Adaptado do romance de Brenda Navarro, Ceniza en la boca, a quarta longa-metragem de ficção realizada por Diego Luna, demonstra já uma grande maturidade do ator mexicano transformado em realizador, que muito antes de fazer as delícias dos fãs de Star Wars com Rogue One e Andor, já tinha conquistado o público ao lado de Gael García Bernal em Y tu mamá también (2001), de Alfonso Cuarón.

Na realização, Luna assinou anteriormente Abel (2010), César Chávez (2014) e Mr. Pig (2016), filmes onde já demonstrava um forte interesse por figuras parentais, de certa forma falhadas, ausentes ou incapazes de proteger plenamente os filhos. Nelas, o mexicano nunca as absolve, mas também não as reduz a vilãs.

Em Ceniza en la boca seguimos Lucila (Anna Díaz), uma jovem que, juntamente com o irmão, é deixada temporariamente no México pela mãe, Isabel (Adriana Paz), que parte para Espanha em busca de uma vida melhor. Anos depois, a família reencontra-se em Madrid, mas Luna nunca filma esse reencontro como uma reconciliação fácil ou ponto de redenção. Pelo contrário, é aí que as fraturas do seu relacionamento com a mãe — particularmente na forma como tem de ser adulta antes do tempo — se tornam mais visíveis, com Lucila e o irmão a reagirem de formas diferentes à nova vida em Espanha. Enquanto ele se multiplica em problemas de comportamento, revelando dificuldade em encaixar, ela tenta adaptar-se e sobreviver. Para isso, parte para Barcelona, onde se divide entre trabalhos precários (cuidadora, estafeta) e uma relação amorosa com um “gringo” marcada pela mentira, numa tentativa de esconder a instabilidade que domina o seu quotidiano.

Se há algo que sobressai na abordagem de Diego Luna à obra de Brenda Navarro, é o arranjo estético que a fotografia de Damián García alcança. Fora dos clichés visuais exóticos associados a diferentes países e cidades, e oscilando entre distância e proximidade em relação à protagonista, Luna (e Damián) consegue transportar o espectador para os mundos instáveis que Lucila atravessa, olhando a migração não apenas como uma forma de deslocação física, mas como uma condição de permanente disfarce, pois no México ela vive num espaço onde desaparecem pessoas sem explicação clara (suspeitamos de brigadas de narcotráfico, mas nunca é dito isso explicitamente), e em Espanha tem de fingir ser outra pessoa para manter as relações.

Luna evita uma abordagem política direta da migração, preferindo antes uma contenção focada nas relações humanas. A sua abordagem recusa o excesso emocional, nunca transformando Lucila numa mera vítima ou a mãe numa vilã. O filme prefere permanecer numa zona cinzenta da moralidade, onde decisões erradas geram novas intenções e onde o amor familiar não se destrói, mas se adapta.

A estrutura narrativa começa e termina no México (ainda que sugira nova mudança), sendo introduzidas separações de capítulos por um rasgo de branco que sugere um fim de ciclo e recomeço, sempre com uma tristeza genuína e uma ideia clara do que o cineasta quer — e de como filmar. No meio disto é Anna Díaz quem verdadeiramente brilha, dos pequenos aos grandes gestos, das grandes às pequenas palavras.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
ceniza-en-la-boca-maturidade-e-fratura-no-cinema-de-diego-lunaLuna (e Damián) consegue transportar o espectador para os mundos instáveis que Lucila atravessa, olhando a migração não apenas como uma forma de deslocação geográfica, mas como uma condição de permanente disfarce