«Sibyl» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

“Sibyl” é sobre uma psicanalista que decide livrar-se dos pacientes para escrever um livro. Com duas histórias para contar, a realizadora e coargumentista Justine Triet não conta nenhuma: o resultado final é de um histrionismo grotesco.

Sibyl é (mais um) filme que parte do desejo de refletir sobre a realidade através da fantasia (a protagonista, vivida por Virginie Efira, quer escrever um livro) e da metalinguística (as outras personagens “importantes” que fazem parte da rodagem de um filme). Para completar as possibilidades “reflexivas”, Sibyl também é psicanalista.

Quando decide interromper o seu ganha-pão para dedicar-se à escrita, no entanto, a inspiração não parece ser grande coisa e ela começa a apropriar-se da história de uma paciente repentina (Adèle Exarchopoulos) para conseguir vencer o ecrã em branco. A partir de um certo momento, previsivelmente, tudo sairá dos contornos objetivos para se transformar num rocambolesco vai-e-vem entre a realidade e a ficção.

Já no mundo real, a realizadora Justine Triet parte de uma ideia semelhante à de Woody Allen em Uma Outra Mulher (a personagem racional que descobre através de uma pessoa desesperada que tem uma vida vazia), mas fica a uma galáxia do poderio emocional e da qualidade de execução do filme do mestre. Na verdade, Triet inadvertidamente atribuiu a si mesmo uma dupla tarefa pesada: de um lado tem que achar uma “história” para a sua escritora contar; do outro, tem que encontrar ela própria o seu enredo. Como falha grosseiramente em ambas, torna-se penoso assistir o filme até o fim.

O problema é que “storytelling” exige credibilidade e, apesar dos esforços de Triet, que escreve o argumento a meias com Arthur Harari, nem por um segundo consegue sair do “devaneio” e corporizar os conflitos das personagens. Adèle Exarchopoulos, cuja carreira já viu melhores dias (ou terá apenas visto um “único” dia?), tenta convencer o espectador de que está à beira do colapso chorando e gritando o filme todo, enquanto os demais são de uma irrelevância atroz, servindo como molduras para as fantasias de Sibyl.

Para simbolizar isso, nada mais exemplar do que a cena de sexo onde a cineasta atabalhoadamente inverte a noção de “sexploitation” masculina, usando o homem para servir de boneco insuflável para Sibyl: provavelmente não era o seu objetivo, mas é duvidoso que alguém se lembre sequer do nome da personagem. Depois, completamente indecisa entre lançar a sua protagonista ao sabor do imprevisto ou fazê-la voltar à uma vida de família. onde tudo é simulacro, tudo se processa como num divórcio e onde quem sofre são as crianças: elas aqui são tratadas com uma frieza que beira o “bullying” psicológico, algo que a artificialidade de uma pretensa cena sentimental no final só faz aguçar.

Sibyl foi lançado no Festival de Cannes na Seleção Oficial, o que garante, a partir daí, uma carreira internacional para o projeto. O problema que então se põe não é o festival tentar preencher a quota de mulheres realizadoras, mas sim, que elas sejam, por razões de “lobbys”, procuradas sempre no mesmo lugar. Com dezenas de mulheres a fazer filmes pelo mundo, é hora de romper esses “pactos” e procurar projetos femininos em função da sua verdadeira qualidade.


Roni Nunes

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