Isac Asimov dizia que “a violência é o último refúgio do incompetente”, mas no caso de toda a saga John Wick, e agora na prequela-spinoff “ The Continental: From The World of John Wick”, ela o é Hoc non pereo habebo fortior me com nota artística. E é essa violência cravada a sangue, socos e (demasiadas) balas, que nunca esquece o seu papel de product placement ao serviço da indústria de armamento, que convoca diferentes formas de arte para alienar o espectador da real significância dos atos bárbaros em si, tentando transformar em arte o extermínio, sem qualquer reflexão em si mesmo. Curiosamente, já em “John Wick 4”, o Politico analisava uma cena em que a morte e explosão de violência não afetava um grupo de ravers em Berlim, que continuavam a dançar como se nada fosse: Os filmes da saga “parecem acontecer num mundo onde a morte cerca a todos constantemente, e a maioria das pessoas simplesmente ignora os atos de assassinato arbitrários e segue com as suas vidas”.
No último filme de Nanni Moretti, “O Sol do Amanhã”, há uma cena em que o italiano, como realizador de cinema contra a desapropriação de significado da violência nas telas, trava as filmagens de outro realizador para explicar porque uma cena é moralmente errada. A dinâmica dessa cena (alguém em pé aponta uma arma a alguém de joelhos), como ele diz, banalizou-se no cinema e TV num registo de cópia da cópia, e repete-se em “The Continental”, uma espécie de Ópera Ultraviolenta, ora rock, ora pop e, claro, clássica, dependendo da escolha da faixa musical que acompanha o espetáculo de artes marciais, Gun-Fu e tiroteios que assistimos por mais de 4h secos de gorduras palavrosas.
Mas não é só através da Música – com temas tão dispares de Black Sabbath a Donna Summer, passando por Baccara, entre dezenas de outros artistas – que a violência flui pelas telas de forma espetacular. Pelo meio, encontramos exercícios teatrais dramáticos (baseados no habitual crime e vingança), além de doses fartas de comédia negra, onde momentos que parecem vir do stand-up são convocados. Isso vê-se, por exemplo, no terceiro episódio, quando um atirador sequestra uma mulher no seu apartamento, fala com ela em ameno clima de flirt do quotidiano, enquanto mata à distância qualquer dos assassinos que surgem nas janelas no Hotel Continental.
A tudo isto acresce, claro, uma dança macabra de corpos em luta – altamente coreografados -, e uma direção artística e de fotografia que dão à Nova Iorque dos anos 70 o feeling “Gotham City”, onde cada frame é meticulosamente tratada e enquadrada como uma Pintura, Escultura ou Fotografia recauchutada num objeto cinemático manchado a vermelho. E, naturalmente, não podemos esquecer a montagem, delirantemente movida a esteroides, sempre pronta a acelerar os movimentos para fornecer ao espectador uma linguagem de Cinema invadida pelos códigos dos videoclipes, comics, videojogos e POV da era pós-Matrix. E a palavra comic, especialmente no nosso mundo atolado de objetos Marvel e DC, ganha particularmente ênfase aqui, não fosse este “The Continental” uma origin story de Winston Scott (Colin Woodell) e Charon (Ayomide Adegun) que nas telas cinematográficas eram encorpados por Ian Mcshane, como o proprietário do território neutro que alberga assassinos, e Lance Reddick, o concierge dessa propriedade.


Nesta série de cerca de três episódios conhecemos um pouco as suas histórias, particularmente quando Winston entra em confronto com o líder do Continental na década de 1970, Cormac (Mel Gibson), um impiedoso vilão que usa a cultura do medo e a morte para angariar súbditos, ou meninos-soldado como ele diz.
Esse atrito entre as forças, que já vem de tragédias do passado, é bastante impulsionado quando Winston descobre que Cormac colocou o seu irmão, Frankie (Ben Robson), na lista de alvos a abater após este roubar um objecto que permite cunhar a moeda de transação no seio da cúpula.
Um grande número de personagens são apresentadas e envolvidas numa guerra aberta entre várias facões, com “O Inverno do Descontentamento” britânico, a ascensão dos grupos mafiosos, e a rutura do sistema de higiene urbana, motivada por uma greve em Nova Iorque, a servirem de inspiração para o ambiente viril e plúmbeo da série, que recria a Nova Iorque suja dos 1970, repleta de crime.

E nessa introdução de personagens, a série dá também tempo de antena para as suas vidas anteriores à Nova Iorque em que estamos, como acontece com Yen (Nhung Kate), cuja origem leva-nos a Saigão, e à dupla Lou e Miles, de raízes locais, no meio de uma luta (também ela racial) por território.
No lado da vilania, o destaque vai completamente para a dupla Hansel (Mark Musashi) e Gretel (Marina Mazepa), assassinos fortemente estilizados que nas mãos dos realizadores Albert Hughes e Charlotte Brändström, e principalmente no diretor de sequências de ação Larnell Stovall, entregam um conjunto de lutas memoráveis, onde Matrix, Jackie Chan e Buster Keaton se fundem estranhamente numa variante bizarra dos irmãos Grimm. E mesmo sem essa dupla de gémeos, existem outras sequências avassaladoras e de encher o olho, como uma invasão a um prédio logo no primeiro capítulo que nos leva a “The Raid” e “Tom yum goong”,.
Na verdade, “The Continental” sente-se, principalmente no primeiro e terceiro episódios, como material para uma sala de cinema, mas a sua essência e fórmula expansiva para multiplicar histórias, personagens e outras geringonças encaixa bem na sua forma episódica construída para streaming, sempre a piscar o olho a sucessos como “Peaky Blinders” e “Gangs of London” no ambiente de guerra de facções, mas sempre no seu molde à la “John Wick”.
Por tal, esta série merece uma olhada atenta por todos os fãs de ação over the top e de playlists de ultraviolência – em particular dos fãs mais acérrimos de Wick. Tudo inserido num pop que não esquece referências, seja o Blacksploitation (vê-se um poster de Coffy no hotel), seja ao MCU, com Yen a lançar uma cadeira à Capitão América e dar uma marretada à Thor, numa questão de segundos, e até mesmo o famoso “woodpecker”, que faz o seu som som característico numa sala de cinema abandonada que serve para refúgio de algumas das personagens.
Na realidade, toda a saga de John Wick têm momentos espampanantes em locais culturais, seja um teatro recheado de bailarinas, um museu, uma biblioteca, e agora uma sala de cinema vazia e poeirenta, numa clara alusão aos sinais dos tempos e como algumas artes sofrem mais que outras.
O que se segue no Universo John Wick?
A franquia começou com o lançamento de “John Wick” em 2014, seguido por três sequelas: “John Wick: Chapter 2” (2017), “John Wick: Chapter 3 – Parabellum” (2019) e “John Wick: Chapter 4” (2023). Depois deles, temos esta prequela/spin-off, “The Continental: From the World of John Wick”, e em 2024 vai surgir o filme “Ballerina”.
Especula-se também que poderão existir séries em torno do The Bowery King, que neste “The Continental”, além das personagens de Sofia (interpretada por Halle Berry em “John Wick 3”, Akira (interpretada por Rina Sawayama )e Caine (interpretado por Donnie Yen):
Crossovers com “Atomic Blonde” e “Nobody” também já geraram rumores.

