O trauma e as suas manifestações físicas e psicológicas não são um tema novo no cinema de Alice Winocour. A francesa, em 2015, tinha entrado nessa esfera com “Maryland” (Disorder), ao acompanhar um ex-soldado com Stress pós-traumático, contratado para proteger a esposa e o filho de um rico empresário libanês enquanto ele estava fora da cidade.

Porém, agora, a realizadora de “Augustine” e “Proxima” parte para uma história que tem tanto de pessoal como coletiva: os atentados em Paris, a 13 de novembro de 2015, que fizeram mais de 130 mortos e deixaram mais de 400 feridos. O irmão de Winocour esteve presente nos atentados do Bataclan, mas sobreviveu, e todo o país, ainda a digerir o ataque ao Charlie Hebdo nesse mesmo ano (a 7 janeiro), viu o terrorismo mostrar mais uma vez as suas garras, numa nação que a partir daí nunca foi mais a mesma. Basta, aliás, andar por uma qualquer rua de uma cidade francesa para se perceber que policias ou militares fortemente armados passaram a ser elementos da paisagem, nascendo assim uma nova normalidade.

É a partir dos mecanismos da ficção, com o seu quê de documental, que a gaulesa traz até ao público a história fictícia de Mia (Virginie Efira), uma mulher que como tantos outros viveu no local essa noite de terror. Tudo acontece num restaurante, onde alguém armado com uma Kalashnikov entra e dispara sobre quem vislumbra. Winocour filma o ataque com toda brutalidade e realismo de um filme de guerra, omitindo o rosto do atacante e colocando a câmara sempre ao nível dos olhos da protagonista. O som, ou a ausência dele, é também jogado por Winocour, adensando camadas de drama e terror numa cena que vai desemaranhando os pedaços de memória ocultas em jeito de thriller.

Depois desses momentos dramáticos passamos imediatamente para a imagem de Mia no hospital, sem memórias e ainda atordoada com o que aconteceu. É a partir daqui que ela parte numa busca interna do que aconteceu, sendo através do contacto com outras pessoas que viveram o momento de terror – em particular Thomas (Benoît Magimel) – que ela vai reconstruir a noite.

Intenso, quer no momento do atentado, quer na fase das descobertas do que realmente se passou, “Memórias de Paris” tem dois grandes atores a preencherem personagens diminuídas pela ausência de recordações da noite mais dramática das suas vidas, mas parte deles para traçar um retrato coletivo de análise ao trauma, que sai da esfera dos que viveram in loco os eventos e passa para toda uma nação em profundo choque e comoção. 

Pontuação Geral
Jorge Pereira
memorias-de-paris-trauma-pessoal-e-coletivo “Memórias de Paris” tem dois grandes atores a preencherem personagens diminuídas pela ausência de recordações da noite mais dramática das suas vidas, mas parte deles para traçar um retrato coletivo de análise ao trauma