Inspirada pelo legado de Krzysztof Kieślowski (1941–1996), a trama coral Histoires Parallèles, novo mergulho labiríntico do iraniano Asghar Farhadi no território movediço das relações afectivas, marca o seu regresso às ruas de Paris. De lá saiu Le Passé (2013), que valeu à franco-argentina Bérénice Bejo o prémio de Interpretação em Cannes. Agora, numa nova parceria com o produtor Alexandre Mallet-Guy, o cineasta volta a destacar-se pelo modo como extrai verdades inesperadas do elenco. Virginie Efira, Adam Bessa, Pierre Niney, Vincent Cassel e Isabelle Huppert cruzam-se numa narrativa que celebra diferentes modos de olhar numa metrópole europeia.
“O filme Le Passé, que fiz em França em 2013, foi decisivo para a minha trajetória profissional e pessoal e conduziu-me ao que faço aqui, em parte porque, quanto mais envelhecemos, mais entendemos aquilo que procuramos”, disse Farhadi ao C7nema, na conferência de imprensa em Cannes, após lamentar a violência no seu Irão natal. “Qualquer morte é um crime que não se justifica.”
Fotografado por Guillaume Deffontaines, colaborador habitual de Bruno Dumont, Histoires Parallèles abre reflexões dialécticas sobre o voyeurismo, tanto no quotidiano urbano como no acto de criação artística. Na sua relação com Kieślowski, ao revisitar Brève histoire d’amour (1991), o filme afasta-se parcialmente do tom de parábola que marca a obra de Farhadi desde A Separação (2011), vencedor do Urso de Ouro.
“Kieślowski pertence ao meu panteão pela compaixão que sente pelas suas personagens. A fatalidade faz parte do universo dele”, afirmou o realizador.
Situado em Paris e estruturado como um jogo constante entre realidade e ficção, o filme acompanha Sylvie, escritora interpretada por Isabelle Huppert, que passa a observar obsessivamente os vizinhos do prédio em frente — onde funciona um estúdio de som — em busca de inspiração para um novo romance. Quando contrata um jovem assistente, Adam (Adam Bessa), a barreira entre imaginação e realidade começa a dissolver-se, arrastando as personagens para uma espiral de desejo, paranoia e destruição emocional.
“Foi uma surpresa encontrar as constantes mudanças neste argumento, que vai de registos mais existencialistas a momentos burlescos”, disse Huppert. “Não é habitual encontrar este tipo de humor numa personagem como a minha.”
O Festival de Cannes decorre até 23 de maio.

