Já em cartaz na sua Espanha de origem, sem grande sucesso popular, Natal Amargo (Amarga Navidad) pode ganhar outro fôlego comercial, na Península Ibérica e no resto do mundo, após encantar Festival de Cannes na disputa pela Palma de Ouro. O prestígio do manchego Pedro Almodóvar saiu reforçado na receção calorosa da crítica e do público à produção da El Deseo.
“Os filmes que faço hoje são diferentes dos que fazia no passado, porque o cinema que procuro agora responde ao que me pede o coração. Pedi muito do meu humor e passei a fazer coisas mais sérias. Não sigo fórmulas, mas, no futuro, gostaria de recuperar mais a comédia — ainda que com um tom mais ácido”, disse Almodóvar, sem abdicar de alguma provocação: “O silêncio e o seu duplo, o medo, abalam a democracia”.
Aos 76 anos — nasceu a 25 de setembro de 1949, em Calzada de Calatrava, La Mancha —, o realizador regressa à Croisette determinado a conquistar a Palma de Ouro que ainda lhe falta, numa carreira já convertida em património do cinema contemporâneo. Desde Tudo Sobre a Minha Mãe, distinguido em Cannes antes de vencer o Óscar de Filme Internacional, Almodóvar tornou-se presença recorrente no imaginário do festival. Competiu seis vezes, exibiu a curta Estranha Forma de Vida fora de concurso e presidiu ao júri em 2017.
“Já fui duas vezes favorito aqui, e isso ensinou-me muito sobre o festival. Gosto de competir”, afirmou. O filme será distribuído em alguns territórios europeus com o título Autoficção.
“Procuro hoje alguém com quem escrever, alguém que traga um universo diferente do meu. Seria saudável mudar de direção. Vivo o cinema de forma apaixonada”, acrescentou.
Estruturado sobre jogos de espelhos emocionais, numa dinâmica especular de metalinguagem em combustão, Natal Amargo aprofunda a investigação sentimental que o realizador vem desenvolvendo desde os anos 1970. O filme acompanha duas histórias paralelas entre Madrid e as Ilhas Canárias. De um lado está Elsa, interpretada por Bárbara Lennie, uma publicitária devastada pela morte da mãe durante o Natal. Incapaz de processar o luto e soterrada pelo trabalho, sofre um ataque de pânico que a leva a abandonar Madrid e refugiar-se em Lanzarote, junto da amiga Patricia, enquanto o marido Bonifácio permanece na capital.
“Ver o Pedro num set é como ver miúdos a brincar num parque, pela energia que tem”, disse Milena Smit, colaboradora regular desde Madres Paralelas (2021).
A segunda linha narrativa acompanha Raúl Durán, cineasta e argumentista interpretado por Leonardo Sbaraglia, mergulhado numa crise criativa onde realidade e ficção se confundem. Sbaraglia já havia trabalhado com Almodóvar em Dor e Glória (2019), papel que valeu a Antonio Banderas o prémio de interpretação em Cannes.
“Este filme pode parecer um díptico com Dor e Glória, ao abordar a paralisia do criador. Trata-se de uma dor moral, agónica”, explicou o realizador.
Tal como nesse filme, regressa o dispositivo do “filme dentro do filme”. A metalinguagem, habitual no seu cinema, ganha aqui um carácter mais íntimo, transformando o acto de narrar num corpo sujeito a autópsia simbólica.
“Quando decidi que o meu lugar era atrás da câmara, senti-me mais forte. Hoje vivo essa paixão de forma mais dramática. Já passei dos 70. Se não encontro essa paixão no argumento, deixo-o repousar e volto a ele mais tarde”, concluiu.
O Festival de Cannes de 2026 decorre até 23 de maio.

