No rescaldo do sucesso de filmes como “Taken”, que deu nova vida no cinema de ação a Liam Neeson, e “John Wick”, que já vai para um quarto filme e até já tem spin-off agendado para a TV, os estúdios tradicionais e as plataformas de streaming têm aprimorado os seus lançamentos com uma linhagem de projetos em moldes semelhantes, inspirando-se essencialmente em protagonistas muito peculiares, arrastados contra a sua vontade para ambientes de violência que há muito abandonaram.

Nobody” é a proposta da Universal neste vector do cinema de ação, encontrando em Bob Odenkirk de “Better Call Saul”, um ator fortemente ligado a outros registos (comédia), o seu herói improvável, um pai de família aborrecido, com um trabalho rotineiro, que após um assalto à sua casa e um incidente num autocarro vê-se no meio de um imbróglio com mafiosos russos (quem mais?) que ameaçam o seu bem estar e o da família.

É curioso que apesar de frequentes tentativas de renovação (Chris Evans, Chris Pine, Chris Hemsworth, Tom Hardy e Michael B. Jordan são exemplos), fora do circuito de adaptações de bandas-desenhadas, os maiores heróis do cinema de ação masculino atual continuam a ser atores na casa dos cinquenta ou mais anos, com Tom Cruise (58 anos), Vin Diesel (53 anos), Jason Statham (53 anos), Keanu Reeves (56 anos) e Liam Neeson (68 anos) a serem protagonistas de filmes orientados, maioritariamente, para um público mais jovem (até aos 45 anos). 

Bob Oderick (58 anos) é o senhor que segue, isto num filme fortemente interessado desde o 1º minuto em criar uma nova franquia, sendo impossível escapar a “John Wick” para falar dele, tal a colagem no estilo de ação, coreografias das lutas e intensos tiroteios estilizados (Ilya Naishuller na realização em modo Chad Stahelski), além do já referidos passado negro que as personagens colocaram para trás, mas que agora é despertado contra a sua vontade.

Dentro desta linhagem, “Nobody” é um filme eficaz carregado de carisma muito por culpa do seu protagonista, mas em nenhum momento nos sentimos em algo mais que um produto derivativo, daqueles que se repetem no cinema em modo automático num modelo industrial assente na reciclagem de conteúdos. Para concretizar este pastiche de ação, não falta mesmo a presença de atores secundários notáveis que, além de nos transportarem com nostalgia para outros tempos, renovam o charme das suas carreiras. É isso que acontece aqui com Christopher Lloyd (o eterno “Doc” de “Regresso ao Futuro”), que assume aqui o papel do velho – mas nada calmo e tranquilo – pai de Oderick, também ele arrastado da reforma e paz para o frenesim da bandidagem.

No final, “Nobody” é assim um novo produto “fun” para as audiências sedentas de ação da velha escola, que adoram ver um homem contra o mundo (onde já estiveram no passado, entre outros, Clint Eastwood e Charles Bronson). Porém, o filme nunca nos agarra inteiramente como objecto único, maioritariamente porque nunca sai do molde esperado e da previsibilidade que possui. Exemplo disso é a cena final, como que a dizer “até já…”

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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