A comédia humana, mordaz e irónica, sempre foi território natural de Agnès Jaoui, que habitualmente cruza o desconforto social com uma certa crueldade íntima para observar grupos em tensão, relações de poder e contradições morais.
Seguindo o rumo de alguns cineastas que têm chamado a si os impasses da modernidade — como Denys Arcand fez em Testament (2023), ou Michel Leclerc em Le Mélange des genres (2025) —, a realizadora de Le Goût des autres (2000), Comme une image (2004) e Place publique (2018) arrisca, desta vez, num território inflamável. Ou talvez já nem tanto: num tempo em que nomes como o de Cate Blanchett chegaram a dizer que o movimento #MeToo “acabou”, o filme parece surgir depois da explosão, quando permanecem por sarar as feridas abertas, os medos legítimos e as resistências subterrâneas.
Usando o riso como arma de confronto, mas nunca para suavizar o desconforto, Jaoui olha para o mundo da ópera e para a montagem de As Bodas de Fígaro, de Wolfgang Amadeus Mozart, para colocar em rota de colisão as personagens que dispõe em cena — incluindo ela própria, no papel de uma soprano famosa —, mas sobretudo as figuras masculinas, entre as quais se destaca Daniel Auteuil.
Com a ameaça da divulgação de comportamentos impróprios por parte de figuras influentes do meio, a produção é ainda abalada por uma acusação de agressão sexual em pleno processo de ensaios. A partir daí, o pequeno mundo da ópera, aparentemente sofisticado e protegido, transforma-se num campo de batalha entre uma velha guarda artística e uma geração mais jovem que já não aceita calar-se. O facto de tudo isto acontecer durante a preparação de uma obra do século XVIII, atravessada por jogos de classe, desejo e poder masculino, acrescenta ironia e densidade ao debate.
Apesar de compreender o #MeToo não apenas como uma sucessão de denúncias, mas como uma transformação profunda da escuta, Crescendo (L’Objet du délit) usa a ópera para pôr em confronto uma velha elite cultural e uma geração que quer desmontar os seus mecanismos de poder. Porém, tal como em Testament, Jaoui acaba por transformar muitas das figuras em cena em arquétipos caricaturais, ainda que exista um esforço claro para observar como cada pessoa reage às acusações a partir da sua idade, género, etnia, estatuto e proximidade com o poder. A questão da separação entre a obra e o autor também é aflorada, assim como as questões do privilégio e da classe. É aí que o filme se revela mais forte, ou seja, no retrato de uma comunidade que se diz progressista, mas entra em colapso quando é obrigada a aplicar os seus próprios princípios.
Inevitavelmente datado, Crescendo consegue, num equilíbrio instável entre humor e mal-estar, colocar uma questão importante em cima da mesa: depois de se ouvir aquilo que durante séculos foi silenciado, ainda é possível cantar da mesma maneira?



















