É difícil pensar em Paweł Pawlikowski sem evocar o legado do eslavo Boris Barnet (1902–1965), o realizador russo por trás de preciosidades como À Beira do Mar Azul (1936), que introduzia humor na aspereza das relações afectivas. O polaco que silenciou o Festival de Cannes com Fatherland trata essa aspereza de forma semelhante. Esse elemento, por vezes cortante, entra em cena na nova produção do autor de Serbian Epics (1992) e The Stringer (1998), centrada no romancista Prémio Nobel Thomas Mann (1875–1955) e na sua filha Erika (1905–1969), também escritora.

A impressionante semelhança com Mann, assegurada pela caracterização de Hanns Zischler, parece trazer o autor de A Montanha Mágica de volta à vida. Igualmente notável é a troca desse mito germânico em cena com Sandra Hüller, que encarna a sua filha, Erika. No enredo, os dois Mann unem-se numa viagem por uma Alemanha do pós-Segunda Guerra, em meio a uma experiência de luto. O preto e branco sublinha o que ambos engolem. É um engasgo comum a Pawlikowski. Vencedor do Óscar de Melhor Filme Internacional com Ida (2013), há onze anos, o cineasta encontrou no preto e branco um esperanto a partir do qual consegue comunhão com as mais variadas línguas, incluindo a literatura.

Reverente a ela, mas nunca submisso, passa de personagem em personagem. Erika é um dos eixos mais dissecados. Foi uma das figuras intelectuais mais inquietas da Alemanha do século XX. Filha mais velha de Thomas Mann, destacou-se como actriz, jornalista, escritora e activista política, assumindo uma postura frontalmente antifascista ainda nos primeiros anos da ascensão nazi. Em 1933, fundou o cabaré político Die Pfeffermühle, espaço de sátira feroz contra Adolf Hitler e o totalitarismo, o que a obrigou ao exílio poucos meses depois. Cosmopolita, irreverente e intelectualmente brilhante, Erika transformou-se numa das vozes mais ativas da resistência cultural alemã no estrangeiro, trabalhando como correspondente de guerra e colaborando intensamente com o pai durante os seus anos de exílio.

Fala-se ainda de Klaus Mann (1906–1949), irmão mais novo de Erika, com a ajuda do ator August Diehl, numa participação breve, mas indelével. Ele converteu a própria vida numa permanente batalha contra o autoritarismo, a hipocrisia burguesa e os fantasmas íntimos da sua geração. Escritor precoce, homossexual assumido numa Europa cada vez mais conservadora e perseguido por dependências químicas e crises depressivas, tornou-se um dos grandes cronistas literários do colapso moral alemão. A sua obra mais célebre, Mephisto (1936), funciona como uma denúncia feroz da complacência artística perante o nazismo, inspirando-se diretamente em figuras reais do teatro alemão que colaboraram com o regime hitleriano. Exilado durante boa parte da vida, Klaus Mann acabaria por suicidar-se em Cannes, em 1949, aos 42 anos, deixando uma obra marcada por melancolia, lucidez política e autodestruição.

Thomas Mann, o patriarca dos Mann, permanece como um dos nomes centrais da literatura europeia moderna. Autor de obras monumentais como Os Buddenbrook e Doutor Fausto, recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1929, consolidando-se como intérprete maior da decadência espiritual da burguesia alemã. Inicialmente conservador, evoluiu politicamente ao longo das décadas, tornando-se um dos intelectuais mais influentes na denúncia do nazismo durante o exílio. A sua escrita, marcada por sofisticação filosófica, ironia e profundidade psicológica, explorou obsessivamente os conflitos entre arte e vida, razão e desejo, disciplina e decadência — tensões que atravessaram também a história íntima da própria família Mann.

Esses meandros de cada um encontram lugar, com discrição, em Fatherland, que a MUBI vai lançar com o título Terra do Meu Pai. É uma referência ao trânsito das personagens por uma Alemanha que procura reinventar-se, em meio à Guerra Fria, sem esconder a ardência dos seus traumas. Pawlikowski expõe, uma vez mais, fragmentos traumatizados da Europa, procurando alcançar a sua profundidade.

Ao longo das duas últimas décadas, Pawlikowski construiu uma das trajetórias mais sólidas do cinema europeu contemporâneo desde a estreia na longa-metragem de ficção com Last Resort (2000), drama social distinguido com o BAFTA para Melhor Estreia Britânica. Depois do intimismo sentimental de My Summer of Love (2004), da deriva existencial de The Woman in the Fifth (2011) e do rigor austero de Ida (2013) — primeiro filme polaco a vencer o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro —, este artesão do intimismo consolidou-se como mestre de um cinema de enquadramentos rigorosos, silêncios densos e forte pulsação histórica. Em 2018, alcançou novo auge crítico com Cold War (2018), arrebatadora história de amor filmada em preto e branco, que lhe valeu o prémio de Melhor Realização em Cannes e uma nomeação ao Óscar de Melhor Realizador. Desde os primeiros passos até ao reconhecimento pela Academia de Hollywood, acumulou cerca de 80 prémios internacionais.

Fatherland é de uma rara sobriedade no equilíbrio do preto e branco no quadro. É sóbrio também no tratamento do que permanece por resolver entre Erika e Thomas. Consegue ser mais terno no modo como aborda o amor inabalável entre ambos, desenhado numa complementaridade filial e paternal rara — pelo menos em cena. O elenco ajuda decisivamente a traduzir esse afeto.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/hue3
Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
fatherland-proseia-com-a-aspereza-da-historiaFatherland é de uma rara sobriedade no equilíbrio do preto e branco no quadro. É sóbrio também no tratamento do que permanece por resolver entre Erika e Thomas.