Shana (2026), um filme escrito e realizado por Lila Pinell, recebeu o Coup de Cœur da SACD (Société des Auteurs et Compositeurs Dramatiques) na Quinzena dos Cineastas, em Cannes.
O júri, composto pelas cineastas eleitas da SACD Anne Villacèque, Catherine Corsini e Axelle Ropert, decidiu distinguir “a juventude no seu impulso e na sua fragilidade”, destacando ainda a protagonista de Shana, interpretada por Eva Huault, descrevendo-a como “uma atriz extraordinária” pela sua presença física, linguagem, ousadia, sensibilidade e humanidade.
Em Shana — onde acompanhamos, cinco anos depois, o que aconteceu à personagem da curta-metragem Le Roi David — seguimos a rotina diária da personagem principal homónima, quase sempre acompanhada pelo seu grupo de amigas. Com a morte da avó, ela herda um anel que supostamente afasta o mau-olhado, mas a sua vida não se torna propriamente mais fácil, sobretudo depois de o namorado, entretanto detido, ser colocado em liberdade.
“Queria contar algo sobre a transmissão, sobre aquilo que se transmite numa família”, disse Lila Pinell ao C7nema, a propósito de Shana. “Em todas as famílias é assim: às vezes queremos transmitir uma coisa e, afinal, ela não se transmite exatamente como pensávamos. Torce-se um pouco. Ou então não transmitimos aquilo que queríamos.”
Shana é uma jovem mulher contemporânea, em confronto parcial com a família e atravessada por vários problemas, mas que continua a tentar avançar apesar de tudo. Para Eva Huault, que também falou com o C7nema, a sua personagem é difícil de definir justamente por ser feita “de muitas cores e estados diferentes: apaixonada, zangada, perdida, resistente”.
Huault, que trabalhou na restauração durante oito anos, foi descoberta pela cineasta durante a produção de Le Roi David. “Tirei dias de folga e fui fazer o filme. Não sabia que, um ano depois, quando o filme estreasse, começariam a fazer-me outras propostas. Foi aí que pensei: gostei tanto de representar neste filme, porque não fazer disto uma profissão? Foi a Lila que viu em mim, digamos, um potencial de atriz que eu desconhecia completamente.”
Em anos anteriores, o Coup de Cœur já distinguiu nomes como Xavier Dolan, Claire Denis, Philippe Garrel, Arnaud Desplechin e Thomas Cailley. Em 2025, o prémio foi atribuído a La Danse des renards, filme que se encontra atualmente nas salas de cinema portuguesas.

Já o Prémio do Público da Quinzena dos Cineastas, com o apoio da Fundação Chantal Akerman, foi atribuído a I See Buildings Fall Like Lightning (2026), de Clio Barnard, que acompanha cinco amigos de Birmingham confrontados com o destino da sua amizade quando a vida empurra cada um deles para direções diferentes.
“Adoro o livro do Enda Walsh. As cinco personagens comoveram-me, e não queria chegar ao fim porque não queria deixar a sua companhia”, disse Clio Barnard em Cannes, na apresentação do filme. “Percebi que seria um desafio adaptá-lo, porque são cinco monólogos interiores. O Enda escreveu o argumento muito rapidamente e fez um trabalho brilhante ao ajudar-nos a entrar na cabeça destas cinco pessoas sem usar voz-off, contando a história deste grupo de amigos.”
No ano passado, o vencedor do Prémio do Público foi The President’s Cake.
Recorde-se que a outra distinção atribuída pelos parceiros da Quinzena dos Cineastas, o Europa Cinemas Label, que garante ao filme apoio adicional de promoção e incentivos à exibição em salas europeias, foi para Too Many Beasts (L’Espèce explosive), a primeira longa-metragem da realizadora francesa Sarah Arnold.
Too Many Beasts desenrola-se no nordeste de França, onde um grupo de agricultores e caçadores locais entra em conflito devido à proliferação de javalis que destroem colheitas. Quando Brun, um homem à beira da ruína, desaparece, um agente da polícia impulsivo e uma terapeuta em crise iniciam uma investigação que os levará a algo difícil de compreender.
“Havia a vontade de usar códigos do cinema clássico americano, de ver se uma mulher em França podia também brincar com espingardas, caçadores, 4×4, lutas, e ver o que isso dá”, disse a cineasta ao C7nema.

