Conhecido por ter cooescrito com Justine Triet o vencedor da Palma de Ouro Anatomia de uma Queda (2024), Arthur Harari tem construído uma filmografia marcada pela forma como tenta desmontar dos géneros clássicos para expor sempre personagens numa crise de identidade. Do noir melancólico de Diamant Noir ao épico existencial de Onoda (2024), o realizador francês sempre tem explorado figuras deslocadas no tempo e no mundo. 

Em The Unknown, na competição à Palma de Ouro em Cannes, ele pega num tópico que normalmente é usado no cinema nos géneros da comédia ou do terror (como em Freaky Friday ou Freaky), encenando uma troca literal de corpos como o principio de um labirinto psicológico. Mais uma vez, interessa menos ao realizador a lógica do dispositivo, o body swap, mas principalmente a vertigem de perder — ou nunca ter tido — uma identidade que realmente se considere estável. 

Inspirado na BD Le Cas David Zimmerman (2024), criada pelo próprio Arthur Harari em colaboração com o irmão mais novo, Lucas Harari, The Unknown segue um fotógrafo que, depois de ter sexo com uma mulher, acorda no corpo dela e descobre outros casos semelhantes. Apesar de existir uma componente de thriller na busca por respostas ao que aconteceu, Harari centra-se nas crises existenciais da dupla, que se reencontra depois do “fenómeno” e tenta encontrar uma solução para reverter os corpos. É nesse processo que os seus corpos tornam-se um território de estranheza e nunca de pertença, como que se os seus corpos antes da troca já apresentassem dúvidas.

Apesar da forte presença de Léa Seydoux, que em Cannes também deu nas vistas em Gentle Monster, e da competência de Niels Schneider, The Unknown não consegue nunca aprofundar a sua ambição conceptual de preferir o enigma a qualquer forma de resolução. Essa extensão do mistério vai até um ponto que acaba por entorpecer o ritmo do filme, mesmo que o elenco se esforce para dar uma dinâmica diferente.

Claro está que há ecos de David Lynch e até de David Cronenberg na abordagem mais sombria à questão identitária e ao puzzle narrativo, mas a verdade é que, embora se procure principalmente entregar um filme atmosférico, na prática não funciona tão bem quanto promete.

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Jorge Pereira
arthur-harari-transforma-body-swap-em-crise-existencialhá ecos de David Lynch e até de David Cronenberg na abordagem mais sombria à questão identitária e ao puzzle narrativo, mas a verdade é que, embora se procure principalmente entregar um filme atmosférico, na prática não funciona tão bem quanto promete.