Certos filmes dão lições sem recorrer a esquematismos didáticos, convertendo o ecrã numa lousa através da condensação de matérias académicas em dramaturgia profundamente dialética, como acontece em L’Abandon. O título pode sugerir um enredo sentimental, mas o que surge é um thriller contundente sobre as sequelas do atentado ao Charlie Hebdo, em 7 de janeiro de 2015. O argumento de Vincent Garenq e Alexis Kebbas não revisita diretamente essa data, mas uma tragédia derivada: a decapitação do professor Samuel Paty, em 16 de outubro de 2020, em Yvelines. Antoine Reinartz interpreta a personagem com maturidade, expondo o medo crescente perante as ameaças. Garenq condensa em 1h40 uma leitura quase foucaultiana da microfísica do poder — aqui, da difamação.

Nos seus escritos, Michel Foucault defendia que “o poder está em toda a parte” e que “se exerce mais do que se possui”. Ambas as ideias atravessam a construção dramática de L’Abandon.

Conhecido por L’Enquête (2014) e Au Nom de Ma Fille (2016), Garenq explora a forma como a política afecta o campo emocional coletivo, sem perder de vista o indivíduo. Após uma abertura algo redundante, o filme encontra rapidamente o seu rumo e evita sensacionalismos ou maniqueísmos. Não há bons nem maus — há atos brutais. A narrativa centra-se nos onze dias que antecedem o crime, confiando na montagem de Aurique Delannoy para gerar um desassossego constante, sem anular o distanciamento crítico, sobretudo face à presença do Islão.

O espectro do atentado ao Charlie Hebdo atravessa toda a obra. Em janeiro de 2015, os irmãos Saïd Kouachi e Chérif Kouachi atacaram a redação do jornal, matando doze pessoas e reconfigurando o debate europeu sobre liberdade de expressão e radicalização. Paty surge, cinco anos depois, como extensão dessa fratura: não morreu apenas por caricaturas, mas por representar simbolicamente uma República laica em confronto com os seus próprios limites.

Garenq evita o panfleto. A sua personagem não é um herói idealizado, mas alguém vulnerável, que teme e insiste — porque acredita no ato de ensinar. O seu espaço de escuta foi interrompido cedo demais. Cabe ao filme preservar esse legado democrático.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
labadon-a-microfisica-da-caluniaGarenq evita o panfleto. A sua personagem não é um herói idealizado, mas alguém vulnerável, que teme e insiste — porque acredita no acto de ensinar.