagem de estrada pelo Reino Unido, revisitando locais icónicos da sua obra. Isso coincidiu com a coroação de Carlos III, por isso o timing foi perfeito. Passámos o verão juntos a viajar, filmando tanto os lugares históricos dos livros do Martin como momentos do presente.”
Questionado se I Am Martin Parr lhe trouxe uma nova perspetiva sobre o seu trabalho, Parr diz que não, mas confessa o agrado por o documentário servir para mostrar o seu processo e o seu trabalho a outras pessoas.

Com cerca de 68 minutos, esta produção deixou muito material de fora, como nos confidenciou o realizador: “Muitas coisas ficaram fora. Horas de material. Sou da escola de filmes de 90 minutos, não das epopeias de três horas. Tivemos de cortar secções inteiras, como quando revisitámos a primeira casa do Martin em New Brighton. Para televisão ainda tivemos de reduzir mais, perdendo partes em preto e branco que adoro. Mas a France Télévision deu-me liberdade total e isso foi essencial.”
Aprovando o resultado final, Parr diz que o projeto foi uma boa experiência. E quando é provocado por nós sobre quem gostaria que o interpretasse num eventual filme de ficção sobre si, dispara: Jim Broadbent.
“Que bela escolha”, diz Lee, que não encerra a conversa antes de nos dizer que nunca teve na mente encher o documentário com entrevistas a fotógrafos que falassem do trabalho de Parr: “Não quis encher o filme de fotógrafos a falar sobre fotógrafos — acho aborrecido. Preferi vozes diferentes: a esposa dele, Susie, que foi fundamental; Grayson Perry, sempre brilhante; curadores, galeristas, músicos como Mark Benson. Um painel variado que mostra várias perspetivas sobre o Martin.”
Brexit

Reconhecendo que a viagem ao Reino Unido para realizar I Am Martin Parr também funcionou como reconciliação com o país, Lee Shulman diz que depois do Brexit se sentiu muito desiludido. “Quase virei costas ao país, mas ao viajar e filmar percebi outra vez a riqueza humana e cultural do país. No fundo, o filme é também uma carta de amor ao país — e um agradecimento ao Martin.”
Intrometendo-se na conversa, Martin fala também do desastre quando o tema é o Brexit: “Já ninguém acredita que foi benéfico. Até o Nigel Farage admite que falhou, embora culpe os conservadores. E os Trabalhistas também não têm coragem de propor o regresso ao mercado único.”
Do analógico ao digital
Embora a sua carreira tenha começado em plena era analógica, Parr foi um utilizador entusiasta das tecnologias digitais e admitiu na nossa entrevista que possuía um iPhone 15: “A qualidade é tão fenomenal que muitas vezes escolho o telemóvel em vez da DSLR, sobretudo à noite. Claro que não posso ampliar tanto como com as minhas outras câmaras, mas a qualidade é fantástica.”

Essa abertura mostrou também um artista em constante adaptação e, mesmo rodeado por milhões de imagens que circulam diariamente nas redes sociais, Parr continuou sempre convencido da força da fotografia: “Sempre haverá imagens que sobem à superfície”, insiste, relembrando que continuam a existir imagens que se destacam: “através delas que muitas vezes recordamos a história. Pensemos na Guerra do Vietname: o que permanece são as fotografias icónicas, não as imagens em movimento.”






