Existe uma medida de quantificação de qualidade numa Berlinale que, anedoticamente, é dada pelo filme de encerramento e não pelo de largada, ou seja, a produção que fecha, se for boa… como “Police“, o fecho de ouro da seleção de 2020, garante que o evento fique na memória.
Foi assim em 2017, quando “Logan”, de James Mangold, passou por aqui. É assim agora, com o drama de farda que coloca a atriz e cineasta Anne Fontaine a um quilate mais alto na vitrine das cineastas de boa reputação estética da França: o seu trabalho mais recente nas câmaras é um ensaio sobre empatia, conectado com uma inquietação deste Festival de Berlim 70, que termina no domingo. Temos cá uma história sobre três policias (Virginie Efira, Omar Sy e o surpreendente Grégory Gadebois) empenhados em levar um refugiado (Payman Maadi, de “A Separação”) ao aeroporto Charles De Gaulle, a fim de deportá-lo para a pátria onde ele sofreu toda a sorte de mazelas.
Essa premissa é construída em diálogo com uma reflexão aberta por uma das melhores longas metragens do evento este ano: “Charlatan“, da polaca Agnieszka Holland: “O direito de escolha, por vezes, pode ser um castigo“. Escolher é, na trama decalcada por La Fontaine (com a ajuda da argumentista Claire Barré) do livro de Hugo Boris, fardo e fado, caminho e perdição, crime e castigo. E, nesse jogo de opostos, a realizadora de “Coco avant Channel” (2009) e “Marvin” (2017) cria uma dialética de sentimentos que esculpe as múltiplas dimensões das suas personagens, todos bem defendidos pelos seus intérpretes.
Logo no início, vemos Virginie (papel de Efira) viver uma relação abusiva no seu casamento sem sol. Ela levanta-se antes da hora, dá atenção ao filho e sai para patrulhar as ruas tendo dentro de si um peso, a ser contextualizado com o colega Aristide (Sy, em seu trabalho mais doído). Juntos, eles confeccionam uma simbiose de gostos e perdas. No carro em que saem pelas ruas, levam Erik (Gadebois), um alcoólatra que cheira copos de conhaque para ficar em paz com o vício. Erik é um satélite aparentemente periférico aos desejos que se fortalecem, mas também se repelem entre Virginie e Aristide, testados numa missão deles contra um agressor de mulheres. É um texto inicial para um exame bem mais difícil, que é levar um expatriado (papel de Maadi) para pegar um avião.
Habituados a cicatrizes inerentes à desinência afetiva do verbo viver, os três policiais têm a certeza de que o “alien” que levam algemado está a sofrer uma injustiça. E no périplo para leva-lo até o ponto desejado pela Lei que eles vão colocar em xeque noções de dever cumprido. Daí, empatia, palavra-prostituta dos dias de hoje, serve de cimento aqui para a edificação de um monumento à dor do próximo, ao vazio alheio. Monumento que a câmara do fotógrafo Yves Angelo enquadra sem submissão a cartilha da inércia francesa. Não estamos diante de um espetáculo de massas e sim de um exercício de intimismo sobre pessoas submetidas à educação pela pedra do “Proteger e servir“. Lema que deveria representar “Proteger É servir” numa lógica humanista hoje perdida, que Anne resgata com sobriedade, dando a Virginie o papel de mãe coragem de uma metrópole cindida pela desatenção às diferenças – àquelas que mais importam. Final mais promissor, essa história de Berlinale 2020 não poderia ter, o que é um ponto continuativo, uma abertura de parágrafo para uma nova curadoria, dedicada a roubar sorrisos cinéfilos.
(Artigo originalmente escrito em fevereiro de 2020)




















