Viva, a primeira longa-metragem da atriz catalã Aina Clotet enquanto realizadora, acompanha uma mulher que tenta reconstruir a relação com o corpo, o desejo e a liberdade depois de sobreviver a um cancro da mama. “O filme não trata do cancro, mas da consequência que ele deixa no corpo”, explicou a cineasta ao C7nema, recusando transformar a doença no centro da narrativa.
Em vez disso, Viva interessa-se pelas marcas emocionais e físicas deixadas pelo trauma e pela necessidade de reaprender a viver depois dele. Longe do drama inspirador convencional, o filme move-se entre humor e o erotismo, a fragilidade e a raiva, acompanhando uma mulher que questiona todas as estruturas da sua vida enquanto tenta reapropriar-se da própria identidade.
Na Semana da Crítica do Festival de Cannes, Clotet falou ainda sobre o olhar feminino do filme, a dimensão autobiográfica da escrita e o desafio de realizar e interpretar simultaneamente uma obra tão íntima.

Como nasceu esta história e qual era a importância de contar uma narrativa tão feminina, tão ligada ao corpo e às consequências físicas e emocionais do cancro?
Sinto que ainda há um longo caminho a percorrer nesse sentido. As mulheres têm muitas coisas para contar e é importante que sejamos nós próprias a contar essas histórias, a escrevê-las e a realizá-las, para que possam finalmente ser mostradas a partir do nosso ponto de vista.
No fundo, este filme conta a história de uma mulher na qual muitas outras mulheres se podem rever — e acredito que também muitos homens podem descobrir coisas através dela.
Como ainda não existem tantas histórias centradas nas mulheres e no desejo feminino, sentimos necessidade de continuar a fazê-las.
Falaram com mulheres que passaram por cancro da mama?
Sim, investigámos muito. É um tema muito próximo da realidade de muitas mulheres.
Mas, honestamente, nunca quisemos que o filme fosse “sobre o cancro”. Não sentimos que seja isso que o filme está realmente a contar. O que nos interessava eram as consequências físicas e emocionais que ficam inscritas no corpo depois de uma experiência assim.
Falámos com muitas mulheres que passaram por isso e pesquisámos bastante, até sobre o tipo de cicatrizes.
Mas a ideia era sobretudo mostrar como uma experiência traumática e extrema pode levar alguém a questionar toda a sua vida, todas as estruturas em que assentava a sua identidade. A protagonista sente uma marca física e emocional muito profunda e começa a tentar reapropriar-se da própria vida.
Como construiu as personagens masculinas do filme? O marido e o amante parecem representar forças muito diferentes.
O Tom representa a estrutura, a estabilidade e também o passado. É a pessoa com quem ela acreditava que iria passar toda a vida.
Já o Max representa o presente, o risco, aquilo que ela deseja descobrir porque quer voltar a sentir-se viva. Ele simboliza a vontade de romper com as estruturas antigas.
São duas figuras opostas, mas eu queria que ambas fossem muito belas emocionalmente. O filme nunca foi pensado como uma história sobre “com quem é que Nora vai ficar”.
O verdadeiro centro da narrativa é ela própria: uma mulher em crise, que precisa primeiro de aprender a estar sozinha antes de conseguir estar bem com alguém.
Qual foi o maior desafio que encontrou pela frente ao fazer este filme?
Foram muitos desafios em muitas fases diferentes. Tive uma equipa maravilhosa que tornou o processo mais luminoso e mais fácil, mas foi um percurso muito longo. E também foi exigente conciliar a realização com a interpretação.
É um filme com muitas camadas e que exigiu muito trabalho. O desafio esteve presente em cada etapa do processo. Mas, ao mesmo tempo, foi um desafio muito bonito.
Começou como atriz. Sempre quis realizar ou foi algo que surgiu mais tarde?
Quando entrei na universidade e comecei a estudar audiovisual percebi que gostava muito de escrever e pensei que um dia gostaria de realizar. Durante muito tempo concentrei-me sobretudo na carreira de atriz, mas sempre soube que eventualmente iria querer dirigir os meus próprios projetos.E foi isso que comecei a fazer há alguns anos.
Existe algo de autobiográfico neste “Viva”?
Sim, há muitas coisas minhas neste filme. E também muitas coisas da Valentina Viso, a coargumentista. Existe muito da nossa geração ali dentro.
Tenho muitas coisas em comum com a Nora. Os temas do filme são temas que me inquietam há muito tempo e que sempre tentei compreender melhor na minha própria vida.
Apesar dos temas pesados, o filme tem bastante humor. Como equilibrou esses dois lados?
Para mim, a vida é sempre uma mistura de tons. Não consigo imaginar a vida sem humor. Acho que o humor é uma das formas mais importantes de enfrentar as coisas difíceis e complexas.
Tinha muito claro que queria que o filme fosse leve, luminoso e libertador. Queria que as pessoas pudessem rir em muitos momentos, mesmo sendo uma história emocionalmente profunda e difícil.
O que significa para si estrear o filme em Cannes?
É muito importante. Não consigo imaginar um lugar melhor para estrear a minha primeira longa-metragem do que a Semana da Crítica em Cannes. Sinto-me extremamente afortunada por ter sido selecionada.
Já está a trabalhar em novos projetos?
Agora vou realizar a segunda temporada de uma série que já tinha dirigido.
E também já estamos a pensar no próximo filme.
Quer continuar sobretudo no Cinema ou sente o mesmo interesse pela televisão?
Gosto de contar histórias. Acho que cada história encontra naturalmente o formato de que precisa. Algumas precisam de um filme, outras precisam de uma série.
Depende totalmente daquilo que se quer contar.

