Não é a primeira vez que personagens criadas por Adam McKay profetizam uma desgraça iminente, mas se em “The Big Short” era o cinismo e a chico-espertice que movia uma sátira sobre os eventos que levaram ao descalabro económico causado pela bolha do imobiliário de 2008, em “Não Olhem Para Cima” é a descoberta de um cometa, em rota de colisão com a terra, e o desinteresse e desconfiança generalizado nisso, o leitmotiv para a construção de uma farsa onde entre a ironia e a paródia estapafúrdia não existe propriamente uma fronteira.
Tudo é profundamente caricatural e exagerado nesta nova aventura de Mckay no reino da comédia, um filme que nunca quer escapar ao hiperbólico e ao simulacro desmoderado sobre dois académicos, um professor de astronomia (Leonardo DiCaprio em modo hilariante) e uma estudante de doutoramento (Jennifer Lawrence em modo assertivo), que descobrem e calculam, com um grau de certeza muito relevante, uma desgraça cósmica que se avizinha.
Porém, num mundo onde os fait divers são as manchetes e geram discussões prioritárias (veja-se a separação do casal de músicos em cena, ou o escândalo sexual que envolve a administração), poucos se preocupam convenientemente com a desgraça anunciada pelos cientistas, a começar pelos líderes políticos, aqui personificados por uma Meryl Streep em modo Trump e um Jonah Hill hiper cáustico, mais preocupado com os jogos políticos, alianças, aparências e retorno eleitoral em torno do tema.
E existe também um milionário high tech, interpretado brilhantemente por Mark Rylance, que evoca os Bill Gates, Mark Zuckerberg’s ou Elon Musk’s “da vida”, o qual vê no cometa uma “oportunidade”. Claro que a imprensa, habilitada para aquilo que faz melhor hoje em dia, ou seja, fingir dar informação, mas oferecer na verdade entretenimento com um sorriso nos lábios, mesmo que anuncie a maior desgraça de todas, não sai ilesa de criticas, tal como os negacionistas, o absoluto descrédito da ciência, e a as redes sociais, que também elas transformaram discussões relevantes em exercícios de show off na caça a seguidores. Tudo passa pelo olhar do cineasta à velocidade da luz, com maior ou menor notoriedade e incisão, misturando-se comédia inteligente, surreal e muito sarcasmo com patetices slapstick e o já tradicional deadpan.

E a assinatura de Mckay, quer visual quer na palavra e mensagem, onde nem falta a chico-espertice de explicar algumas coisas desconhecidas no seu jeito muito próprio, está presente, embora seja notório um maior controle no olhar de cima para baixo como quem tinha informação privilegiada que não existia na época, como se via nos seus filmes que se baseavam em factos reais (novamente “The Big Short” ou “Vice”).
O resultado final é um filme profundamente tresloucado que aborda a forma surreal como vivemos hoje, tendo como ponto de partida um evento extremo e a eventual recção planetária a ele. Não é para levar de todo a sério este filme, mas também o é, pois a essência caótica de um mundo com as prioridades todas trocadas está lá e há que dar crédito a McKay por isso.




















