Inés é uma chilena de nove anos cujo olhar, em El Deshielo, faz lembrar o Gato das Botas da franquia Shrek (2001): cada olhar parece um pedido silencioso de afeto. O espectador apaixona-se pela miúda desde o primeiro instante até ao momento em que o filme, embalado numa toada de trama detetivesca, revela-se avesso a respostas óbvias. Num país como o Chile, que caiu nas garras de um tirano como Augusto Pinochet no auge do seu sonho democrático, torna-se difícil acreditar em “soluções” para interrogações políticas indecifráveis. Talvez por isso, o novo filme de Manuela Martelli, enquanto realizadora, funcione como uma alegoria da esfinge simbólica inscrita na memória nacional.
O ano de 1992, tempo da ECO 92, é o pano de fundo onde se instala uma trama de mistério, quase como um Édipo sem Jocasta, um Édipo feminino em miniatura. A Tebas aqui é latino-americana, e uma praga parece contaminar as suas veias abertas.
Martelli foi distinguida em Festival de Locarno, em 2025, pela sua interpretação em God Will Not Help. Muito antes, destacou-se em Machuca (2004), hoje considerado um marco da renovação do Cinema latino-americano, onde se cruzavam ficção e documental, atores não profissionais e câmara na mão. Esse percurso levou-a à realização, com Chile ’76 (2022), exibido na Quinzena dos Cineastas, sempre a revisitar traumas políticos do seu país.
Inés é o novo caminho para essa exploração. O Chile de El Deshielo permanece marcado pelo legado da ditadura, e tudo sugere que a família da protagonista foi alvo desse regime. A personagem fica sob os cuidados de familiares num hotel de uma estância de esqui, onde conhece Hanna (Maia Domagala), jovem atleta alemã. Quando Hanna desaparece sem deixar rasto, Inés tenta perceber o que aconteceu, enquanto procura decifrar um mundo de gelo onde pouco se diz e muito se oculta. Essa aura de incerteza mantém a plateia em suspenso.
Nesse mesmo 1992, o Chile exibiu um iceberg da Antártida na Exposição Universal de Sevilha. Para Inés, a amizade com Hanna é esse bloco de afeto que se desfaz, virando o Titanic emocional da sua infância. O desaparecimento da amiga abre uma ferida sem fecho possível. É dessa ausência que nasce o crescimento da personagem — e a necessidade de compreender e não esquecer.
Martelli arrisca para que o filme permaneça para lá da sua passagem pela Croisette, na competição Un Certain Regard. A direção de fotografia de Benjamín Echazarreta intensifica o estranhamento de uma paisagem bela e inquietante. Não há enquadramentos óbvios. Tudo convida à dúvida — menos a força de Inés.

















