Tal como os recentes “Dope Is Death”, “MLK/FBI”, “Seberg”, “One Night in Miami” e “The United States vs. Billie Holiday” mostraram, J. Edgar Hoover e a forma como construiu o FBI à sua imagem tiveram um papel muito ativo na tentativa de esmagar qualquer tipo de movimento dos direitos civis ou indivíduos que colocavam em risco a forma de vida da tradicional América branca e cristã.
“Judas and the Black Messiah” segue a mesma veia, contando a história do “messias” Fred Hampton, presidente dos Panteras de Chicago, e como ele e o seu movimento foram traídos por um agente duplo colocado no seio do grupo pelo FBI.
Hampton – imortalizado no grande ecrã por um soberbo e carismático Daniel Kaluuya – era um enorme perigo para a América Branca, não por um eventual poderio bélico, mas pela sua força como orador, conseguindo reunir em seu torno o apoio de outros grupos negros de ação intensa e poder em Chicago, como os The Crowns, mas igualmente através dos movimentos que lutavam pelo fortalecimento da comunidade e autodeterminação de porto-riquenhos, latinos e outros colonizados, como os The Young Lords, e até brancos pobres, que depreciativamente chamamos de rednecks, que se uniram a ele e ao seu discurso de igualdade com os princípios do socialismo na sua base. É neste filme, aliás, que se mostra uma maior preponderância do discurso que Hoover apelidava do demoníaco comunismo, sendo inegável assim para ele que não bastaria silenciar temporariamente os líderes dos Panteras Negras, mas retirá-los definitivamente do terreno, sem dar espaço para uma eventual sucessão.
Entra assim em jogo Bill O’Neal (Lakeith Stanfield), pequeno assaltante de carros. Detido pela agência governamental liderada por Hoover (interpretado aqui por um Martin Sheen carregado de maquilhagem), e de forma a não ir para a prisão, ele aceita agir como um espião no grupo de ativistas, atuando como chefe de segurança do Partido dos Panteras Negras em Chicago e como informante pago pelo FBI.
O filme depende muito de um tridente de atuações unidos em torno da figura de O’Neil, o judas do título, cabendo a Jesse Plemons o papel do agente do FBI, Roy Mitchell, que o chantageia de forma a obter informações sobre Hamptom e a atividade dos Panteras Negras.
Realizado por Shaka King, “Judas and the Black Messiah” movimenta-se essencialmente entre o filme biográfico e o de espionagem carregado de política e suspense. Tenso em permanência, embora saibamos de antemão as linhas narrativas que vamos atravessar, este é um filme que carrega igualmente a sua palete narrativa com uma análise particular a personagens, em especial a Hamptom e O’Neil, sendo mesmo mescladas no meio da ficção algumas imagens de arquivo e uma entrevista que o “agente duplo” deu à PBS (“Eyes On the Prize 2”), onde mostrava mais confiança no agente Roy Mitchell do que este filme apresenta.
E é nessa menor exploração da relação dos dois homens – O’Neil e Mitchell – que reside talvez a maior fraqueza deste filme, mesmo que algumas cenas na casa do agente e num restaurante indiciem uma interação além da mera observação de dominador e dominado através de chantagem.
Ainda assim, essa maior superficialidade e binaridade não arruínam de todo “Judas and the Black Messiah”, o qual revela ser um filme importante e bem conseguido, não apenas a solo, mas como parte integrante de uma leva impressionante de produções que começaram a desconstruir e reconstruir a imagem dos movimentos de direitos civis e das agências governamentais que frequentemente usaram de manobras ilegais para as assediar, intimidar, difamar e desacreditar, e consequentemente enfraquecer.















