Recentes (e precisas) analogias entre o frenético “John Wick: Chapter 4” – em fase de estreia -e o elétrico “Mad Max: Fury Road”, lançado no Festival de Cannes de 2015, repetem-se pela imprensa especializada num indício de que os dois são uma espécie de “filme b gourmet”. Isto quer dizer: gastam um farto orçamento para simular técnica e tecnologicamente o que antes, lá pelos anos 1970 e 80, era resolvido com artesania, expressa em truques de câmara, cortes bruscos na montagem e litros de sangue falso.
Mesmo não sendo um petisco B de raiz, como se via, no género de ação, com os filmes da produtora Cannon com Chuck Norris e Michael Dudikoff, o quarto (e arrebatador) segmento da franquia inaugurada em 2014, com Keanu Reeves, notabiliza-se por emular (bem) o espírito anárquico das narrativas pop da pancadaria do passado, distinguindo-se dos “filmes de algoritmo” dos nossos dias pela sua absoluta entrega à vertigem e desdém à ditadura moralizante do politicamente correto. É cinemática pura, como se via nas comédias de Buster Keaton no início do século passado. Até o cabelo comprido de Reeves lembra o visual da estrela de “The Cameraman” (1928), nas correrias sem fim.
Corre-se muito ao longo das duas horas e 49 minutos de “John Wick: Chapter 4”, em parte por um interesse de Wick, um assassino infalível vivido por Reeves, querer se vingar dos antigos parceiros da organização chamada High Table, uma espécie de guilda criminosa de escopo global. Mas há, também, a parte (cheia de humor, por vezes involuntário, diante de mirabolantes peripécias do anti-herói) em que Wick foge dos antagonistas. Há uma sequência numa escadaria francesa em que se ri de nervosismo. O mesmo vale para as mil e uma situações em que um bandido encarnado pelo duplo e produtor chileno Marko Zaror (estrelado filme de super-heróis latino “Mirageman”) escapa da morte. Mas é um riso ao acaso. Na verdade, existem muitos acasos nessa cinessérie cuja faturação cresce a cada filme.

Foi meio por acaso que Reeves entrou neste projeto. Tudo parece força do acaso na vida deste ator canadiano nascido há 58 anos no Líbano, filho de uma figurinista, que foi influenciado a viver de Cinema pelo padrasto, o realizador Paul Aaron. Há nove anos, ele tem ampliado o seu prestígio – aberto na década de 1990 com “Point Break” e “Speed” – no papel do matador de aluguer sempre vestido de preto. Desde o seu lançamento, sem nenhum alarde, numa época de escolhas infelizes na carreira de Reeves, a franchise “John Wick” já arrecadou cerca de 584,5 milhões de dólares. O primeiro capítulo, era um thriller orçado em 20 milhões de dólares. Mas o seu resultado no box-office internacional- US$ 86M – atirou o eterno Neo de “Matrix” (1999) numa nova onda de consagração. Ele passou a ser visto como um avatar, pelas suas ações caridosas (muitas vezes anónimas) e começou a investir em outras artes, como as BDs, escrevendo uma minissérie, “BRZRKR”, para a Boom! Studios, já prestes a ser filmada.
O seu êxito veio da estética imposta pelo seu realizador, o então estreante na direção Chad Stahelski, um lutador de kickboxing que trabalhava (muito… e bem) como duplo de cinema. Ele teve como codiretor David Leitch, também duplo e produtor, que lhe deu um apoio na criação de uma linguagem 100% cinemática. O termo ao lado é uma referência de movimento, termo conduzido por Stahelski de modo frenético, levando a ação a parâmetros dignos de um cartoon do Beep-Beep contra o Coiote. As normas de gravidade e a sua verossimilhança são dignos da Acme, aquela fábrica fictíciados desenhos animados “Looney Tunes”, do Bugs Bunny. Como naquelas animações alucinadas, o argumento dos calvários de Wick é um fio muito ténue mas serve de vetor a cenas de combate de um grau de vertigem singular.
Na primeira longa-metragem, Wick (Reeves) vivia o luto da mulher, repousando os seus afetos através de uma cadela, Daisy, herança de sua finada paixão. Quando uns mafiosos russos invadem a sua casa, sem saber quem ele é, para lhe roubar o carro, e matam o animal, o homem temido em todo o submundo desperta da sua letargia e espalha chumbo pela América. A revanche pessoal foi feita lá no filme inicial. Surgiu então “John Wick: Chapter 2”, onde Reeves é procurado por um novo criminoso, desta vez o italiano Santino (Riccardo Scamarcio). Este quer que Wick mate a sua irmã, Gianna (Claudia Gerini), de modo a assumir o trono mafioso oferecido a ela. O crime é cometido, apesar de Wick não querer cumpri-lo. Mas, ao fazê-lo, Santino resolve colocar a cabeça dele a prémio, o que gera uma sucessão de balas, socos e fugas nunca antes vistos – de maneira tão feérica – no grande ecrã. Ali fomos apresentados à Cúpula, que, no terceiro filme, “Parabellum”, de 2019, resolve excomungar Wick e caçá-lo.
É hora de ele dar o troco, mas algo complica isso: um aristocrata chamado Marquês (um sombrio Bill Skarsgård), líder da Cúpula, que resolve eliminá-lo contratando um antigo amigo de Wick, o artista marcial com deficiência visual Caine (papel de Donnie Yen), para exterminá-lo. E entra ainda em cena outro assassino, infalível no gatilho, Nobody (encarnado pelo eficaz Shamier Anderson) e a sua cadela violenta. Essa fauna de tipos que ronda o universo Wick evoca as personagens das BDs da DC, sobretudo as do submundo de Gotham City. Eles têm os seus arquétipos bem valorizados na maneira taquicárdica de Stahelski filmar, com o apoio da dinâmica montagem. A fotografia de Dan Laustsen (que trabalhou em “The Shape Of Water”) fornece um acabamento luxuoso a perseguições exuberantes. Há uma, no Arco do Triunfo, que roubam o nosso fôlego, sem tirar de Reeves espaço para explorar as inquietações existenciais de Wick, mesmo restrito a poucos diálogos.
















