Existem múltiplas qualidades em “Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas”, a começar pelo desempenho magistral de Bradley Cooper, mas todas elas são soterradas no excesso de palavras, a um ponto crítico de alguém usar um substantivo corriqueiro da vida no dia a dia, tipo “mesa” ou “espelho” quando um desses objetos aparece em cena.
Guillermo Del Toro nunca foi um cineasta de forma apolínea. Mesmo a sua obra-prima, “El Laberinto del Fauno” (2006), é uma narrativa alquebrada, por vezes confusa entre o ser uma fábula e ser uma reconstituição da Espanha Falangista dos anos 1940. Mas o seu novo trabalho escorrega para o fundo de um poço no qual ele já resvalou muitas vezes, mas do qual logrou escapar: o abismo da “literatice”. Essa é uma expressão esmerilhada na Língua Portuguesa pelo escritor Érico Veríssimo (1905-1975), em “Solo de Clarineta”. Ele refere-se ao exagero do rebuscamento de metáforas ou mesmo de um palavreado que confunda a altivez do “falar culto” e a potência das figuras de linguagem com a urgência do “falar vulgar”, do exercício quotidiano da linguagem. Aplicando essa tese ao audiovisual, encontramos “literatices” em demasia na peleja que o realizador mexicano trava com o livro “Nightmare Alley”, publicado em 1946 por William Lindsay Gresham (1902-1962) para dele ordenhar uma seiva imagética poética. O problema é que, embevecido com a prosa titânica à sua frente, o realizador do oscarizado “The Shape of Water” (Leão de Ouro em 2017) preferiu sílabas a planos, fazendo um “filme falado”, sem respeito ao silêncio, sem atenção às subtilezas formais do filão noir, explicitando o que deveria ser sugerido. Como longa-metragem, é um belo livro. Como filme, é um trabalho pesadamente palavroso, que leva ao tédio.
Filmado antes em 1947, com Tyrone Power (1914-1958), sob a realização do londrino Edmund Goulding (1891–1959), “Nightmare Alley” é uma crónica de um mundo decadente, onde a pobreza é um diabo mais cruel que qualquer senhor do Inferno. É um ambiente que casa com comunhão de bens morais e cívicos com a América da Grande Depressão, após o crash da Bolsa de Valores de Nova Iorque. O seu anti-herói é um cão danado chamado Stanton “Stan” Carlisle, um charlatão (ou não) que finge ler mentes para ganhar uns trocos numa trupe circense com a qual vai vacilar… e muito. Tyrone e Bradley construíram a figura com uma profundidade trágica similar. Ele é o arquétipo da ambição burra, dos que se deixam tentar por tostões ou por curvas proibidas. A diferença é que o filme de Goulding deixava a imagem nos contar quem era Carlisle e o que o tentava. Del Toro parece querer legendar cada plano, com um falatório que explicita cada ação e – pasmem-se – até o que as personagens sentem. É literatura demais. Ou a tal “literatice” de que Veríssimo falava.
Exibido no encerramento do Festival do Rio, o filme de Del Toro abre com Stanton (Cooper) famélico, encontrando num circo chefiado por Willem Dafoe a chance de ganhar dinheiro para comprar umas bebidas. No grupo de artistas itinerantes, há um casal que finge mexer com as forças do oculto: Zeena e Pete (Toni Collete e David Strathairn). Ele bebe demais para dar conta do ardor sexual dela. Carlisle dá uma ajuda nesse quesito afetivo (e erótico) e, em troca, aprende sobre truques de telepatia. Mas ao se apaixonar por Molly (Rooney Mara), uma das funcionárias daquele empreendimento de pano, ele resolve partir com ela para uma vida mais luxuosa, enganado a elite de Nova Iorque com a “paranormalidade” aprendida com Zeena.
Num de seus espectáculos, Stanton conhece Lilith Ritter (Cate Blanchett), uma psiquiatra que o convence a se unir a ela para enganar pacientes e obter dinheiro deles. O que Stanton não imagina é que essa união ambiciosa causará problemas inimagináveis. Mais noir do que isso, impossível, sobretudo com Cate Blanchet emulando Lauren Bacall a cada frame. Mas há um toque autoral de Del Toro no diálogo com esse plot de Gresham.
Aficcionado pelo conceito de Karma, ou seja, dos débitos contraídos ao curso da Existência como saldo do livre arbítrio de cada um, Del Toro trouxe do México um fascínio pelos mundos onde a Morte é senhora soberana. Talvez por isso, o seu dinamismo (plástico e dramatúrgico) no trato com os tempos do pretérito é perfeito, como comprova o seu subestimado “Crimson Peak” (2015), ao contrário do que se vê quando ele ensaia olhares para o futuro (vide o desarranjado “Pacific Rim”) ou sobre o presente (caso do natimorto “The Strain”). A direção de arte feita por Tamara Deverell e Brandt Gordon em “Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas” é da ordem do esplendor, sobretudo quando galvanizada pela meticulosa fotografia de Dan Laustsen, que acaba travada quando a “verborreia” do guião de Kim Morgan e Del Toro sufocam o quadro e impedem-no de respirar. Porém, mesmo sob esse sufoco, há Del Toro ali.
Nos idos dos 1990 e início dos 2000, quando virou cineasta de culto filmando “Cronos” e “El Espinazo del Diablo”, ele já deixava esse apreço por dilemas cármicos impresso nas suas figuras. Mas, nos dois casos, ele estava no seio hispânico, a jogar em casa. Agora é cidadão hollywoodiano, detentor do greencard do escapismo. E lá, na Meca do entretenimento, o passado é a matéria onde ele opera melhor o trânsito com a fabulação, convertendo fantasia em horror – e a memória em trauma – em exercícios de autor que giram sob as rédeas do Grand Guignol (termo usado para espetáculos de terror mais naturalista, próximos da bestialidade). O carma de Stanton é deixar que a ambição tire a sua razão, animalize-o. Isso fica evidente quando ele, ao chegar no circo, conhece uma “aberração”, ou seja, um homem que age como uma fera, só por impulsos. Um monstro, como aqueles de que Del Toro tanto gosta. A narrativa deste seu novo filme é ditada pela animalização de Stanton. Pena que ela – tão potente – se deixe frear pela “literatice” de alguém que parece ter se deixado domar pelas “roteirices” de Hollywood.
Na sua passagem pelo Festival de Marraquexe, em 2018, Del Toro, ao responder uma questão do C7nema sobre o projeto de filmar a Liga da Justiça Dark (BD só com vigilantes dionisíacos, de moral torta),respondeu: “Pessoas de caráter aprumado, do tipo bonzinho, o tal do bom-mocismo, não me interessam. Cresci cercado de fábulas em que pessoas difíceis, de perfil torto, saem numa jornada de autodescoberta. Mais ou menos como acontece com Pinóquio, que eu estou a filmar, como animação. São figuras como essa que me interessam: pessoas que precisam se tornar boas para serem amadas”. Stanton tenta, mas tropeça na demasia de ser humano demais. E esbarra na conversa sem fim de um realizador que nem sempre se equilibra nas margens do acerto.

















