Há exatamente 20 anos, a decisão da Quinzena dos Cineastas de servir de montra de estreia para um “filme de monstros”, nos códigos da sci-fi, chamado The Host (2006), lançado em Portugal como O Hospedeiro, foi tratada como uma vergonha. “Onde já se viu um peixe assassino gerado por CGI a saltar pelos ecrãs do mais prestigiado festival do planeta?”, dizia-se na altura. Pouco se sabia então acerca do seu realizador, Bong Joon-ho. Ainda assim, a Quinzena confiou nele. Treze anos depois, regressou à Côte d’Azur, desta vez na competição oficial, com Parasitas (2019). Ganhou a Palma de Ouro e abriu caminho para conquistar quatro Óscares, além de arrecadar fortunas, dando à Coreia do Sul uma projeção internacional inédita no audiovisual.
Pois em maio de 2026 vive-se uma agitação semelhante com Hope, de Na Hong-jin, talvez a ousadia mais deliciosa desta seleção até agora. Trata-se de um poema ecológico sobre a entropia de um planeta mergulhado em conflitos e predatismos. Uma entropia que vem do espaço. Voltou a falar-se em vergonha. Sinal de que a curadoria de Thierry Frémaux talvez tenha acertado novamente, como aconteceu em 2021 com Titane (2021), o colosso de Julia Ducournau.
Embora trate de uma ameaça vinda das estrelas, seguindo a cartilha das narrativas de invasão cósmica, Hope é alimentado por ação, com todo o virtuosismo já visto na obra do realizador de sucessos como The Chaser (2008) e The Yellow Sea (2010). É um uso da adrenalina num eixo cinemático onde a escrita da câmara é puro movimento, feita de gestos físicos de aceleração e fricção, num modelo que nasce em Matrix (1999) e se sedimenta em John Wick (2014).
O seu Keanu Reeves é um tenente fardado que mantém a lei e a ordem numa vila rural da Zona Desmilitarizada entre as duas Coreias. A descoberta do corpo dilacerado de uma vaca levanta suspeitas de um ataque animal. Não demora até que o polícia e alguns habitantes — entre eles um especialista em rifles de precisão — percebam tratar-se de uma criatura com uma aparência distinta de tudo o que nasceu na Terra. E essa entidade ataca, com força suficiente para arremessar motas.
Eletrizante do princípio ao fim dos seus 160 minutos, durante os quais não se pestaneja, Hope cria complexidades dramatúrgicas deliciosas, entre elas a sequência em que o tenente olha o extraterrestre nos olhos e vê uma lágrima, sugerindo que talvez não seja um colonizador, mas antes um estrangeiro desterrado. A metáfora da invasão, da falta de pertença, da sensação de estar fora do seu próprio perímetro, marca todo o filme, num turbilhão de reviravoltas protagonizadas por heróis trapalhões, sem códigos de honra gravados na pedra, desesperados apenas por sobreviver. Parecem os quase-heróis de John Carpenter em The Thing (1982) e Assault on Precinct 13 (1976). É o heroísmo de quem não teve tempo para fugir, mas carrega consigo a verdade do título: esperança. Esperança de que o cinema fantástico continue a alargar fronteiras através de um espetáculo tão convulsivo e livre.

















