Cães atravessam vários momentos de Siempre Soy Tu Animal Materno (2026), como sinais de uma necessidade de amparo, seja de uma natureza ainda não tocada pelo chamado “processo civilizatório”, seja dessa mesma “civilização” — que procura refúgio na poesia, mas abusa de animais indefesos para se afirmar forte. É muitas vezes o sector mais machista do mundo dito civilizado que transforma os seus cães num estandarte de virilidade. Não por acaso, várias figuras masculinas nos planos da realizadora Valentina Maurel agem com mais agressividade do que muitas feras. Até um polícia chamado a ouvir uma miúda em apuros exibe a sua empáfia, desvalorizando um corpo que considera vulnerável. Trata-se de um signo de bestialidade estrutural e institucional, típico das Américas, no seu lastro colonial. A possível saída para esse latido das bestas está no sentimento de “frátria”, isto é, numa ideia de amor fraterno. Esse é o assunto da nova longa da cineasta costa-riquenha que já tinha abordado a paternidade em Tengo Sueños Eléctricos (2022), filme que lhe valeu o prémio de Melhor Realização em Locarno, há quatro anos, além da distinção Horizontes Latinos de San Sebastián.
Numa dinâmica narrativa de andanças, Elsa (vivida com rigor por Daniela Marín Navarro) regressa à sua Costa Rica natal depois de ter passado longo tempo na Europa. Tem 28 anos e acaba de chegar da Bélgica (país coprodutor da produção). Volta a fim de se reconectar com a irmã mais nova, Amalia, de 20, que se deixa levar por um caminho tão esotérico quanto aberto a companhias perigosas. Enquanto o pai, Nahuel, procura segurança por meio de uma série de conquistas amorosas, e a mãe, Isabel, se dedica à reedição dos poemas eróticos da sua juventude, Elsa parece ser a única a observar a ruína à sua volta. Ruína familiar e ruína social. Sabe os tais cães supracitados? Pois ela sabe dar-lhes colo, mas sabe também separar latidos de uivos, detectando os lobos que espreitam Amalia e a mãe. A sua dúvida actual é: deve tentar salvar uma irmã que se recusa a ser salva ou, por sua vez, fugir?
Essa pergunta estrutura-se numa narrativa ligeira, na qual a fina montagem de Bertrand Conard deixa transparecer a agilidade de uma cidade onde se atropela a angústia alheia no fluxo da urgência financeira e na fantasmagoria da falta de segurança nas ruas. É nesse cenário que Elsa, uma jovem adulta, passa por uma reeducação simultaneamente sentimental e geopolítica, repensando os laços da fraternidade como versos do poema épico que a ideia clássica de “família” um dia representou. A interpretação impecável de Daniela Marín Navarro dá-nos uma personagem cheia de complexidade (e fome de viver) que Maurel sabe dissecar átomo após átomo.
Nicolás Wong Díaz conduz a direção de fotografia sem se render às armadilhas documentais tão comuns ao cinema latino hispânico e lusófono. Na obra, ainda inicial mas já autoral, de Maurel, tal esquematismo não tem lugar. As ruas que filma são como selvas avessas à semiótica que inventaria signos de pobreza ou de estranheza de classe média. O cinema dela procura ver pessoas sem as reduzir a arquétipos da Sociologia. As suas personagens fogem às regras. A única regra de Elsa é amar.




















