Dope is Death: toxicodependência, ativismo e os Panteras Negras

(Fotos: Divulgação)

Em virtude da crise global causada pelo Covid-19, o CPH: DOX decidiu lançar sua edição 2020 numa versão digital. Uma edição que o C7nema seguiu com particular atenção

A história do movimento Panteras Negras continua a ser reescrita nos dias que correm, isto depois de décadas e décadas (especialmente nos anos 70 e 80) de desinformação sistemática com o alto patrocínio de instituições políticas articuladas com as forças da lei dos EUA, como o FBI, que com o seu programa COINTELPRO, criado por J. Edgar Hoover, procurou assediar, intimidar, difamar, desacreditar e neutralizar qualquer figura que representasse um perigo para a sociedade americana.

Esse re-análise do passado, pondo “os pontos nos is“, tem naturalmente chegado ao cinema, com documentários como The Black Power Mixtape 1967-1975The Black Panthers: Vanguard of the Revolution e até o recente sucesso da Netflix, Crip Camp, a darem uma nova leitura da história destes ativistas. Este Dope is Death segue a mesma linha, entregando de forma soberba – quer na utilização de imagens de arquivo, quer em entrevistas –  uma verdadeira desconstrução do mito de sentimento anti-americano dos tempos idos por movimentos como os Panteras Negras, mas também de outros menos conhecidos (ou publicitados) como os The Young Lords, que lutavam pelo fortalecimento da comunidade e autodeterminação de porto-riquenhos, latinos e outros colonizados (“Terceiro Mundo”, per se).

Foram estes dois movimentos que, liderados pelo carismático Dr. Mutulu Shakur (padrasto do cantor Tupac Shakur), ocuparam na década de 1970 um hospital inteiro no Harlem (Lincoln Memorial) e deram a milhares de pessoas tratamento gratuito na luta contra a toxicodependência (que afetava de sobremaneira os pobres) sob a forma de acupuntura em vez de metadona. Esta ação encontrou uma enorme resistência nos governantes, com ações contraditórias a virem dos sucessivos governos, de Nixon a Reagan, que por aqui até aparece aos berros numa campanha eleitoral junto dos bairros pobres, proclamando que seria o salvadore das desigualdades (coisa que não foi, bem pelo contrário).

Um trabalho brilhante de Mia Donovan, não só do ponto de vista histórico, recolha e divulgação de informação factual, mas um exercício de montagem e uma narrativa fresca que faz – tantos anos depois – tudo fazer muito mais sentido que a versão oficiosa da época apresentada por um estado redutor na forma como categorizava os seus inimigos em plena Guerra Fria e pânico do comunismo.

Últimas