“Anatomie d’Une Chute”, de Justine Triet, ganha a Palma de Ouro de Cannes

(Fotos: Divulgação)

Pela terceira vez na história, depois de Janes Campion e Julia Ducournau, uma realizadora tem a honra de levar um dos mais prestigiados prémios do cinema (como arte e como indústria) para casa: Justine Triet foi a vencedora do Festival de Cannes de 2023, coroada por toda a excelência de “Anatomie d’Une Chute”. Depois de filmes regados a afetividade (ainda que passionais e virulentos também na forma) como “Sybil” (2019), a cineasta francesa de 44 anos optou por uma narrativa (formalmente engenhosa) que namorisca com o suspense e com os filmes tribunal. Sandra Hüller, que era encarada como a favorita absoluta ao prémio de Melhor Interpretação Feminina deste ano, não ganhou, mas percebe-se que foi por uma boa causa. É ela que alimenta o tónus de humanismo da autopsia em corpo vivo da história de um casal. Sandra é uma escritora que é acusada de ter matado o marido, depois que este caiu do sótão da sua casa. Tudo sugere uma queda (até o título da longa-metragem), mas a Justiça francesa insiste que não é, usando argumentos sexistas contra a ré.

Não escrevo diálogos apenas para encher a boca das personagens, escrevo aquilo que faça a personagem feminina prevalecer e apontar os caminhos para o desajuste de uma sociedade sexista”, disse Justine ao C7, em entrevista em janeiro, em Paris, quando “Anatomie d’Une Chute” (que também recebeu a Palm Dog) estava ainda a ser finalizado.

Dar a Palma aa esta realizadora é um gesto de renovação das estéticas francesas. Foi uma decisão corajosa de um júri presidido por um vencedor de duas Palmas – a de 2017, dada a “The Square” e a do ano passado, dada a “Triângulo da Tristeza” – o realizador sueco Ruben Östlund.

Este júri pauta-se pelo desejo: cada um aqui deve lutar pelo voto em que acredita. Não acredito no consenso na arte. Consenso artístico é submissão.”, prometeu o cineasta na cerimónia de abertura de Cannes, ao explicar como seria o seu método de avaliação, antes do filme “Jeanne Du Barry”, com Johnny Depp, exibido fora de competição.

Com Östlund havia um a equipa de juradas e jurados composto por duas estrelas de Hollywood – Brie Larson e Paul Dano -; pela estrela francesa Denis Ménochet, pelo escritor franco-afegão Atiq Rahimi; e cineastas das mais variadas nacionalidades (a já citada Julia Ducournau, da França; Rungano Nyoni, da Zâmbia; Maryam Touzani, de Marrocos; e Damián Szifron, da Argentina). A sinergia deles, como um coletivo, pode ser notada na escolha de Tran Anh Hùng para receber a láurea de Melhor Realização pelo filme “La Passion De Dodin Bouffant”. Trata-se de um mergulho na França do século XIX a partir de uma trama de amor e culinária, com o ex-casal Juliette Binoche e Benoît Magimel. Uma vez mais Cannes coroou a ousadia ao definir “Monster”, de Hirokazu Kore-eda, como vencedor do Melhor Argumento, pela sua delicadeza ao tratar das descobertas sexuais de um menino às voltas com o bullying escolar e a orfandade. A longa-metragem recebeu ainda a Queer Palm.

No pódio de Cannes, o segundo lugar leva o Grande Prémio do Júri e o terceiro, o Prémio do Júri. Essas estatuetas foram entregues, respectivamente, a “The Zone of Interest”, de Jonathan Glazer, e a “Fallen Leaves”, de Aki Kaurismäki.

Na seleção dos prémios de interpretação, a Melhor Atriz foi para Merve Dizdar, pela longa-metragem “Les Herbes Sèches”, da Turquia; e o Melhor Ator foi Koji Yakusho, por “Perfect Days”, que rendeu ainda o Prémio do Júri Ecuménico a Wim Wenders.

Duas outras premiações relevantes, decididas por júris paralelos (e independentes ao de Östlund) foram anunciadas na Croisette. Primeiro veio a de Melhor Curta-Metragem, dado a “27”, de Flóra Ana Buda (da Hungria). Depois veio a Caméra d’Or, troféu dedicado a estreantes, que foi para as mãos do vietnamita Thien Na Pham, por “Inside The Yellow Cocoon Shell”.

O Prémio da Crítica foi dado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci), à realizadora paulista Lillah Halla por “Levante”. Na década de 1980, essa mesma láurea consagrou “Memórias do Cárcere”, de Nelson Pereira dos Santos (1928-2018). Presente na Semana da Crítica, a inquieta (e inquietante) longa-metragem de Lillah impôs-se como um dos títulos mais desafiantes aos códigos morais da contemporaneidade. Lillah assina a realização apoiada na força da atriz Ayomi Domenica Dias. É uma trama sobre os dilemas morais mais medievais do país, dissecados a partir do processo de uma jovem atleta que engravida sem desejar e opta pelo aborto. Como de costume, a Fipresci escolhe três lfilmes, um de cada seção de Cannes, para consagrar. Este ano, o eleito da competição oficial foi “The Zone of Interest”, de Jonathan Glazer. Na já citada Un Certain Regard, o vitorioso foi “Los Colonos”, de Felipe Galvez, do Chile.
“Este guião foi sendo construído ao longo de sete anos, período em que cada acontecimento novo na vida brasileira ia sendo absorvido”, disse Lillah, definindo o seu filme como um exemplar da estética queer. “Ele gera espaços de resposta e imagens de um futuro possível. É importante entender que queer é muito além de uma sexualidade, embora a sexualidade nunca seja um detalhe. Queer é a criação de espaços seguros”.

Perfect Days” ganhou ainda o Prémio do Júri Ecuménico. “Sei que em ‘Asas do Desejo’ filmei anjos, mas sinto que a personagem de Yakusho é um deles”, disse Wenders ao C7nema. As figuras angelicais passam desapercebidas por entre nós, mas estão ao nosso redor”.

Já o prémio LGBTQIA+, a Queer Palm, foi dada a “Monster”, de Hirokazu Kore-eda.

Encerrada a competição de Cannes, as atenções do mundo cinéfilo agora se voltam para o Festival de Locarno, na Suíça, agendado de 2 a 12 de agosto, com o ator Lambert Wilson a liderar o júri e uma homenagem ao conjunto da carreira do realizador californiano Harmony Korine.


PRéMIOS DE CANNES 2023

PALMA DE OURO: “Anatomie d’Une Chute”, de Justine Triet
GRANDE PRÉMIO DO JÚRI: “The Zone of Interest”, de Jonathan Glazer
PRÉMIO DO JÚRI: “Fallen Leaves”, de Aki Kaurismäki
CURTA-METRAGEM: “27”, de Flóra Ana Buda, com menção honrosa para “Intrusion”
DIREÇÃO: Tran Ahn Hùng, por “La Passion de Dodin Bouffant”
ATRIZ: Merve Dizdar, por “Les Herbes Sèches”
ATOR: Koji Yakusho, por “Perfect Days”
ARGUMENTO: Sakamoto Yuji, por “Monster”
CAMÉRA D’OR (MELHOR FILME DE ESTREIA): “Inside The Yellow Cocoon Shell”, de Thien Na Pham
PRÉMIO DA CRÍTICA FIPRESCI: “The Zone of Interest”, de Jonathan Glazer; “Levante”, de Lillah Halla; “Los Colonos”, de Felipe Galvez
PRÉMIO DO JÚRI ECUMÉNICO: “Perfect Days”, de Wim Wenders, com menção honrosa para “The Old Oak”, de Ken Loach
TROFÉU L’OEIL D’OR DE MELHOR DOCUMENTÁRIO: “Les Filles d’Olfa”, de Kaouther Ben Hania, em empate com “La Mère De Tous Les Mensonges”, de Asmae El Moudir
QUEER PALM: “Monster”, de Hirokazu Koreeda.

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