Para quem não estiver inteiramente familiarizado com o imaginário daquela que foi uma das primeiras sitcoms da história da televisão, “Being The Ricardos” será logo à partida uma daquelas propostas com interesse reduzido. “I Love Lucy” foi uma sitcom que ao longo da década dos anos 1950 fez rir o público norte-americano com as aventuras e desventuras de Ricky e Lucy Ricardo, um casal ligado ao showbiz Nova Iorquino: os gags e peripécias giravam, isto de uma maneira muito geral, em torno dos planos engendrados por Lucy para sair da sua rotina doméstica de modo a “colaborar” com o seu marido e poder experienciar ela mesma o mundo criativo de Ricky, um entertainer num nightclub, e parte da popularidade da sitcom explica-se pelo facto de os atores por detrás de Ricky e Lucy serem também eles um casal na vida real (Desi Arnaz e Lucille Ball, aqui interpretados por Javier Bardem e Nicole Kidman). O filme realizado por Aaron Sorkin (“Os 7 de Chicago“) usa os bastidores da série como pano de fundo para uma viagem pelo ambiente cultural da época, uma abordagem que acaba por revelar simultaneamente aquilo que de mais interessante mas também limitado há trabalho do argumentista de “The Newsroom“.
O lado mais cerebral e trabalhado de Sorkin continua presente, precisamente pela insistência com que aborda as rotinas de produção de uma sitcom, acompanhando de perto quer a leitura conjunta do guião quer a gravação dos episódios. Mas cedo surgem os primeiros sinais de que a atenção dada ao papel da escrita no processo criativo não é suficiente para levar o filme às costas, logo a começar pela escolha absolutamente incompreensível de arrumar certos episódios narrativos à custa de um dispositivo de documentário falso, um conjunto de pretensas entrevistas no presente e para onde são encaminhados testemunhos de atores que no seu tempo trabalharam na produção da sitcom. É uma intromissão que quebra constantemente a imersão no imaginário criativo da época, numa encenação dramática já de si arrancada a ferros: não há nenhum espectador que seja capaz de ali encontrar vestígios da Lucille Ball histórica, tropeçando pelo contrário e cena após cena no completo absurdo que é a maquilhagem de Nicole Kidman.
De resto, o ambiente cultural da época é revisitado a partir de dois acontecimentos que colocam pressão sobre a produção, acabando por lançar dúvidas sobre a sua viabilidade futura. Primeiro, a vinda a lume de uma suposta afinidade comunista de Lucille, um fait divers desenterrado pela imprensa sensacionalista (um “nothing burger” como agora se costuma dizer), precisamente o tipo de acusação que em plena época de caça às bruxas poderia ditar o fim de uma carreira; e em segundo, a questão da maternidade de Lucille, que aqui aparece como pretexto para uma breve tomada de pulso sobre o lugar da televisão no imaginário popular da época.
Ora, é precisamente aqui que mais se fazem sentir as lacunas de Sorkin-realizador, um realizador cujo trabalho atrás das câmaras se encontra a anos-luz do trabalho que tem feito enquanto argumentista. Chega mesmo a provocar alguma surpresa a forma como Sorkin resiste a tecer um dos seus meta-comentários que têm o mundo dos media como ponto de partida, sobretudo pela forma como “apaga” a figura de Karl Freund, lendário diretor de fotografia (foi ele o diretor de fotografia de filmes como Metrópolis ou Drácula, por exemplo), uma figura com um papel que se pode dizer verdadeiramente destacado na história do cinema e que teve aqui uma experiência televisiva marcante. É o tipo de dado, chamemos-lhe assim, que nas mãos de um realizador como David Fincher nos convidariam a imaginar um resultado final bastante diferente deste pequeno desastre.



















