“Cinco Tipos de Medo” atira álcool para a fogueira do cinema de ação latino-americano

(Fotos: Divulgação)

Vencedor do prémio Kikito de Melhor Longa-Metragem no Festival de Gramado e programado pelo Festival de Paris para exibições neste fim de semana, Cinco Tipos de Medo (2024) estreia esta quinta-feira no Brasil com sequências de tiroteios e confrontos físicos que reavivam a discussão sobre a viabilidade do cinema de ação na América Latina. Bruno Bini, responsável por esta produção oriunda do estado do Mato Grosso, conquistou também o prémio de Montagem pela edição visceral de perseguições ligadas ao traficante Sapinho (o rapper Xamã), cuja actividade altera a vida de quatro personagens.

No mês passado, a Netflix estreou uma narrativa igualmente marcada pela adrenalina, realizada por Pedro Morelli: Salve Geral: Irmandade. Derivado da série Irmandade, o filme coloca Seu Jorge no comando de uma facção criminosa. A narrativa acompanha os dilemas de uma advogada que tenta salvar a sobrinha de agentes policiais corruptos durante um dia de paralisação na maior metrópole do país. O nível de confrontos aproxima-se do modelo hollywoodiano popularizado pela saga John Wick.

No final de janeiro, o thriller argentino Gatillero afirmou-se como uma das sensações do Festival de Roterdão, consagrando o realizador Cris Tapia Marchiori como um nome a acompanhar. Trata-se de um filme de ação de grande rigor técnico: após sair da prisão, o assassino profissional Pablo El Galgo (Sergio Podeley) aceita um trabalho encomendado por um cartel liderado por uma figura conhecida apenas como Madrinha. Quando descobre que o alvo é precisamente essa líder, vê-se forçado a fugir numa sucessão de perseguições intensas. Filmado em locações reais de Isla Maciel, o filme decorre em tempo real ao longo de uma única noite.

“Pensando na ideia de ação, a proposta de Gatillero foi sempre fazer algo diferente. A ação convencional constrói o ritmo através da montagem, da alternância de planos. Aqui quisemos criar tensão sem depender desse recurso, alcançando uma sensação distinta”, explicou Tapia.

Historicamente, a região tem explorado a violência mais sob um prisma social do que puramente genérico. Obras como Kóblic (2016), de Sebastián Borensztein, com Ricardo Darín, centraram-se na memória da ditadura. Ainda assim, títulos como Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, nomeado ao Óscar em 2004, e Tropa de Elite (2007), vencedor do Urso de Ouro em Berlim, tornaram-se referências incontornáveis. A estes juntam-se MirageMan (2007), de Ernesto Díaz Espinoza, Perro Come Perro (2008), de Carlos Moreno, e Luna de Cigarras (2014), de Jorge Diaz de Bedoya. No Brasil, houve ainda incursões como O Doutrinador (2018) e Segurança Nacional (2010).

“O Homem de Ouro” evoca a gênese do Esquadrão da Morte

A ação tem encontrado maior espaço nas séries televisivas, com exemplos como Arcanjo Renegado (2020), Cangaço Novo (2023), Impuros (2018), A Divisão (2019) e DNA do Crime (2023). Já O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho, distingue-se mais como thriller de espionagem, na linha de Three Days of the Condor (1975).

No passado, cruzando-se com o chamado romance-reportagem, destacaram-se filmes como Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), de Hector Babenco. Nos anos 1990, Marçal Aquino e Beto Brant desenvolveram uma trilogia marcante composta por Os Matadores (1997), Ação Entre Amigos (1998) e O Invasor (2002). Bini aponta este último e Cidade de Deus (2002) como influências, embora a estrutura coral de Cinco Tipos de Medo se aproxime mais de Amores Perros (2000).

A distopia “Corrida dos Bichos” levou a estética de Fernando Meirelles ao SXSW – Crédito Laura Campanella

Segundo o realizador, “é difícil dar uma resposta definitiva” para a escassez de produções de ação na região. “O custo de produção e a necessidade de equipas especializadas pesam, tal como algum preconceito dentro de uma tradição mais autoral. A renovação passa por assumir o género sem complexos e contar histórias com identidade local”.

Novos projectos apontam para uma possível mudança. O Homem de Ouro, de Mauro Lima, recria a trajetória de Mariel Araújo Mariscöt de Mattos, figura real ligada ao Esquadrão da Morte. Já Corrida dos Bichos, exibido no SXSW, marca o regresso de Fernando Meirelles à realização, em coautoria com Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento, numa distopia ambientada num Rio de Janeiro devastado por catástrofes ambientais.

Dilsinho Oliveira nos bastidores de “Na Linha de Fogo”. Créditos: Ique Esteves

Também Na Linha de Fogo, de Afonso Poyart, filmado no Complexo da Maré, explora o conflito entre traficantes e forças policiais. Em paralelo, autores como Erik de Castro e Edu Felistoque têm investido no género com Cano Serrado (2018) e Amado (2022), enquanto Allan Riggs desenvolveu Hell’s Haven – O Refúgio do Inferno.

Resta perceber até que ponto o desempenho comercial de Cinco Tipos de Medo poderá influenciar este movimento. No filme, as trajetórias de Murilo (João Vitor Silva), Marlene (Bella Campos), Luciana (Bárbara Colen) e Ivan (Rui Ricardo Dias) cruzam-se numa narrativa coral marcada pela violência e pelo acaso, captada com intensidade pela direção de fotografia de Ulisses Malta Jr..

“Há espaço para filmes de género no Brasil, desde que tenham qualidade. O thriller social prova que é possível entreter e abordar temas relevantes. A violência não deve ser tratada como simples paisagem. A vida decorre muitas vezes ao sabor do acaso”, conclui Bini.

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