Southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black body swinging in the Southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.
Pastoral scene of the gallant South,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolia sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh!
Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.
A partir de várias histórias íntimas e pessoais, marcadas geralmente nos catálogos cinéfilos como biopics, alguns cineastas norte-americanos têm mostrado nos últimos anos como J. Edgar Hoover e o FBI serviram-se do seu estatuto e poder para travar qualquer forma de nascimento e crescimento dos movimentos dos direitos civis que colocariam em risco a forma de vida da tradicional América branca e cristã.
Exemplos de filmes que mostram isso são a ficção “Seberg“, que acompanhava como a agência governamental e o seu programa COINTELPRO arruinaram a vida da atriz norte-americana, numa clara tentativa de asfixia aos movimentos dos direitos civis que financiava; e “MLK/FBI” (potencial candidato ao Oscar), documentário de Sam Pollard, que registava a perseguição e sabotagem da figura de Martin Luther King por parte do FBI. “The United States vs. Billie Holiday” faz o mesmo através de um olhar cerrado sobre a famosa cantora negra que através da sua música Strange Fruit – sobre os linchamentos de negros no sul dos EUA – despertou os alarmes de uma América que se recusava a mudar.
“Sempre que uma figura negra se destaca, pintam-na de forma errada”, queixa-se alguém durante este filme de Lee Daniels consagrado a Billie Holiday, uma viagem visualmente imponente, mas dolorosa à vida da cantora e aos seus múltiplos problemas, não apenas com o FBI, mas com uma série de relações abusivas e um problema com o consumo de drogas, nomeadamente a heroína.

Existe uma tradição muito americana de eliminar da vida pública certas figuras recorrendo a situações menos óbvias, sejam elas a detenção de Al Capone por fraude fiscal (quando o que se pretendia era travar a venda álcool numa era de interdição), a descredibilização de Martin Luther King por questões de promiscuidade sexual, ou de Billie Holliday, cuja suposta luta contra as drogas serviu de pretexto para a silenciar. E foi a sua versão do tema ”Strange Fruit” que serviu de rastilho para o FBI a ver como ameaça, colocando no seu caminho um agente negro (Jimmy Fletcher), usado numa guerra de preservação dos valores americanos, mas igualmente transformado em porta de abertura racial por parte das forças da lei e em especial do FBI.
Interpretado magistralmente por Trevante Rhodes, que já conhecemos de “Moonlight”, reside muito nesta personagem a força deste filme, pois é na ambiguidade da sua relação com Billie (Andra Day), entre o fascínio e o cumprimento da lei, que nascem os melhores momentos deste “United States vs. Billie Holiday“, incluindo uma cena de sexo de extremo bom gosto e carnalidade que só de forma militante e lobista poderá ser reduzida a male gaze. Na verdade, essa cena de sexo demonstra um Daniels livre no meio da plasticidade e inércia softcore do cinema de Hollywood deste novo milénio, onde se acentuou a visão puritana sobre o sexo, reduzindo-o mesmo a uma fábula condenada de relações entre dominantes e dominados.

Nisto, Lee consegue ser uma voz contracorrente, mesmo depois de ser espezinhado por uma cena que envolve um golden shower no seu “The Paperboy”. Como dizia Natasha Lyonne – que aqui tem um pequeno papel – em “American Pie”, existe a transformação do sexo em algo muito complexo, comparável a uma viagem à lua, e muito desse espírito judaico-cristão está de tal maneira entranhado no espírito americano (como Sam Pollard também nos disse) que se reflete na arte. Convém realçar que essa carnalidade e transpiração sexual & sensual neste filme está longe de qualquer objetificação de Billie Holliday. Nesse ponto, Andra Day entrega em doses generosas o seu corpo, alma e voz à cantora, assumindo um papel que nomes como Diana Ross tinham interpretado no passado (“Lady Sings The Blues“).

Tudo na Billie de Andra é dor transformada em perseverança e escape (para a música, para o ativismo), havendo ainda uma conexão direta entre o seu desempenho musical e o consumo das drogas, como a própria admite num momento de retorno aos palcos após ter estado detida, e que faz lembrar as dinâmicas de dependência entre os criadores e as substâncias que os potenciam.
Lee Daniels concentra grande parte da atenção do filme no relacionamento de Billie com o universo masculino, sejam eles os homens do FBI que cegamente a tentam silenciar (liderados por Harry Anslinger), ou o agente do FBI, que entre o fascínio e o cumprimento da lei se aproxima dela (Jimmy Fletcher), ou o seu marido Louis McKay (de 1957 a 1959), extremamente influente na sua estrutura psicológica e decisões de vida.
Por tal, além de uma saga com forte incisão na componente racial, este “United States vs. Billie Holiday” também é uma história sobre a sua condição de mulher, frequentemente explorada pelos homens que a rodeiam.
Daniels carrega sonora e esteticamente o filme no seu jeito inconfundível, ensaiando algumas viagens entre o sonho e a realidade, onde não faltam trips carregadas de drogas entre o passado e presente, onde cinema e teatro se encontram numa perfeita comunhão que deve ser testemunhada no grande ecrã.
E também recorre, através da montagem, a imagens de arquivo, carimbando com o seu diretor de fotografia Andrew Dunn e o montador Jay Rabinowitz transições e momentos chaves de um percurso fascinante no mundo da música e na História de uma América incansável há séculos em manter o privilégio nos seus colonizadores originais.
Um bom filme que, apesar de não evitar alguns dos iscos habituais para a época de prémios, está longe de ser uma amorfa cinebiografia cuja única intenção é homenagear um nome ímpar na cultura musical e na comunidade afro-americana.















