In Waves é um filme que dói. Dói sobretudo por se deixar levar pelo inusitado, como se estivesse numa nau de autodescobertas, tão radical quanto a das suas personagens. Se o casal central se reinventa na comunhão do quebrar, a realização da cineasta de origem vietnamita Phuong Mai Nguyen afirma-se como um relato geracional, um painel cultural das formas contemporâneas de querer, um drama sobre um mal insólito (e derradeiro) e uma narrativa animada que procura nas cores (vivíssimas) um analgésico para a angústia que retrata. É a angústia da aceitação, por um lado… nessa fase da adolescência em que as hormonas nos torpedeiam. É a angústia perante um fim anunciado. A base do filme, que abriu a Semana da Crítica, é uma BD homónima, de AJ Dungo, seminal na forma como lida com a melancolia.
O seu foco não está numa doença, mas numa tentativa desesperada de preservar gestos, vozes e sensações de duas amantes sob o risco do adeus, num desaparecimento intransponível. Há tristeza em jogo… muita… mas há leveza. O elemento aquático, na forma das ondas do mar, desenha a geometria fractal da forma como Phuong Mai Nguyen narra. A realizadora aposta num colorido intenso para falar da experiência do luto na juventude, em diálogo com a linguagem das artes gráficas. O surf e o skate cruzam os extremos de um argumento com biprotagonismo, impregnado de elementos simbólicos que remetem para um certo cinema dos anos 1990, com ecos de Boys on the Side (1995).
Numa aposta sinestésica na sensorialidade, In Waves regista o amadurecimento da personagem AJ (com voz de Will Sharpe), adolescente tímida apaixonada por desenho, no momento da sua vida em que conhece — e se apaixona por — Kristen (Lyna Khoudri, de dicção firme). Ela é uma surfista impulsiva, surpreendida com a reduzida intimidade da personagem com a água. Conhecem-se nas praias californianas de Los Angeles. Entre as duas nasce uma relação intensa, construída entre tardes de ócio (e afecto), numa ideia romântica de futuro. Mas a descoberta de uma doença grave nas células de Kristen altera brutalmente o percurso destas enamoradas, obrigando-as a confrontar a fragilidade do tempo e a inevitabilidade da perda.
Não há lugar para o melodrama nesta animação, que conjuga o verbo “morrer” numa toada existencialista. O surf deixa de ser apenas prática desportiva para se converter numa forma de comunhão afectiva, uma espécie de linguagem silenciosa entre corpos, numa busca pelo que pode haver de perpétuo — nas relações e nas memórias. A direcção de arte não se pauta pela decrepitude. É sempre dionisíaca, tal como a sua sinuosa montagem.

















