Jukebox de melancolia de um país que se redesenhou à força de um cisma entre práticas da fé cristã, “Belfast” pode ser traduzido numa letra de (George I) Van Morrison, bardo por trás de um estudo sobre o pretérito perfeito de um artista, no meio das imperfeições políticas que o remodelaram. Rezam os versos de “Irish Heartbeat”: Oh won’t you stay / Stay a while with your own ones / Don’t ever stray / Stray so far from your own ones /Cause the world is so cold / Don’t care nothing for your soul / That you share with your own ones / Don’t rush Away / Rush away from your own ones / Just one more day / One more day with your own ones / Cause the world is so cold / Don’t care nothing ‘bout your soul /That you share with your own ones.

É esse o ethos de “Belfast”, o trabalho mais inspirado de Kenneth Branagh numa tentativa de dialogar pelas veredas do afeto e de trilhar caminhos narrativos ásperos, fazendo com os espinhos do risco não afastem as plateias que conquistou ao longo de décadas a serviço de Shakespeare. É um daqueles filmes embrulhados para o Oscar, indicado a sete Globos de Ouro da Hollywood Foreign Press Association, mas sem transcendências que avancem para além de sua doçura e de uma esmerada composição formal.

É uma narrativa que só ferve em três belas sequências, onde o virtuosismo da fotografia P&B de Haris Zambarloukos atinge um parâmetro de excelência sem parecer artificial. Duas delas estão ligadas ao chamado The Troubles, movimento separatista que cindiu a Irlanda do Norte de 1960 (quando a trama se passa) a 1998, numa divisão entre católicos e protestantes que ia além de credos, resvalando por elementos de ocupação espacial. E o terceiro grande momento desta dramédia memorialista enxuta (98 minutos) envolve uma situação de canto e dança na qual Jamie Dornan dá 50 tons de cinza (e de carisma) ao preto e branco que traduz as recordações de Branagh. Dornan esculpe a figura do pai de um clã alquebrada por tumultos socais com elegância e tridimensionalidade. Lembra (de novo) Van Morrison, só que na canção “Mey Father, nos versos: “My father always promised me / That we would live in France / We’d go boating on the Seine / And I would learn to dance / We lived in Ohio then / He worked in the mines / On his dreams like boats / We knew we’d sail in time /(…) I stayed behind the youngest still /Only danced alone /Hoping, hoping that my father’s Dreams /Would someday take me home”.

Há, sim, um gosto de uma formatação genérica nesse novo trabalho de Branagh, com conexões um tanto quanto forçadas com as cartilhas de “How Green Was My Valley” (1941), “Hope and Glory” (1987) e mesmo o pouco citado “In America” (2002), de Jim Sheridan. Mas, no equilíbrio de matizes do preto e do branco e no requinte dos enquadramentos, o novo Hercule Poirot supera sabor de “já vi isso por aí”, no canto da boca, que fica ao fim da projeção.

O que fica de lastro da longa-metragem é o estudo de uma pátria em convulsão e relevância da tolerância para se resistir à atomização da paz quotidiana, ainda que a tolerância em questão não seja vista em nível macro (estendida ao bem-estar social dos irlandeses) e, sim, circunscrita a uma única casa de classe média baixa, adotada como um microcosmos.

O charme com que Ciarán Hinds interpreta um avô atencioso para o menino Buddy (Jude Hill), o alter ego de Branagh, humaniza uma narrativa que segue as angústias de uma família – narradas pelo olhar do pequeno – achatada por um esboço de guerra civil armada na vizinhança. O erro do filme é que o excesso de virtude das personagens centrais faz deles algo “superlativo” em demasia para ser adotado como um parâmetro da vida irlandesa diária. Nesse ponto, o já citado empenho em fazer do lar de Buddy um cosmos modelo não resulta em algo crível. Em termos sociológicos, o filme não se sustenta como prometia. Vale mais sua dimensão emotiva.

Escolhidas com uma precisão cirúrgica, de modo a estabelecer conexão com a dramaturgia, as canções de Van Morrison, que inundam a trilha sonora de saudosismo, são um acerto a mais na narrativa do realizador de “Dead Again” (1991). É possível que tenha chegado a hora de Branagh levar um Oscar para casa, dando a Dornan um prestígio que ele ainda não tem – como ator, para além do status de galã -, catapultando ainda a (tremenda) atriz irlandesa Caitriona Balfe para o estrelato.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
Jorge Pereira
Guilherme F. Alcobia
belfast-nostalgia-de-um-passado-que-se-acreditava-perfeitoUm daqueles filmes embrulhados para o Oscar, mas sem transcendências que avancem para além de sua doçura e de uma esmerada composição formal.