Depois de obras bastante distintas como Carré blanc (2011), uma distopia minimalista, e Hors de portée (2014), um thriller internacional com Michael Douglas no protagonismo, o realizador francês Jean-Baptiste Leonetti regressa com Família à Força (Ceux qui comptent), uma tragicomédia sobre sobrevivência, precariedade e gentileza num mundo cada vez mais hostil.
Acompanhando o encontro entre Rose (Sandrine Kiberlain), uma mãe de três filhos que continua a enfrentar o caos da vida com energia e humor, e Jean (Pierre Lottin), um homem solitário e resignado que se encerrou emocionalmente depois de passar por sucessivas desilusões, Família à Força apresenta-se como retrato simultaneamente cómico e melancólico de personagens que tentam manter alguma dignidade enquanto o mundo à volta parece constantemente empurrá-las para as margens.
Em conversa com o C7nema, em janeiro passado, Jean-Baptiste Leonetti falou sobre a criação destas personagens “profundamente boas”, o trabalho com Sandrine Kiberlain e Pierre Lottin e a sua recusa numa estética demasiado estilizada.

Como surgiu a vontade de contar esta história?
Queria fazer o retrato de uma mulher que se debate com problemas insolúveis, que mente, manipula, rouba e coloca constantemente as pessoas em situações absolutamente impossíveis. Mas queria mostrar que ela não faz isso por si própria — faz pelos outros. Está permanentemente em sacrifício, aceita sujar as mãos pelos outros. E queria mostrar isso de uma forma simultaneamente cómica e trágica.
E como construiu a relação entre estas duas personagens, Rose e Jean, que, à partida, parecem tão diferentes?
Na verdade, eles não são propriamente opostos. Têm um ponto comum muito forte: são duas pessoas profundamente boas. Quando digo “boas”, quero dizer que escolheram sê-lo. Não são boas por defeito. Sabem perfeitamente o preço que isso custa.
Há um que sabe tão bem quanto custa ser gentil que se fechou numa carrinha à beira de uma autoestrada para deixar de ter contacto com os outros, de tão desiludido que ficou com a vida. E há outra que decidiu lutar. Em vez de reclamar, de se vitimizar ou reivindicar, decidiu tomar aquilo que ninguém lhe quer dar. Vai enganar os serviços sociais, roubar supermercados, mentir às pessoas para as arrastar para situações rocambolescas onde já ninguém controla nada — tudo isto porque quer proteger os filhos a qualquer custo de um ambiente profundamente hostil.
Quando escreveu o filme já pensava na Sandrine e no Pierre para os papéis?
Não. Nunca faço isso porque é perigoso. Se disserem que não, fica-se sem nada. Escrevo as personagens sem lhes colocar um rosto específico.
Até que ponto o argumento estava fechado durante as filmagens? Gosta que os atores se apropriassem livremente das cenas?
Seguimos bastante o argumento. A Sandrine respeita o texto a cem por cento. O Pierre, às vezes, pede para se afastar um pouco e experimentar outras coisas, mas isso não me incomoda desde que o espírito da cena continue intacto.
Quando sentia que nos estávamos a afastar demasiado, dizia-lhe simplesmente que talvez fosse melhor regressarmos ao texto original porque estávamos a perder-nos. Mas isso aconteceu muito raramente. E nesses casos ele voltava imediatamente ao texto. São profissionais extraordinários.
Como estávamos completamente alinhados em relação às personagens, quase nunca houve debates. Quando todos fazem o mesmo filme, não se perde tempo no plateau a discutir fundamentos. Falam-se apenas pequenos detalhes para melhorar certas coisas.

E o trabalho com as crianças? Como construiu aquela dinâmica familiar?
Foi sobretudo uma questão de casting. Passámos muito tempo à procura da química certa entre eles.
Se existissem algumas parecenças físicas, ótimo — e entre a irmã mais nova e o irmão mais velho isso acontecia claramente. Mas o mais importante era perceber como jogavam uns com os outros.
Não experimentámos assim tantas pessoas. Muito rapidamente percebemos que Alexis Rosenthal e Louise Lévesque eram os certos. E a mais nova foi extraordinária desde o início. Era muito inteligente e completamente natural. Não estava consciente da própria “fofura”, não representava isso. O casting acabou por correr quase como um sonho.
O filme trabalha muito os espaços interiores, mas também o interior emocional das personagens. Isso era importante para si?
Sim. Acho que o filme vive desse equilíbrio frágil entre a comédia, o ritmo e uma dimensão mais existencial.
É um filme muito ritmado, mas ao mesmo tempo as personagens carregam claramente um passado dentro delas. Sentimos isso no corpo, na atitude, na forma como ocupam os espaços. E depois há pequenos elementos no argumento que ajudam a reforçar ainda mais essa sensação.
No fundo, trata-se sobretudo de encarnação. São personagens profundamente vividas.
E visualmente? Como pensou a estética do filme?
Curiosamente, decidi que este filme seria menos estético do que os anteriores. Não queria uma mise-en-scène demasiado evidente. Estava muito mais concentrado no ritmo e nos atores.
A ideia era criar fundos que permitissem destacar as personagens. Trabalhámos com objetivas antigas e filmámos quase sempre com a abertura completamente aberta. Isso reduz brutalmente a profundidade de campo: o fundo torna-se muito difuso e as personagens destacam-se quase isoladas da realidade à volta.
Foi uma decisão técnica, mas que acabou por definir completamente a imagem do filme.
E depois filmámos muito depressa, com poucas tomas. Como todos estávamos alinhados em relação às personagens, sentíamos que não havia necessidade de fazer dez ou quinze takes.

Como escolhe os filmes que faz? Existe um cálculo racional ou segue uma intuição?
Não escolho. Não tenho escolha. Faço os filmes que consigo fazer e, sobretudo, os filmes que se impõem a mim. Nunca escolhi um projeto porque parecia bom para a carreira, porque podia dar dinheiro ou chegar a muito público.
Há um momento em que se está diante da folha em branco e percebe-se que não consegue escrever outra coisa além daquela história.
E sinceramente não quero saber exatamente porquê. É como no amor: quando começamos a racionalizar demasiado porque amamos alguém, começamos a amar menos.
Já está a trabalhar num novo projeto?
Sim, já estou a dar voltas a um novo projeto. Acho que será uma história de amor — à minha maneira.
Houve um obstáculo específico que marcou particularmente esta produção?
Como sempre: o tempo. Hoje temos cada vez menos tempo para fazer filmes e, sobretudo, menos tempo para errar. E errar é essencial. Precisamos de tempo para construir algo, destruí-lo, voltar atrás, reconstruir de outra maneira.
O maior desafio é sempre comprar tempo suficiente para poder falhar antes de encontrar a forma certa.
Há algum projeto de sonho que ainda gostasse de realizar um dia?
O meu filme de sonho é sempre o próximo.
Nunca fiz um filme a pensar que ele me permitiria fazer outro mais tarde. Faço apenas o filme que quero fazer naquele momento. Depois logo se vê.






