Difícil não mencionar Alfred Hitchcock, Roman Polanski ou Brian De Palma para falar do novo filme de Asghar Farhadi, Histoires parallèles (Histórias Paralelas), um drama sobre voyeurismo, não tanto como matéria para o suspense, mas para a criação artística, nomeadamente através da escrita e da projeção. Nele, a realidade inspira a ficção e esta acaba por contaminar a realidade, com a escrita, imagem e som, sobretudo na sua interpretação e reinterpretação, a fabricar associações que parecem reais.
Adam (Adam Bessa), um homem desempregado, evita o roubo de uma carteira no metro. Depois disso, a vítima, Laurence (India Hair), propõe-lhe o emprego de ajudar a mãe, Sylvie (Isabelle Huppert), que ela pretende retirar da casa onde sempre viveu para suprir necessidades monetárias ligadas a uma gravidez planeada.
Escritora reclusa, brilhante, mas fora do seu tempo, como a própria o diz , Sylvie observa os vizinhos — Nita (Virginie Efira), Théo (Pierre Niney) e Nicolas (Vincent Cassel) — do outro lado da rua através de um telescópio, dando-lhes uma vida reimaginada num livro que escreve. Ela transforma as suas vidas em ficção, dando-lhes nova existência nas suas páginas. Anna é a versão ficcional de Nita; Christophe, va ersão ficcional de Théo; e Pierre, a versão ficcional de Nicolas. Nessa criação fictícia de uma história que une os três, Anna tem uma relação com Christophe, mas mantém um caso com Pierre. O que Sylvie desconhece, e que Adam irá descobrir, é que este grupo de sonoplastas é, na verdade, composto por dois irmãos e pela mulher de um deles. Adam é assim o gatilho, devido à obsessão que começa a ter por Nita, para que a história ficcional chegue até ao trio real, criando grandes desconfortos e interrogações sobre a perceção que os outros têm de cada um deles.
É no elenco estelar, em particular em Virginie Efira e Isabelle Huppert, e na reflexão sobre o poder das histórias, que o filme encontra a sua força. Ainda assim, várias redundâncias e repetições, sobretudo na aproximação de Adam a Nita, retiram fôlego e engenho ao conjunto. Por outro lado, Farhadi volta a trabalhar um território muito próprio, presente em toda a sua filmografia: o do desafio das percepções, além da complexificação moral das personagens e o peso da reputação e do julgamento dos outros. É precisamente quando passam a reconhecer uma ficção como possível percepção da sua própria realidade que todas as personagens começam, progressivamente, a reavaliar o quotidiano e a alterar comportamentos, abalando as suas dinâmicas até ao colapso do grupo.
Existe, claro, aqui, uma parábola típica de Farhadi, na qual a verdade nunca é um dado absoluto, mas matéria instável, moldada por percepções e suspeitas. Como tantas vezes no seu cinema, basta uma dúvida para corroer as relações, expor as fragilidades e transformar a vergonha e o medo de julgamento em forças destrutivas.























