Enquanto já prepara a sua primeira longa-metragem, a realizadora cipriota Alexandra Matheou levou até Cannes e à Quinzena dos Cineastas uma nova curta-metragem, Free Eliza (Notes on an Anatomical Imperfection), onde disseca e reflete sobre a performance social a partir da história de Eliza (interpretada por Grigoria Metheniti), uma funcionária de um resort turístico que é incapaz de sorrir fisicamente num mundo obcecado com a positividade.
Entre hóspedes exigentes, as rotinas de servidão e uma pressão constante para parecer feliz, a curta-metragem transforma um conceito quase absurdo numa reflexão contemporânea sobre performance social.
Na conversa que se segue, Alexandra Matheou – que no passado assinou curtas como Anorak (2015), Grief (A Place None of Us Know Until We Reach It) (2018), Tragedies Come in the Hungry Hours (2020) e A Summer Place (2021) – falou ao C7nema sobre a origem da ideia, o seu fascínio por hotéis enquanto microcosmos sociais, a pressão para corresponder às expetativas e a construção de uma personagem que recusa adaptar-se ao papel que o mundo lhe designa.

Li nas notas de produção que a ideia surgiu quando estava num hotel. Como é que isso evoluiu até à criação da personagem?
Sempre tive um fascínio por hotéis. Em criança queria viver num hotel. Mas sinto que os hotéis são microcosmos. São quase como um teatro.
E as pessoas que trabalham nos hotéis têm de deixar os seus problemas à porta todas as manhãs. Enquanto isso, chegam pessoas de todo o mundo para viver ali as suas vidas. Existe uma espécie de servidão associada àquele papel.
Se pensarmos no hotel como um teatro, então os trabalhadores são performers. Têm constantemente de estar num modo feliz, agradável. E pensei: e se existisse uma personagem que não conseguisse seguir esse código universal de comunicação? Que implicações teria isso na vida dela? O que significaria internamente?.
A sua curta-metragem aborda esta ideia de que hoje somos quase obrigados a estar felizes o tempo todo. Se não estamos felizes, parece que temos imediatamente de justificar o porquê. O que a interessava nessa ideia de positividade constante?
Vivemos num mundo em que a positividade tóxica está em todo o lado. É irónico porque nunca se falou tanto sobre saúde mental ou sobre cuidar de nós próprios, mas ao mesmo tempo pedem-nos constantemente para acelerar as emoções. Qualquer sentimento negativo é imediatamente posto de lado.
Então pensei: vamos brincar um pouco com essa ideia e perceber também qual será a perceção do público sobre esta personagem.
Ela é um pouco como uma cebola que vai sendo descascada camada após camada. A primeira reação de quem vê o filme é provavelmente: “Ok, ela não consegue sorrir, mas também parece triste por trabalhar aqui.” Mas depois, gradualmente, espero que o filme revele um mundo interior tão rico que talvez ela seja mais feliz do que toda a gente à sua volta.
Mas o filme também acaba por explorar muito a relação entre os clientes e quem trabalha nos hotéis. Existe quase uma sensação de posse por parte dos hóspedes em relação a essas pessoas.
Exatamente. E isso dá-me arrepios quando penso nisso. Porque todos nós já estivemos na posição de hóspedes em hotéis.
O que acontece comigo é que tento sempre afastar-me um pouco da situação e pensar na pessoa que me está a servir aquele café, ou que está ao bar, ou a trabalhar no pequeno-almoço. Que problemas teve ela de deixar de lado naquela manhã para começar o turno?
Existe qualquer coisa de ridícula nessa dinâmica. Mesmo quando estamos a divertir-nos num hotel — de chinelos e roupão, a ir para spas e coisas assim — há algo profundamente absurdo naquilo tudo.
Claro que todos desejamos ter essa vida. Mas, se temos o privilégio de a viver, também é importante perceber que existe algo fundamentalmente ridículo nela.
Falou também com pessoas que trabalham em hotéis?
Sim, falei. Tivemos a sorte de ter acesso ao resort onde filmámos. E foi muito especial porque era precisamente o mesmo hotel que me tinha inspirado originalmente. Fechou-se um círculo.
E aquilo que referi no início voltou sempre nessas conversas: o hotel como microcosmo.
Quando entramos naquele espaço, quase sentimos que nada pode correr mal ali dentro. Mas imaginemos o que significa trabalhar ali todos os dias.
Há uma frase no filme em que a Eliza diz: “Para o hotel dormir descansado, alguém tem de ficar acordado.”
Essa frase tornou-se uma espécie de ponto central nas conversas com pessoas da indústria hoteleira e do setor dos serviços.
Há uma cena muito específica quando estão a jogar ténis, em que forçada a sorrir, ela explode e faz a uma raquete o que John McEnroe se habitou a fazer… (risos)
Estava mais a pensar na Serena Williams (risos).
É praticamente a mesma energia.
Serena Williams é uma das maiores atletas de sempre e foi muitas vezes julgada por parecer demasiado zangada ou pouco agradável.
Aquela cena foi uma pequena homenagem à Serena Williams. Mostrei à atriz muitos vídeos das explosões dela ao longo dos anos.
Para mim, essa cena era importante porque é o único momento em que vemos a personagem atingir um ponto de ruptura. Mas eu não queria que isso fosse o clímax do filme. Porque o filme não é sobre as consequências daquele comportamento. É sobre aquilo que pode levar uma pessoa a quebrar e a dizer: “Não, eu não vou corresponder àquilo que esperam de mim.”
Quando comecei a ver o filme, lembrei-me de Animal (2023), da Sofia Exarchou. Mas depois o filme segue um caminho completamente diferente.
Aquilo que a Sofia faz em Animal é completamente diferente, porque mergulha profundamente na escuridão daquela personagem e na exploração associada a esse trabalho.
O meu filme apenas toca ligeiramente nessa exploração. O foco está muito mais nela e na forma como vive quase numa espécie de ilusão.
Ela não é necessariamente infeliz no trabalho. Não estou a dizer que é feliz, mas também não é necessariamente infeliz. O que ela quer resistir é a esta pressão para se conformar.
E isso pode ir muito além da metáfora do sorriso. Pode abrir espaço para muitas interpretações sobre aquilo que significa desviar-nos daquilo que esperam de nós
É curioso porque países como Portugal, Espanha, Grécia ou Itália vivem muito do turismo. Existe uma enorme pressão sobre estas pessoas para sorrirem constantemente e fazerem sentir os turistas bem-vindos.
Espero sinceramente que isso não continue, porque tudo isso acontece à custa das pessoas. Obviamente não estou a desvalorizar o turismo. Os nossos países dependem muito dele. A minha crítica não é aos turistas. É mais à forma como achamos que temos de nos adaptar quase completamente a eles.
Hoje fala-se muito sobre colonialismo. E às vezes sinto que acabamos por nos transformar em servidores dos outros. Muitos turistas vêm aos nossos países para experimentar a nossa forma de viver, mas a indústria turística — pelo menos na Grécia e no Chipre — acha que temos de nos tornar noutra coisa. E obrigamos os locais a transformarem-se noutra versão de si próprios para servir essas pessoas.
O filme tem um título e um subtítulo. Porque decidiu fazê-lo dessa forma?
Free Eliza é obviamente uma referência a Free Willy
E o subtítulo Notes on an anatomical imperfection precisava de sugerir a condição da Eliza sem revelar demasiado.
Como existe uma voz-off que funciona quase como um diário, queria que o subtítulo tivesse algo de clínico, um pouco frio. Nunca ouvimos diretamente alguém dizer que ela não consegue sorrir, por isso achei que o título podia funcionar como uma pista subtil para o espectador perguntar: “O que será esta expressão anatómica?” e entrar no filme dessa maneira.
Falando dos atores, como foi o trabalho com ela? É muito específico na escrita ou deixa espaço para mudanças durante os ensaios?
Adoro mudanças. Adoro mesmo, porque adoro trabalhar com atores. Eles são artistas por si próprios e trazem sempre materiais e elementos muito ricos.
Neste caso específico, tudo passou muito pela fisicalidade da personagem. Isso pertence completamente à atriz e à forma como ela trabalha o corpo. O meu trabalho é mais dar a direção geral e definir o tom.
Não ensaiámos muito porque, assim que fiz o casting, percebi que ela tinha esta capacidade incrível de fazer aquele sorriso invertido. Fazia-o tão bem que nunca parecia uma caricatura. O corpo dela absorvia aquilo de uma forma muito bela. Trabalhámos muito a partir daí.
Durante a pós-produção da voz-off também lhe pedi para escrever muitos diários da personagem. Parte da voz-off nasceu desses textos. Quando começámos a filmar, ela já conhecia a personagem melhor do que eu.
É como dizia o Robert Altman: “Quando faço o casting certo, 60% do meu trabalho está feito.” Senti muito isso neste caso.
Já está a trabalhar numa longa-metragem?
Sim, estamos agora na fase de financiamento da minha primeira longa [Shibboleth].
Pode falar um pouco sobre ela?
É sobre uma mãe de substituição que vai para uma ilha com um casal incapaz de ter filhos. Mas acaba por descobrir que as pessoas daquela ilha deixaram de morrer e que as intenções do casal não eram exatamente aquilo que ela pensava.
Continua muito próximo do meu universo absurdo. Talvez seja um pouco mais sombrio do que os meus trabalhos anteriores.
Mas há uma coisa comum em tudo o que faço. As protagonistas femininas são sempre outsiders. Adoro outsiders. E adoro outsiders que não sejam vítimas.

