Com uma carreira iniciada no Cinema em meados da década de 1950 e uma filmografia com mais de 50 obras entre longas-metragens, documentários, filmes experimentais e produções televisivas, o cineasta alemão Edgar Reitz, atualmente com 92 anos, mostrou em Berlim que a idade é apenas um número e que vitalidade, sentido estético e o valor da palavra e do pensamento permanecem intactos em cada momento do seu mais recente filme, Leibniz – Chronicle of a Lost Painting (Leibniz – Crónica de Uma Pintura Perdida), uma pequena (grande) história centrada no matemático e filósofo Gottfried Wilhelm Leibniz e na encomenda de um retrato em sua honra feita pela Rainha Carlota da Prússia, em 1704.

Longe do biopic convencional, o vencedor da Berlinale Camera e realizador de obras como Die Reise nach Wien, Stunde Null e da série Heimat, dedicada à vida na Alemanha entre 1840 e 2000 através do olhar de uma família da região de Hunsrück, entrega ao magnético Edgar Selge o papel de Leibniz. Na primeira interação com o pintor Hofmaler Delalandre, interpretado por Lars Eidinger, o filósofo começa imediatamente a questionar conceitos de verdade e arte, levando o vaidoso artista a abandonar a missão de o representar em tela. “Não penses”, diz Delalandre — uma frase que ecoa quase como uma piada quando pensamos a quem é dirigida. Surge então uma nova candidata à tarefa: a flamenga Aaltje van de Meer, interpretada por Aenne Schwarz, obrigada a fingir ser homem porque a guilda holandesa exclui mulheres. Na procura da “verdade” de Leibniz, Aaltje rompe com as convenções formais da época, começando logo pela escolha de uma tela negra prestes a ser iluminada pela presença do filósofo.

É na relação entre estas duas figuras que Reitz não apenas trabalha uma teatralidade que parece saída diretamente de Bertolt Brecht, mas constrói um objeto cinematográfico raro, capaz de iluminar — em pleno Iluminismo — a intimidade do pensamento. As discussões apaixonadas entre ambos fazem emergir referências constantes à filosofia de Leibniz, incluindo a célebre ideia de que “tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”, posteriormente parodiada por Voltaire em Cândido ou o Optimismo. Numa das sequências mais marcantes, Aaltje cria uma câmara escura que invade o rosto de Leibniz, num momento de pura magia cinematográfica. A par dos movimentos suaves da câmara de Reitz e dos frequentes closes discretos mas profundamente expressivos, o filme produz uma beleza que ultrapassa a estética para encontrar profundidade na própria palavra. O resultado é um filme que não apenas desconstrói a representação histórica do filósofo, mas oferece um espetáculo de Cinema que pode ser chamado clássico — nunca velho. A não perder.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
leibniz-chronicle-of-a-lost-painting-retratar-o-pensamentoReitz não prima apenas por uma forma teatral da interpretação que parece ser arrancada da mente de Brecht, mas cria um objeto cinemático de exceção, capaz de iluminar (em tempos do iluminismo) a intimidade dos pensamentos de duas figuras que entram em discussões apaixonadas