Eu sou Martin Parr: retrato íntimo do cronista da vida britânica

"I Am Martin Parr" chega aos cinemas a 26 de março

Com uma obra marcada pela ironia e humor ácido, Martin Parr fez das contradições da vida quotidiana, das ambiguidades da cultura popular e do lado menos glamoroso do lazer moderno a sua marca pessoal – o que o tornou num dos mais conceituados documentaristas da sua geração.

Da década de 1970 até hoje, este fotógrafo, nascido em 1952 em Epsom, no condado de Surrey, Inglaterra, e falecido em dezembro passado, sempre soube usar a ironia na sua atenção ao banal, mostrando aquilo que muitos preferiam ignorar. E por trás do óbvio, havia o político e o social. Durante os primeiros anos de formação, como se lê na sua página na web, refere como influências Bill Brandt e Henri Cartier-Bresson, bem como imagens publicadas na revista Creative Camera por fotógrafos como Robert Frank, Lee Friedlander e Gary Winogrand. Contudo, diz o próprio, o momento decisivo ocorreu quando viu o trabalho de Tony Ray-Jones, apresentado por Bill Jay na faculdade, que mudou completamente a sua visão sobre a fotografia documental.

Hebden Bridge West Yorkshire 1975 – © Martin Parr

Depois de se mudar para Hebden Bridge, em Yorkshire, nos anos 1970, aí fotografou a vida das comunidades metodistas, sobretudo nas capelas locais. Foi, contudo, entre 1983 e 1985, com a série fotográfica apelidada de The Last Resort, que brilhou e apontou os holofotes a si. Com cores saturadas, alcançadas através do um intenso recurso aos flashs e à utilização câmaras e película específicas, retratou as famílias em New Brighton, uma estância balnear perto de Liverpool – um destino de lazer barato para a classe trabalhadora, muitas vezes afetada pelo desemprego e pela precariedade da era Thatcher.

Lixo no chão, cimento a substituir areia, comida gordurosa, roupa fluorescente, carrinhos de choque enferrujados, e salões de jogos demonstravam o contraste entre a procura do prazer no lazer e um ambiente em ruínas, refletindo, simbolicamente, o impacto das políticas de Thatcher no tecido social britânico e na sua paisagem urbana.

As imagens causaram controvérsia. No Norte de Inglaterra, muitos reconheceram-se nelas; em Londres, onde a série foi exposta, as críticas foram severas. Parr foi acusado de crueldade, condescendência e voyarismo. Ao C7nema, em Paris, no início de 2024, Parr lembrou isso: “The Last Resort foi muito polémico em Londres, mas não no Norte, onde as pessoas ficaram satisfeitas com as fotografias.”

Com a sua vida, obra, influências e referências expostas no documentário I Am Martin Parr, o britânico continuou até ao fim da sua vida a fotografar, mesmo que já precisasse de um andarilho para o fazer. “Hoje em dia ando com um andarilho, o que me limita um pouco fisicamente, mas continuo a fotografar. Não posso trepar rochedos, mas continuo rápido — ao ponto de muitas vezes a equipa de filmagem me perder de vista na rua”, explicou-nos, por entre risos, adicionando que sempre se viu e sentiu como um outsider em relação ao que retratava: “Mesmo quando trabalhei em Hebden Bridge, com uma comunidade muito próxima, no fim continuava a ser visto como um estranho. O fotógrafo nunca deixa de ser outsider.”

I am Martin Parr (Eu Sou Martin Parr)

I am Martin Parr

Realizado por Lee Shulman, um realizador premiado de filmes publicitários e videoclipes, além de colecionador conectado ao The Anonymous Project, este documentário retrospetivo – que chega aos cinemas portugueses a 26 de março – acompanha Parr nos dias de hoje a reencontrar as suas fotografias mais antigas e a revisitar os locais por onde passou. Pelo meio, apresenta-nos algumas das pessoas mais próximas de si – a esposa, colegas, curadores e membros da equipa da Martin Parr Foundation, espaço expositivo que o fotógrafo criou em 2017, em Bristol.

Vinha do cinema, mas nunca tinha feito um documentário. Depois da exposição em Arles fizemos juntos um livro chamado Déjà Vu, onde pusemos lado a lado fotografias da minha coleção e fotografias do Martin. Era quase um jogo visual. Mais tarde, como vivo em Paris, surgiu a ideia de fazer um documentário. Contactei o Martin e ele disse logo que sim”, explicou Shulman ao C7nema, acrescentando que afastou imediatamente o cenário de fazer uma biografia convencional: “Propus uma viagem de estrada pelo Reino Unido, revisitando locais icónicos da  sua obra. Isso coincidiu com a coroação de Carlos III, por isso o timing foi perfeito. Passámos o verão juntos a viajar, filmando tanto os lugares históricos dos livros do Martin como momentos do presente.

Questionado se I Am Martin Parr lhe trouxe uma nova perspetiva sobre o seu trabalho, Parr diz que não, mas confessa o agrado por o documentário servir para mostrar o seu processo e o seu trabalho a outras pessoas. 

Martin Parr e Lee Shulman

Com cerca de 68 minutos, esta produção deixou muito material de fora, como nos confidenciou o realizador: “Muitas coisas ficaram fora. Horas de material. Sou da escola de filmes de 90 minutos, não das epopeias de três horas. Tivemos de cortar secções inteiras, como quando revisitámos a primeira casa do Martin em New Brighton. Para televisão ainda tivemos de reduzir mais, perdendo partes em preto e branco que adoro. Mas a France Télévision deu-me liberdade total e isso foi essencial.

Aprovando o resultado final, Parr diz que o projeto foi uma boa experiência. E quando é provocado por nós sobre quem gostaria que o interpretasse num eventual filme de ficção sobre si, dispara: Jim Broadbent.

Que bela escolha”, diz Lee, que não encerra a conversa antes de nos dizer que nunca teve na mente encher o documentário com entrevistas a fotógrafos que falassem do trabalho de Parr: “Não quis encher o filme de fotógrafos a falar sobre fotógrafos — acho aborrecido. Preferi vozes diferentes: a esposa dele, Susie, que foi fundamental; Grayson Perry, sempre brilhante; curadores, galeristas, músicos como Mark Benson. Um painel variado que mostra várias perspetivas sobre o Martin.”

Brexit

 ‘West Bay (Seagulls Eating Chips)’, 1996 – © Martin Parr

Reconhecendo que a viagem ao Reino Unido para realizar I Am Martin Parr também funcionou como reconciliação com o país, Lee Shulman diz que depois do Brexit se sentiu muito desiludido. “Quase virei costas ao país, mas ao viajar e filmar percebi outra vez a riqueza humana e cultural do país. No fundo, o filme é também uma carta de amor ao país — e um agradecimento ao Martin.”

Intrometendo-se na conversa, Martin fala também do desastre quando o tema é o Brexit: “Já ninguém acredita que foi benéfico. Até o Nigel Farage admite que falhou, embora culpe os conservadores. E os Trabalhistas também não têm coragem de propor o regresso ao mercado único.

Do analógico ao digital

Embora a sua carreira tenha começado em plena era analógica, Parr foi um utilizador entusiasta das tecnologias digitais e admitiu na nossa entrevista que possuía um iPhone 15: “A qualidade é tão fenomenal que muitas vezes escolho o telemóvel em vez da DSLR, sobretudo à noite. Claro que não posso ampliar tanto como com as minhas outras câmaras, mas a qualidade é fantástica.”

França, Cannes. Gucci. Cruise. 2018 – © Martin Parr

Essa abertura mostrou também um artista em constante adaptação e, mesmo rodeado por milhões de imagens que circulam diariamente nas redes sociais, Parr continuou sempre convencido da força da fotografia: “Sempre haverá imagens que sobem à superfície”, insiste, relembrando que continuam a existir imagens que se destacam: “através delas que muitas vezes recordamos a história. Pensemos na Guerra do Vietname: o que permanece são as fotografias icónicas, não as imagens em movimento.

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