Na cerimónia de abertura do Festival de Cannes, a anfitriã da noite, a atriz francesa Eye Haïdara, acompanhada pela violinista Miri Ben-Ari, citou Jean-Luc Godard — “não fazemos um filme para sermos cautelosos” — e defendeu o Cinema como um espaço para a coragem, a escuta e a atenção ao outro.
No segundo dia do Festival de Cannes, numa Quinzena dos Cineastas que mais do que ninguém tem mostrado essa “coragem”, como se viu no ano passado ao exibir Yes (2025), surgiu o primeiro exemplar do tal Cinema fora do conforto; aquele que incomoda, mesmo sem ser propriamente transgressivo ou tentar chocar por chocar. A destreza coube a Kantemir Balagov, jovem realizador de 34 anos que já soma uma filmografia de respeito, se juntarmos Butterfly Jam (2026) a Beanpole (2019) e Tesnota (2017).
Abandonando o terreno de análise de figuras femininas, como fizera nos filmes anteriores, o russo — entretanto a viver fora do seu país desde a invasão da Ucrânia — leva-nos agora ao universo masculino e à diáspora circassiana norte-americana, acompanhando Pyteh (Talha Akdogan), um adolescente de 16 anos que nunca visitou as suas origens e divide a vida entre os treinos de wrestling e o restaurante da família, mergulhado em dificuldades financeiras. Quando o pai, Azik (Barry Keoghan), tem uma atitude impulsiva, o rapaz é forçado a confrontar-se com a violência, a masculinidade e o legado familiar, regressando assim o cineasta ao terreno onde as personagens vivem cercadas por espaços físicos e emocionais opressivos, como já acontecia desde Tesnota (2017).
Em Beanpole (2019), o pós-guerra soviético transformou-se numa espécie de estado psicológico permanente, que contaminava cada gesto. Aqui, mesmo mudando de país e de língua — este é o seu primeiro filme em inglês — o cineasta mantém intacto um desconforto interior, logo nos primeiros minutos, quando o jovem Temir anuncia a morte do pai, criando desde logo um fatalismo inevitável. A isso acrescenta “o embaraço“, o silêncio e a reinvenção dos factos que levaram ao falecimento, numa reflexão sobre masculinidade, patriarcado e, acima de tudo, ao legado quando confrontado com a fragilidade.
Butterfly Jam (2026) não procura, como boa parte do cinema, homens fortes, heroicos ou admiráveis. Pelo contrário, num exercício de certa forma autobiográfico, Balagov aproxima-se deles como figuras frágeis, emocionalmente bloqueadas e incapazes de agir.
Nesse sentido, é particularmente interessante perceber como o realizador transporta o universo emocional do Norte do Cáucaso para a diáspora americana sem perder qualquer franja de identidade. Na conversa no Théâtre Croisette, ele admitiu que a história começou por ser passada na Rússia, antes de descobrir a forte comunidade circassiana em Nova Jérsia. Mas pouco muda verdadeiramente. Como o próprio afirmou, “se tivesse feito este filme no Cáucaso do Norte o resultado teria sido muito semelhante no que toca às relações familiares”. Ou seja, mais do que um filme sobre gerações fora do seu país, Butterfly Jam parece interessado em desconstruir, sem julgar ou muito menos condenar, modelos de masculinidade, mesmo quando atravessam continentes e encontram novos habitats.
Visualmente, Balagov mantém uma fisicalidade crua que o acompanha desde sempre, num cruzamento entre composições rigorosas e momentos de câmara à mão mais urgentes, como reflexo da turbulência emocional que invade cada figura em cena — dos membros da família de Pyteh, onde também se inclui Zalya (Riley Keough), à jovem lutadora com quem ele cria uma relação de proximidade.
Claro está que há aqui um lado de realismo social que pode lembrar Andrea Arnold, até pela presença de Barry Keoghan, vindo de Bird (2024), ou até Sean Baker no seu olhar pelos marginalizados, mas Balagov leva tudo para um território mais fechado e opressivo.
Na verdade, este não é um filme de grandes discursos nem de explosões verbais, mas de corpos a embaterem uns nos outros — seja a dançar, seja no caminho das vias de facto — e igualmente de silêncios que pesam. Nisso, numa das cenas mais impactantes, os alarmes de carros servem de grito existencial a anunciar a presença de vidas invisíveis. Sonoramente, em perfeita sintonia com o visual e estado de espírito geral e decadente, a banda-sonora, que mistura ruídos sintéticos e respirações, cria ainda um maior desconforto, enquanto que a Newark que é filmada, chega até nós como um espaço industrial entre a decadência e a estagnação, não diferente dos locais onde as personagens habitam, trabalham e convivem. Nesses espaços, a paleta de amarelos queimados, laranjas, tons rosados e sombras densas reforça as camadas de um sofrimento silencioso e invisível.
Se há algo que Butterfly Jam confirma é que Balagov continua a ser um dos cineastas mais interessantes da sua geração. Mesmo fora da Rússia, mesmo em inglês e mesmo trabalhando pela primeira vez uma narrativa centrada em homens, o realizador mantém intacta a sua capacidade de transformar as singularidades e o desconforto em pura linguagem cinematográfica.

















