Subtileza é a bússola da dramaturgia de “Pai Nosso – Os Últimos Dias de Salazar”, mesmo quando o delírio passa a dar o tom da narrativa, numa interseção entre o real e o inusitado, como se comprova numa sequência em que um jornal é utilizado como arma para matar insetos. Alfinetada mais direta (e mais elegante) contra a imprensa é difícil de se encontrar no cinema de língua portuguesa. A inteligência do filme na sua análise geopolítica tem sabor como um vinho maturado. O lugar da oposição na media ganha contornos poéticos (e irónicos) na forma como José Filipe Costa esmiúça o calvário do estadista que carregou Portugal sob o peso do nacionalismo de 1932 a 1968. Trata-se de um estudo de corpo (com defeito) e mente (nas suas derradeiras erupções). A intimidade pregressa do seu realizador com o documentário, a se julgar pelo refrescante “Prazer, Camaradas!” (2019), evita que a ficção resvale no alegórico e se torne uma metáfora demasiadamente larga dos feudais em decadência.
Não cabe outro regente no posto de protagonista que José Filipe confiou ao ator Jorge Mota, como um signo de líderes em condição crepuscular. Só lá cabe António de Oliveira Salazar (1889-1970), pois é um filme pensado e estruturado sobre as suas vivências, num reflexo do Portugal sonhado por ele e do Portugal que viu o seu ocaso.
Existe sátira no engenho dramatúrgico do argumento escrito pelo cineasta com Letícia Simões e Daniel Tavares, num registo similar ao de Jonathan Swift (de “As Viagens de Gulliver”). Não é à toa que aparecem figuras antropomórficas, ou seja, pessoas com cabeça de animais, como se lia nos livros desse escritor. Como no humor swiftiano, a sociedade animaliza-se no seu ridículo quando a linguagem racional não é mais capaz de traduzir as inquietações e sentimentos que revelem as dinâmicas relacionais, em especial os paradigmas de controle.
Pautado por uma fotografia austera, que jamais se excede na temperatura das cores, “Pai Nosso” debocha do paternalismo inerente aos governantes populistas já no título. A paterna voz de comando de Salazar está a ser silenciada pela sua saúde. Somos levados a 1968, quando o seu comando de 36 anos está a ser encerrado após um desconcerto físico, decorrente de uma queda. A gravidade que o fez tombar vai mantendo-o vetorizado sob um estado de deterioração gradual no Palacete de São Bento. Lá, uma dedicada empregada, a governanta Maria de Jesus (interpretada por Catarina Avelar); uma equipa de servos leais; e o Dr. Eduardo Coelho (Guilherme Filipe), um médico visitante de diagnósticos firmes (“Recuso-me a ser coveiro deste homem”, diz) mantêm na psique do “doente” a ilusão da omnipotência.
O posto de Presidente do Conselho já pertence a outro (Marcelo Caetano), mas Salazar segue firme na linha da liderança, sem ver a finitude. O horizonte que guia as suas vistas é o de uma nação que deu ao campo um protagonismo económico numa Europa que tratou as suas áreas rurais com desdém. A sua aposta numa lógica conservadora faz-se notar nas frases cheias de ranço com que Salazar elabora o seu projeto de pátria… e de lar. Os seus acólitos percebem o Ubu Rei que ele se tornou, numa “patafísica” tragicómica, mas apiedam-se do seu estado e alimentam a sua majestade de outrora, não por uma disposição servil, mas por empatia. A conexão com as patologias do recente “Maria Callas”, de Pablo Larraín, formam uma parentela imediata com a engenharia estrutural de José Filipe. São dois filmes sobre estrelas rodeadas por súbditos fiéis… e preocupados.
A alusão ao igualmente outonal “Le promeneur du Champ de Mars” (2005), de Robert Guédiguian, é outra evocação cinéfila que a delicada autopsia em corpo vivo de Salazar desperta, numa montagem que enfrenta a melancolia de um povo, de uma época, de uma outra Europa.




















