Virginie Efira: “Nunca fiz filmes em que sentisse que o meu corpo era objetificado”

"Nada a perder" chegou aos cinemas portugueses a 23 de maio

(Fotos: Divulgação)

Numa conversa em Cannes, a propósito do seu mais recente filme, “Rien à Perdre” (Nada a Perder), a belga Virginie Efira afirmou ao C7nema que, mesmo que os norte-americanos não concordem consigo, ela considera o realizador Paul Verhoeven, com quem trabalhou em “Ela” e  “Benedetta”, um “enorme feminista” e que nunca fez filmes em que sentisse que o seu corpo foi objetificado. “Até no ‘Instinto Fatal’, que vi muito nova, sente-se isso, mesmo com aquela exposição das pernas e do corpo”, disse a atriz. “As mulheres do cinema de Verhoeven são duras, ruins e até perversas, mas ele mostra a sua visão, o seu ponto de vista. É maravilhoso fazer cenas de amor com o Paul Verhoeven e nunca me senti, porque é um homem, um objeto”.

Desempenhando o papel de uma mãe ameaçada com a perda dos filhos, por negligência, em “Nada a Perder”, a atriz confessa que o que lhe interessa explorar no cinema são as “ligações afetivas”, amorosas ou não. Isso mesmo vê-se nas nossas salas atualmente em “Os Filhos dos Outros”, onde interpreta o papel de uma mulher envolvida com um homem e que começa a ter uma relação de grande proximidade com a pequena filha do companheiro. “Se tivesse 20 anos certamente faria menos papéis de “mãe”. Com a minha idade chegam estes papéis e questões como a maternidade, algo que já vivi. Mas interessa-me estes papéis, mesmo que a maternidade seja uma condição deficiente na personagem que interpreto, como é o caso do ‘Rien à Perdre””, exibido durante o Festival de Cannes.

Vencedora este ano do César de Melhor Atriz pela sua prestação em “Memórias de Paris”, a belga diz que nesta fase  da sua carreira essa conquista não mudou nada, mas que certamente seria diferente se tivesse ganho há anos o prémio de melhor esperança. Sobre esse filme de Alice Winocour, Efira destaca a sua apetência por escolher papéis diferentes, normalmente construídos a partir de coisas que nunca viveu: “Interpretei o papel de uma mulher que sobreviveu a um atentado no “Memórias de Paris”, coisa que nunca me aconteceu na vida. Prefiro sempre escolher coisas diferentes, embora reconheça que talvez seja mais fácil transpor para o ecrã algo que vivemos”. 

As mulheres no cinema francês

Reconhecendo que no cinema gaulês há espaço suficiente para as mulheres realizadoras, Efira apenas lamenta a falta de oportunidades quando são filmes de grande orçamento. “Há um espaço suficientemente amplo para as mulheres no cinema francês, com exceção dos filmes de grande orçamento. Embora estejamos no meio de uma revolução de ideias, quando existe muito dinheiro em jogo, o território continua a ser muito masculino. E quando entramos na equipa técnica, ainda encontramos muita segmentação. Na escrita e maquilhagem, há mais mulheres, mas quando analisamos o mundo da direção de fotografia, existem mais homens” disse a atriz, acrescentando que as mulheres trazem novas histórias, abordagens e uma maneira própria de representar a sexualidade, “o que é perfeitamente normal“. “Não comecei a carreira aos 20 anos, mas se encontrasse um homem ou mulher que não sabem explicar ou fazer uma cena de amor nas filmagens, simplesmente não a fazia. Quando fiz o ‘Sibyl’ com a Justine existiam cenas de sexo que eram importantes para mostrar a intimidade. Ao início, a Justine tinha algumas reservas, mas eu disse para ela me dizer o que pretendia e para irmos ao fundo das coisas. Depois disso, ela refletiu sobre tudo”.

Sobre a vencedora do Festival de Cannes, Justine Triet, com quem trabalhou ainda em ‘Na cama com Victória”, a belga fala numa relação especial, sabendo que no futuro vai voltar a colaborar com ela: “Não sei quanto tempo vou estar onde estou e serei conhecida pelo público, mas sei que será com a Justine que farei filmes quando tiver 60 anos. Costumo dizer que é ela que me vai salvar”. 

Mesmo trabalhando em 4 ou 5 projetos por ano e tendo noção que cada um dele leva em média 2 meses de produção, Efira tem noção da sua condição de privilegiada e não tem problemas em dizer que tem consciência que “a maioria das mulheres trabalha mais que ela”.

Sobre o futuro, ela afirma que não tem propriamente um plano, mas que tem algumas ambições que dificilmente se vão concretizar. “Adoraria trabalhar com o Todd Haynes, mas sei que o meu inglês de merda impede-me disso”, diz-nos entre risos, acrescentando que as sua opções atuais não se baseiam apenas nesse indicador. “No ‘Rien à Perdre’, a primeira longa-metragem de ficção da Delphine Deloget, não tinha referências e filmes da realizadora para ver, mas senti na escrita do guião que havia algo de diferentes. As personagens não eram apenas funcionais, as crianças existiam realmente, e muitos outros detalhes tornavam o filme em algo particular. No caso das minhas colaborações com Rebecca Zlotowski e Valérie Donzelli (“L’amour et les forêts”, também exibido em Cannes”, já tinha ideia do cinema que faziam e por isso a opção passou por aí.”

A atriz que brilhou ainda em filmes como “Turno da Noite”, “Madeleine Collins” e “Don Juan” deixou ainda os pilares daquilo que quer transmitir aos filhos: “Alegria, curiosidade, consciência e autonomia”.

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