Cada vez restam menos dúvidas de que existe um verdadeiro movimento feminino dentro do body horror. A própria Marion Le Corroller, que apresentou em Cannes a sua primeira longa-metragem, Sanguine, nas sessões da meia-noite, assumiu isso mesmo ao C7nema, citando Julia Ducournau e Coralie Fargeat como cineastas “profundamente comprometidas politicamente”.
Antes de Sanguine, a realizadora francesa já explorava esse território nas curtas-metragens, como em Dieu n’est plus médecin (2021), onde uma jovem interna nas urgências se aproxima do colapso físico e mental. Com a sua primeira longa-metragem, Le Corroller vai ainda mais longe na tentativa de transformar o corpo em sintoma de um esgotamento laboral, social e íntimo.
Inspirada pela própria experiência no mundo da finança e por estágios realizados em serviços de urgência hospitalar, acompanha Margot, uma jovem médica confrontada com sintomas inexplicáveis em pacientes da sua geração. “A arte é uma arma para destruir essas injunções”, afirmou a cineasta ao C7nema, numa longa conversa durante o Festival de Cannes.
Na entrevista, Marion Le Corroller ainda falou sobre a relação entre corpo e trauma, explicando como transformou a própria ansiedade física num body horror político sobre a pressão da produtividade contemporânea. Refletiu ainda sobre o cinema de género como ferramenta política, a nova geração e a sua relação com o trabalho, a pressão exercida sobre as mulheres na indústria cinematográfica e a necessidade de defender um olhar autoral radical num contexto cada vez mais dominado pela lógica do entretenimento e da performance.

Sente realmente medo das mudanças corporais?
Hoje já não tenho medo porque trabalho no cinema. Mas antes trabalhei no mundo das finanças durante cinco anos e acabei por entrar em burnout. Foi aí que comecei a sentir mudanças físicas muito fortes, dores constantes, e isso acabou por inspirar o filme. Quis contar esta história precisamente através do corpo.
No fundo, o filme é tanto uma fábula social como um body horror?
Sim, completamente. Era importante juntar as duas coisas e ter um discurso. Eu queria contar esta história de uma forma muito prazerosa, muito divertida, muito “catchy”, mas ao mesmo tempo profundamente política. Acho que o cinema de género permite precisamente isso: fazer um filme acessível, instintivo, mas também politicamente muito rico.
O filme parece muito bem documentado no ambiente hospitalar. Como fez essa pesquisa?
Fiz estágios em vários serviços de urgência. Acompanhei médicos das urgências durante semanas para perceber realmente como trabalhavam e também as pressões a que estavam sujeitos. Rapidamente se sente essa obrigação constante de produzir números, de atender o máximo de pacientes possível num dia. Foram coisas que depois introduzi diretamente no filme a partir daquilo que observei.
Que obsessão contemporânea é esta pela produtividade acima de tudo?
Hoje é preciso produzir constantemente, ser ultra-performativo, fazer tudo imediatamente. E sobretudo nunca é suficiente aquilo que fazemos. Há sempre uma pressão para fazer mais. Isso enlouquece completamente as pessoas porque ultrapassa os nossos limites.
O mundo da finança talvez seja o pior lugar possível para isso, porque mesmo quando se ganha dinheiro nunca se ganha o suficiente. É sempre preciso mais. Isso leva as pessoas a adoecerem completamente.
Como percebeu que esse mundo a estava a destruir?
O meu corpo já me estava a avisar. Havia duas coisas. Primeiro, sentia que não conseguia encontrar singularidade nenhuma no meu trabalho. Tinha a sensação de ser uma peça completamente substituível. Se eu saísse de manhã, outra pessoa ocupava o meu lugar à tarde e fazia exatamente o mesmo trabalho. Não sentia que trouxesse nada de singular.
Depois havia a questão do sentido. O dinheiro era um fim em si mesmo. Não sentia que estivesse a crescer intelectualmente nem a enriquecer enquanto pessoa. Trabalhava apenas para uma empresa ganhar ainda mais dinheiro, quando já ganhava biliões. Não conseguia encontrar sentido nisso.
Comecei a ter manifestações físicas: bruxismo, dores nas costas, tensão permanente. O meu corpo dizia-me claramente que eu não estava no lugar certo.
O horror já se manifestava nas suas curtas-metragens. Que relação tem com o género?
Sempre adorei filmes de terror porque gosto de cinema muito comprometido politicamente e também de filmes que criam verdadeiro desconforto.
Adoro Cronenberg, Kubrick, Ari Aster, Yorgos Lanthimos, mas particularmente Ari Aster. É provavelmente o realizador que mais desconforto me provoca numa sala de cinema.Procuro isso.
Cresci numa família muito politizada, onde havia sempre uma exigência de questionar o mundo, a forma como pensamos, as nossas certezas. Acho que o horror permite precisamente isso. Hoje talvez seja um dos géneros mais políticos que existem. A dimensão política está muito presente em mim e o horror oferece-me esse território.
Visualmente, o filme leva tudo ao extremo. Até onde queria ir?
Sendo a minha primeira longa-metragem, senti que podia não ter limites. Talvez até me permitissem isso precisamente por ser um primeiro filme.
Queria que a violência das imagens, da mise-en-scène e da montagem fosse equivalente à violência que o filme denuncia. Preferia exagerar, transbordar, correr riscos, mesmo que fosse demasiado, mas que pelo menos fosse radical. Mesmo que levasse uma porta na cara por causa disso.

Existe hoje um movimento feminino dentro do body horror?
Completamente. Acho que as realizadoras francesas são muito politizadas. Julia Ducournau e Coralie Fargeat são cineastas profundamente comprometidas politicamente.
E temos a sorte, em França, de viver num país onde ainda podemos discutir os corpos das mulheres no espaço público, o que não acontece em muitos lugares do mundo. Isso cria quase uma responsabilidade de propor novos olhares sobre os corpos, sobretudo os corpos femininos. Acho extraordinário que as realizadoras francesas estejam a apropriar-se desse espaço.
Mas o horror também precisa de entretenimento. Isso não pode diluir a dimensão política?
Pelo contrário. Queria mesmo fazer um filme para os jovens, divertido, energético, que desse prazer em ver. Queria que lhes falasse também visualmente. Primeiro, o filme tem de ser uma experiência prazerosa. Depois existe o discurso político. Acho que o horror permite unir perfeitamente essas duas dimensões.
Sente uma pressão específica sobre as mulheres no cinema?
As mulheres estão constantemente a ser comparadas entre si. Como se houvesse espaço apenas para uma. Como se uma tivesse sempre de substituir a outra.
Sinto isso muito no cinema de género francês. As realizadoras são constantemente colocadas em competição umas com as outras. Não sinto isso da mesma forma em relação aos realizadores homens.
E como se proteger disso?
Não me protejo. Afirmo-me.
Como foi o trabalho com Pierre-Olivier Persin, que trabalhou no The Substance, nos efeitos físicos e maquilhagem?
Partimos completamente do zero. Trabalhámos juntos desde o início. Abrimos livros de dermatologia, estudámos doenças raras de pele e do corpo. Víamos imagens bastante nojentas e eu dizia-lhe: “gosto destas formas”, “gosto destas cores”.
Depois ele desenhava protótipos, experimentava formas, texturas e cores, e fomos refinando tudo juntos até criar algo realmente singular. Foi um grande trabalho de pesquisa artística.
E a Mara Taquin, a atriz principal, teve logo consciência da exigência física do papel?
Sim. Muitas atrizes recusaram o papel por causa da nudez e das horas de maquilhagem protésica. Isso criou uma primeira seleção natural.
Com a Mara houve uma ligação imediata. Expliquei-lhe logo que estaria frequentemente nua e coberta de próteses. Ela dizia que isso a ajudava muito porque lhe dava literalmente uma segunda pele para entrar na personagem. Mas houve dias fisicamente muito duros para ela.
A música também cria uma energia quase eufórica no meio do horror.
Era exatamente isso que eu queria. Queria música jovem, eletrónica, energética. Queria que as cenas mais violentas fossem quase prazerosas de ver, que dessem vontade de dançar.
Queria que o gore e a violência nunca fossem apenas sofrimento em primeiro grau, mas que houvesse humor, distância, prazer visual.
Qual foi o maior desafio do filme?
Gerir pessoas. Achei que ia passar o tempo a fazer apenas trabalho artístico, mas percebi rapidamente que estava a gerir cinquenta pessoas. Quase como uma diretora de recursos humanos.
Foi uma enorme descoberta. Não somos preparados para isso. De repente tornamo-nos maestros de uma equipa inteira. Foi provavelmente o maior desafio do filme.
As doenças do filme têm base real?
Sim. Inspirei-me em doenças reais e depois desviei-me para criar a minha própria doença ficcional.
A hematidrose, por exemplo — a doença de transpirar sangue — existe mesmo. Há apenas três ou quatro casos conhecidos no mundo. Quando descobri isso achei perfeito para o filme. Se não existisse, teria inventado.
O seu próximo filme vai continuar no horror?
Sim, mas será mais horror psicológico. Ainda haverá uma relação muito forte com o corpo. Acho que isso vai continuar sempre presente no meu cinema. Mas não quero ficar fechada apenas no body horror.
Pode revelar alguma coisa?
Só posso dizer que vai ter ainda mais sangue do que este filme.
A geração dos 18 aos 25 anos parece central no filme. O que a distingue?
Acho que esta geração está a inverter a relação de forças no mundo do trabalho. Há dez anos fazíamos estágios miseravelmente pagos, trabalhávamos até à meia-noite e diziam-nos que era normal. “É assim que se aprende.”
Hoje é impossível obrigar os jovens a ficar depois das seis da tarde. O Covid mudou muito a relação deles com o trabalho. Há uma consciência de que o mundo é profundamente instável e de que tudo pode mudar de um dia para o outro.
Os nossos pais conseguiram projetar a vida a dez anos. Nós já nem conseguimos pensar daqui a um ano. Os jovens querem viver agora, ter prazer agora, e não dedicar toda a vida apenas ao trabalho.
As empresas vão ter de se adaptar a esta geração.
O dinheiro deixou de ser central?
Sim. O mais importante hoje é o sentido que dão à vida e ao trabalho. É uma geração muito mais politizada e muito mais consciente do tipo de adultos que quer tornar-se. Há uma verdadeira preocupação com o papel que querem ter na sociedade.
Mas ao mesmo tempo é uma geração muito ansiosa e deprimida.
Claro. Mas isso também vem do contexto político, económico e climático em que vivem. Guerras, crise climática, instabilidade global… tudo isso afeta diretamente os indivíduos. Não é apenas uma questão laboral.
Mas muitas vezes são os próprios jovens que se pressionam a si mesmos.
Sim, mas porque vivem numa sociedade que lhes impõe isso. Existe uma injunção permanente à performance. Nunca é suficiente, é sempre preciso fazer mais. Isso está profundamente inscrito no imaginário coletivo.
O cinema é então uma ferramenta de resistência?
Completamente. Para mim a arte é uma arma para destruir essas injunções e propor novos olhares.
Num momento em que a inteligência artificial tende a uniformizar o pensamento, sinto que a arte é um dos últimos espaços onde ainda podemos produzir pensamento singular, desafiar ideias e criar algo radical. Isso tornou-se quase uma questão de sobrevivência.

