A religião sempre teve algo a dizer nos filmes do romeno Cristian Mungiu, como se viu em Beyond the Hills (2012), o exemplo mais flagrante, centrado num convento ortodoxo e numa tragédia moldada pela fé e repressão. Também aparece, de forma menos frontal, mas importante, em 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (2007), pelo peso moral e social sobre o corpo feminino, e em R.M.N. (2022), onde a identidade comunitária, a xenofobia e a pertença cultural possuem ressonâncias religiosas.

Em Fjord, essa dimensão regressa pela via evangélica, agora cruzada com a migração, a parentalidade e o choque entre os valores da crença privada e da lei pública, tudo tratado com enorme ambiguidade pelo cineasta. Não são só os Gheorghiu, Sebastian Stan e Renate Reinsve, que interpretam um casal evangélico romeno-norueguês investigado por possível abuso infantil, que terão de provar num tribunal que são capazes de educar os filhos sem os reprimir fisicamente. Mungiu coloca o espectador, durante toda a duração do filme, a ouvir argumentos de um lado e do outro, fazendo a opinião de quem vê oscilar de um lado para o outro à medida que descobrimos mais e mais sobre os meandros em que os filhos do casal — cinco, um deles ainda bebé — são educados.

Em 2024, Alexandros Avranas já tinha deixado algumas farpas ao governo sueco no seu Quiet Life (2024), onde a procura de asilo por parte de um casal no país se transforma num pesadelo gélido de burocracias. Aí, a crítica incidia sobre o uso de uma alegada ética, que evoca transparência e justiça, independente das realidades subjetivas, notando-se um afastamento dos sentimentos e de qualquer princípio de empatia na tomada de decisões e nos respetivos trâmites legais. Em Fjord, agora na Noruega, nunca temos verdadeiros autómatos a tomar decisões, mas pessoas que sinceramente acreditam estar a fazer o melhor “para o bem das crianças”, mesmo que isso vá contra os desejos dos miúdos.

A localidade onde o casal se instala com as crianças para viver e trabalhar serve de postal para a ordem e regulação que a democracia da Noruega construiu e blindou sob a forma de instituições independentes, como a proteção de menores. Criam-se protocolos, fugindo à análise caso a caso, também aqui através da tal ética de transparência e justiça, esquecendo fulminantemente que essa ordem deixa de saber lidar com a ambiguidade humana.

Por isso mesmo, Mungiu filma todos os espaços como zonas de vigilância permanente, seja a escola, a casa, a igreja ou as instituições, onde cada gesto parece ser observado, catalogado e pronto a transformar-se em prova contra os pais das crianças, que têm outra visão cultural sobre as questões debatidas. Uma palmada é agressão? Um empurrão na cara é um soco? O público decidirá e o tribunal do filme também, mas o certo é que toda a ordem aparente da localidade choca com uma intensa desordem interior por parte de quem chegou.

O cineasta não toma efetivamente nenhum partido durante a querela e deixa o caso para nós decidirmos, colocando em contraponto várias alucinações conservadoras da família e dos seus métodos educacionais, que vão desde visões do século passado sobre o conceito de família ao uso da punição — física, além do inferno bíblico — para quem não se comportar devidamente, assim como a proibição de diversos elementos considerados normais nos dias de hoje, seja dançar, ir ao YouTube ou jogar videojogos.

Sebastian Stan e Renate Reinsve estão em sintonia, com interpretações poderosas no tom correto, havendo neles uma transformação não tão silenciosa como seria de esperar.

Fjord é assim um filme que explora e proporciona reflexões sobre as contradições do Estado e das crenças individuais. E nisso, Cannes descobriu um dos seus melhores filmes da competição.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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