Diretora de fotografia de filmes como Jessica Forever, de Jonathan Vinel e Caroline Poggi, Le Ravissement, de Iris Kaltenbäck, e L’Engloutie, de Louise Hémon, Marine Atlan chega à Semana da Crítica com La Gradiva, a sua primeira longa-metragem.
No filme, seguimos um grupo de jovens que parte em viagem escolar para Nápoles, para descobrir as ruínas de Pompeia e os corpos petrificados pelo Vesúvio. É aí que a vertigem os atinge brutalmente. Um após outro, deixam-se submergir pelo desejo e pela raiva, até se abandonarem por completo.
Em conversa com o C7nema, a cineasta que já tinha assinado curtas como Daniel fait face (2018), afirma ter procurado uma aproximação quase documental ao grupo de adolescentes, filmando corpos em transição num território onde todas as épocas parecem sobrepor-se. “Acho que o verdadeiro tema do filme é o tempo”, diz Marine Atlan.
Gosto muito do seu trabalho como diretora de fotografia e gostei particularmente de L’Engloutie. Como foi agora esta experiência de realizar a sua primeira longa-metragem?
Foi uma experiência apaixonante, longa e por vezes exigente. Já tinha realizado curtas-metragens, mas isso tinha sido há muito tempo, por isso foi preciso reencontrar essa relação com a realização.
Também fui codiretora de fotografia, portanto havia uma parte do trabalho que eu já conhecia: a vontade de enquadrar, de trabalhar a imagem. Mas depois havia tudo o resto: como conduzir a direção de atores, como levar 20 jovens para este território. Foi bastante complexo, mas apaixonante.
Porque escolher a juventude para uma primeira longa-metragem?
Interessava-me contar o momento em que tomamos consciência de que pertencemos a um tempo muito maior do que o da nossa própria vida. Que fazemos parte de uma história.
Acho que isso acontece na adolescência, porque estamos numa transição. No início sentimo-nos todo-poderosos, presos aos nossos problemas, aos nossos amores, às nossas angústias e medos. Aos poucos, começamos a ganhar distância em relação ao mundo. Era isso que me interessava.

Foi por isso que escolheu Pompeia, pela relação com a mortalidade?
Sim, pela mortalidade, mas também pelas diferentes camadas do tempo. Nápoles e Pompeia são cidades de estratos. Em Nápoles sentimos todas as épocas. Em Pompeia há ruas dominadas por aquilo que já não está lá. É como um imenso fora de campo daquilo que pode ter acontecido.
Isso cria uma relação muito forte com o tempo. Acho que o verdadeiro tema do filme é o tempo. E, ao mesmo tempo, Nápoles é um território de vitalidade muito intensa, apesar da ameaça constante da morte. Era isso que eu achava bonito: um território crítico, muito denso.
Porque escolheu uma estética próxima do documentário?
Porque queria que o espectador se sentisse mergulhado naquele grupo de jovens, com uma vontade realista muito forte.
Eu não sou italiana, mas tenho origens mediterrânicas, por isso sinto uma ligação à região. Ao mesmo tempo, cheguei àquele território com curiosidade. A forma mais evidente para tentar captar uma realidade que me escapava era aproximar-me dela de forma documental. Mais do que encenar, queria observar, olhar para aquele território.
Também me liguei à trajetória do Tony, que descobre esse espaço e tenta compreendê-lo. Isso aproximava-me dele.
Quando escreve o argumento, está tudo muito controlado ou deixa espaço para os atores?
Houve várias etapas. Com a Anne Brouillet a coargumentista, fomos bastante meticulosas e estruturadas. Escrevemos todos os diálogos.
Depois demos esses diálogos aos jovens atores e atrizes, fizemos ensaios, eles improvisaram, nós reescrevemos em função dessas improvisações e depois eles voltaram a interpretar, ainda com alguma liberdade.
Foi um jogo de várias camadas de escrita.
A adolescência é um período de formação. Como olhou para as raparigas e os rapazesno argumento?
Procurámos contar trajetórias de raparigas e rapazes de forma um pouco diferente, porque as personagens não atravessam as mesmas coisas consoante o género, a aparência, o carácter ou o corpo.
Tentámos estar próximos de uma certa sociologia. Fizemos trabalho de pesquisa, entrevistas com jovens estudantes, e até uma viagem escolar com a Anne, a coargumentista.
Queríamos estar o mais próximo possível das problemáticas contemporâneas da juventude. No caso das raparigas, claro que questões como o feminismo e o patriarcado entram inevitavelmente. Por isso seguimos ângulos diferentes consoante se tratasse de raparigas ou rapazes.
Qual foi o maior desafio do filme?
O maior desafio foi a direção de atores e atrizes. Foi aí que coloquei muita energia.
Queria que fossem justos, bonitos, vivos, que o público gostasse deles. Aprender a dirigir 20 jovens atores foi difícil.
Este é o tipo de cinema que quer continuar a fazer? Um cinema com um olhar documental?
Não sei ainda como será o próximo filme. Tenho ideias. Acho que gosto de trabalhar a memória e a recordação. Interessa-me um cinema de cenas, um pouco fragmentado, sem uma cronologia totalmente clássica.
A estética é muito importante para si?
Sim. A forma é sempre um meio para transmitir tudo o resto.
Como foi a colaboração com Pierre Mazoyer na fotografia?
Foi ótima. Conhecemo-nos muito bem. Ele fez a coloração de todos os meus filmes, é um grande diretor de fotografia e também um amigo.
Inventámos um pouco o nosso próprio método. Foi muito rico, mas também um pouco desestabilizador. Tínhamos de encontrar a forma certa.
Partilhámos o enquadramento: havia sequências que eu filmava e outras que ela filmava. A luz era construída em conjunto. Foi desestabilizador, mas muito fértil.
É importante estar em Cannes, na Semana da Crítica?
Sim, é muito importante estar na Semana da Crítica. É maravilhoso o filme ser mostrado aqui. A Ava Cahen e a equipa acompanham os filmes com muito calor e muita ternura.
O filme tem recebido críticas positivas. Lê as críticas?
Por enquanto não tive muito tempo, entre ontem e hoje. Leio um pouco na diagonal, à distância. Não tenho muita vontade de mergulhar nisso. Acho que me assusta um pouco.
Quer continuar no cinema ou pensa também noutros formatos, como streaming ou séries?
Por enquanto, acho que não saberia fazer séries. O cinema serve-me muito bem.
Acredita que o cinema vai sobreviver?
Não há escolha.
Em França é diferente, pois está bem protegido. Noutros países, como em Portugal, a sua segurança e continuidade é mais difícil.
Sim, tenho consciência da sorte que é existir a exceção cultural francesa e uma defesa do cinema de autor. Quero continuar a lutar para que isso exista.

