Federico Luis filma no México “Para Los Contrincantes” e dispara: “Não quero estar perto do Javier Milei”

(Fotos: Divulgação)

Vencedor da Semana da Crítica em 2024 com Simón de la Montaña, o argentino Federico Luis regressou este ano à mesma secção do Festival de Cannes com Para Los Contrincantes, uma curta-metragem documental passada no bairro popular de Tepito, na Cidade do México, onde encontramos um rapaz que sonha tornar-se campeão de boxe. 

Ninguém diz: ‘vou jogar boxe’. Faz-se boxe.”, disse o cineasta ao C7nema, numa entrevista no Palais des Festivals, descrevendo este desporto como um território onde o ser humano fica “despido” e sozinho diante de si próprio. Atraído pela violência, musicalidade e dimensão política do boxe, Federico encontrou no ringue o espaço cinematográfico para observar a coexistência entre infância e brutalidade.

Como foi a experiência de ganhar a Semana da Crítica com Simón de la Montaña? Mudou alguma coisa na tua vida?

Tudo. A primeira coisa que me aconteceu foi começar a acreditar que era realizador de Cinema. Até antes disso era algo que eu queria fazer. Depois disso pensei: agora sim. Foi quase como receber um diploma, como acabar a escola ou a universidade. 

Claro que depois existem todas as mudanças práticas: conhecer lugares do mundo, viajar. Antes de Simón de la Montaña, quase não tinha saído da Argentina e, graças ao filme, fui do Egipto ao Canadá, passei por muitos lugares da Europa e comecei a conhecer melhor o mundo, o ser humano, o Cinema e as diferentes formas de o ver.

Mas aquilo que mais guardo foi o efeito interior: o de dizer a mim próprio que podia acreditar mais em mim. Sempre vi os cineastas como algo impossível ou inalcançável e agora podia imaginar-me a fazer filmes para o resto da vida.

E como chegaste ao México para fazer esta curta-metragem?

Ainda antes de terminar Simón de la Montaña, comecei a escrever outra longa-metragem. Sempre fui um grande admirador do escritor mexicano Mario Bellatin. Cada vez que lia um dos livros dele sentia que queria permanecer naquele mundo infinitamente e que aquelas personagens podiam existir dentro dos meus filmes.

Comecei então a desenvolver uma longa chamada El entrenador de perros, que trabalhei também na residência do Festival de Cannes. Ontem até a apresentei aqui num pitch.

Numa dessas viagens ao México para conversar com o Mario Bellatin, fui conhecendo a Cidade do México através do olhar dele. E um dia acabei, quase como um meteorito, num evento de boxe infantil num ginásio em Tepito.

Olhei para aquilo e pensei: “Como é que não existe uma fila de realizadores à espera para filmar isto?” Pareceu-me algo incrivelmente cinematográfico.

E como foi trabalhar com as crianças e construir o filme à volta delas?

Era um evento regular, com cerca de quinze ou vinte combates, desde crianças de seis anos até adolescentes de quinze. E o boxe, sobretudo no México, atravessa as classes populares de uma maneira muito forte.

Há uma frase que gosto muito: joga-se futebol, joga-se ténis, joga-se golfe… mas ninguém diz “vou jogar boxe”. Diz-se “vou boxear”.

O boxe acumula muitas coisas ao mesmo tempo: a beleza da dança dentro do ringue, a violência, a política. E naquele caso havia ainda outra camada: crianças obrigadas a comportarem-se como adultos profissionais.

O rapaz que filmei tinha dez anos, mas parecia um pugilista profissional de trinta. E toda essa mistura convocou-me para filmar.

Pensaste muito em filmes de boxe enquanto preparavas o filme?

Totalmente. Adoro filmes de boxe. Há um pugilista irlandês, Barry McGuigan, que uma vez disse: “Eu não sou poeta, não sei contar histórias, por isso é que luto.” E isso faz-me rir porque comigo é ao contrário: eu conto histórias porque não consigo lutar. Se pudesse, adorava boxear.

O boxe atrai o Cinema e a Literatura há décadas porque funciona quase como uma linguagem sem palavras. Quando vemos um combate percebemos imensas coisas sem que ninguém diga nada. E isso convida automaticamente à narrativa.

Percebi isso sobretudo durante o trabalho de som do filme. O som do chão do ringue parecia um bombo de bateria, os golpes pareciam uma caixa, os gritos criavam ritmo. Se desligassem a imagem parecia quase uma composição musical.

E talvez seja por isso que existem tantas grandes histórias de boxe: porque o boxe despe o ser humano completamente. Coloca-o sozinho num ringue, quase sem roupa, diante de outro ser humano que funciona como reflexo dele próprio.

Já tens um novo projeto de longa-metragem? Ainda é possível filmar na Argentina hoje?

É difícil filmar na Argentina da forma como eu precisaria para este novo filme. 

Filmar pode-se sempre filmar. O exemplo perfeito é El tren fluvial (2025), do Lorenzo Ferro, que acho um filme lindíssimo e profundamente marcado pelo momento histórico em que foi feito.

Mas, no meu caso, para esta nova longa-metragem preciso de ferramentas que hoje não consigo encontrar na Argentina. Por isso faz-me sentido procurar essas condições noutro país da América Latina, especialmente no México, onde me sinto em casa.

Este filme, por exemplo, foi feito com metade da equipa mexicana e metade argentina. Muitos dos técnicos que trabalharam em Simón de la Montaña (2024) vivem agora no México porque tiveram de procurar trabalho fora da Argentina.

São coisas que vão acontecendo naturalmente. E, sinceramente, se tirarmos as bandeiras da frente, a verdade é simples: não quero estar perto do Javier Milei. Ponto.

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