Entre os grandes autores do cinema contemporâneo, não apenas latino-americano, mas mundial, Lisandro Alonso continua a filmar como quem resiste ao próprio tempo. Depois de ter estreado Eureka (2024), um projeto que envolveu filmagens em vários países, mais meios de produção e muitas dores de cabeça devido às restrições para filmar e receber fundos durante a pandemia de COVID-19, Lisandro resolveu voltar às raízes e filmar novamente com Misael Saavedra La Libertad Double, um regresso ao universo do seu filme La Libertad (2001).
Ao lado de Misael Saavedra, Lisandro Alonso falou ao C7nema em Cannes sobre a liberdade, a eterna crise na Argentina, a sua ética e o estado do cinema argentino num momento em que o governo de Javier Milei ataca frontalmente a cultura. Entre o pessimismo político e o desejo de continuar a filmar, o realizador reafirma um cinema profundamente humano, feito de encontros improváveis e naturalidade.
Por que voltar a “Libertad” 25 anos depois?
Continuámos sempre em contacto com o Misael e tinha vontade de voltar a filmar como tínhamos começado: de uma forma mais simples, sem ter de esperar tantas decisões externas de coprodutores internacionais.
Queria voltar a sentir essa espécie de liberdade que era filmar com o Misael no campo, sem depender de decisões externas. E também voltar a trabalhar com o mesmo grupo de pessoas com quem comecei a fazer filmes. São os mesmos técnicos, a filmar em 35 milímetros.
Voltar a sentir essa experiência foi muito vital e muito importante para mim. Sentir que estávamos a fazer algo pelo prazer de o fazer, por partilhar 15 ou 20 dias juntos com o Misael e com o resto da equipa.
Os problemas de produção de “Eureka” ajudaram-te a tomar essa decisão?
Sim. Tudo é uma grande experiência, mas Eureka foi um processo muito longo. Foram quase dez anos para fazer um filme e isso tornou-se pesado para mim, por razões naturais do próprio processo de fazer cinema e também por razões externas.
Houve a pandemia e os fundos foram interrompidos duas ou três vezes por causa disso. Filmámos um pouco em Portugal, depois em Espanha, México e Estados Unidos, e cada país tinha os seus protocolos. Isso obrigava a muito tempo de espera e interrompia constantemente o processo criativo. Filmávamos uma semana e depois esperávamos um ano. Foi desgastante.
E isto foi exatamente o contrário: juntarmo-nos com o Misael no campo, com 15 ou 20 pessoas, acordarmos juntos, comermos juntos, bebermos uma garrafa de vinho juntos. Era um processo muito mais livre. Sentia-se melhor a liberdade de estar a fazer alguma coisa. Aproveitava-se muito mais.
Para os dois: o que mudou nestes 25 anos desde “La Libertad”?
Misael Saavedra: Nada, claro… Desde que nos conhecemos tivemos a possibilidade de fazer La Libertad e depois o segundo filme. E sempre mantivemos a humildade que nos caracterizou. O mais importante foi a amizade. Sempre estivemos em contacto, e isso foi o bom para manter uma boa relação.
Depois destes 25 anos continuamos iguais, tranquilos, com a mesma paciência desde o primeiro dia para fazer esta segunda “Libertad”.
E poder contar com o Lisandro, que para mim é uma grande pessoa. Todos sempre me trataram muito bem. Às vezes estou lá em Zapala e de repente recebo uma chamada ou uma mensagem: “Como estás, amigo?” Isso para mim é importante. E agora estamos aqui os dois.
Lisandro Alonso: Foi muito bom manter sempre o contacto com o Misael. Fizemos aquele filme, depois fizemos Fantasma (2006), e ele também entrou em Jauja (2014), com Viggo Mortensen. De alguma forma, para mim era importante que o Misael estivesse envolvido no que eu fazia.
Tanto ele como Argentino Vargas — a personagem de Los Muertos (2004), que entretanto morreu — foram pessoas fundamentais para mim. Estou muito agradecido pela possibilidade que tive, através deles, de expressar as inquietações e as perguntas que tinha sobre o cinema.
O cinema deu-me a possibilidade de conhecer o Misael, o Argentino e tantas personagens que tive a sorte de conhecer na minha vida, fossem atores profissionais conhecidos internacionalmente ou pessoas menos expostas ao público, mais isoladas.
Tive a sorte de os encontrar com a desculpa de fazer filmes, porque sem essa desculpa provavelmente nunca nos teríamos relacionado. Por isso estou muito agradecido ao cinema, mas também a eles, que confiaram em algo que não conheciam muito bem.
Quantos filmes tinhas visto antes de fazer “La Libertad”?
Misael Saavedra: No cinema tinha visto alguns, mas era um cinema muito pequeno. Num povoado há um cinema municipal e há poucas possibilidades, mas é o que existe.
E o que mudou na Argentina nestes 25 anos? Quando fizeste o primeiro filme, o país estava em crise e agora continua em crise.
A Argentina está sempre em crise. Isso já se tornou algo natural. O que mudou é que, quando fizemos La Libertad, eu também não tinha praticamente percurso. Tinha acabado de sair da escola de cinema e não fazia sentido pedir apoio ao Instituto Nacional de Cinema porque era quase impossível consegui-lo.
E agora temos um governo que desprestigia ou não legitima, não só a cultura, mas também as ciências, a medicina, o trabalho digno, a saúde e tudo o resto. Portanto, por razões óbvias, também decidimos não pedir apoio económico a este governo.
Se eles se queixam deste tipo de filmes e dizem que não faz sentido fazê-los, não sentia necessidade de recorrer ao governo para pedir ajuda. E o filme fez-se na mesma.
É muito triste ter um governo que não só não ajuda, como ataca frontalmente a cultura em geral. E a cultura não faz mal a ninguém. Uma pessoa pode escolher ler um livro ou ver um filme, mas ninguém morre nem fica economicamente pior por ver um filme. É uma escolha.
Também fiz isto para mostrar a mim próprio que ainda era possível continuar a fazer coisas sem aquele conforto que durante tanto tempo o Instituto Nacional de Cinema da Argentina proporcionou. Agora não estamos num bom momento, nem cinematograficamente nem enquanto país. É um momento muito particular e não sabemos onde vai acabar.
Não aceitar dinheiro deste governo é para ti uma questão ética? A ética é sempre muito forte no teu trabalho.
Parece-me uma forma ética de dizer: se eu não concordo com estas ideias e eles não concordam comigo, porque haveria de tentar criar uma relação que não é natural?
Tive também a sorte de financiar o filme com dinheiro do Chile. O Misael é chileno, por isso tínhamos acesso a uma coprodução chilena. Foi isso que fizemos.
Também tive a sorte de já ter feito outros filmes, o que me ajuda a pedir financiamento fora da Argentina. E também compreendo que, talvez, se há pouco dinheiro na Argentina e eu já fiz seis ou sete filmes, esse dinheiro possa ir para realizadores jovens que apoiam este governo e estão a fazer as primeiras ou segundas obras. Parece-me lógico num governo democrático que foi eleito por muita gente.
O que é para si a liberdade?
Essa é uma boa pergunta. Não sei se, como diz este governo, a liberdade avança ou recua. Honestamente, não sei. É uma pergunta que faço desde o meu primeiro filme. Hoje em dia é uma palavra muito difícil de explicar e de compreender. Usa-se constantemente, mas não sei bem como nem para quê.
Custa-me muito perceber o que significa ter opções, ser livre, poder escolher uma vida melhor e trabalhar para isso. É uma palavra que me dá muito trabalho.
Vais continuar à procura dessa liberdade no cinema ou este ciclo está fechado?
Nunca sei muito bem como vai continuar o trabalho cinematográfico. Agora acabei também de filmar outro filme, no Brasil. Tive a sorte de fazer uma versão livre de O Sabor da Cereja (1997), do Abbas Kiarostami. Filmámos no Brasil e terminámos há duas semanas.
A personagem principal é Wagner Moura. E o facto de filmarmos no Brasil, em português, foi muito importante porque neste momento o Brasil tem mais investimento económico na cultura e isso ajudou imenso.
Quis filmar no Brasil durante 20 anos e nunca consegui. E este projeto, que sempre foi muito inspirador para mim, tornou-se realidade muito rapidamente.
No próximo ano vou montá-lo e também viajar com este filme, estreá-lo em Buenos Aires e perceber como o público reage a La Libertad Doble, que indiretamente também fala da situação da Argentina e da forma como os que têm menos continuam a herdar problemas e crises sucessivas até chegar a um ponto em que já não conseguem mais.
O cinema também mudou muito nestes 25 anos e agora existem as plataformas.
Claro, isso mudou radicalmente. Mudou o sítio onde os filmes podem existir. Felizmente os festivais ainda existem, mas tornou-se mais difícil encontrar financiamento e perceber onde os filmes vão ser exibidos.
Este filme, tal como os outros que fizemos, tem naturalmente um espaço reduzido de exibição. Os festivais, as universidades… esses espaços ainda existem, embora eu não saiba durante quanto tempo.
Conseguirias trabalhar para uma plataforma de streaming, por exemplo, como a MUBI?
Se estiver relacionado com cinema, poderia trabalhar para qualquer plataforma. O problema é que a sensibilidade e as pessoas com quem quero trabalhar nem sempre são material suficiente para essas plataformas.
Mas tenho tido a sorte — e sou muito afortunado — de continuar a filmar onde quero e com quem quero.
Uma pergunta difícil: acreditas que existe esperança para a Argentina mudar nos próximos 25 anos?
Não. Honestamente, não. Quer dizer… não sei. E não estou a falar só da Argentina. É muito difícil encontrar boas notícias. Habituei-me a ouvir más notícias, não apenas da Argentina, mas internacionais. E isso começa a parecer uma realidade impossível de mudar. É frustrante.
Não falo apenas da cultura. Vejo um mundo em que é cada vez mais difícil ter filhos, mandá-los para a universidade, conseguir um trabalho digno, comprar uma casa.
E acho que essa não devia ser a nossa perspetiva de futuro enquanto humanidade.
Por isso, sinceramente, não vejo a raça humana de forma muito esperançosa.

