Há muito que o ecletismo nas escolhas dos projetos em que participar apoderou-se da atriz Regina King, ela que nos últimos anos tem tido maior foco no pequeno ecrã (“Watchmen“; “American Crime“), ainda que tenha dado mostras de grande qualidade no cinema, como em “Se Esta Rua Falasse”.
“Fazes sempre um filme com a esperança de que todo tipo de pessoa queira ver o teu trabalho e que não importe a cor, mas infelizmente ainda importa”, disse King em entrevista, ainda antes de se lançar na aventura de realizar a sua primeira longa-metragem marcadamente para cinema, ainda que o filme tenha aterrado numa plataforma de streaming: a Amazon.
E é interessante começar a falar de uma mulher neste texto, neste caso a realizadora, num filme que foca essencialmente a sua história em quatro homens, amigos, que se encontram num quarto para uma alegada celebração. Não são homens comuns, mas alguns dos maiores nomes ligados à cultura, sociedade e entretenimento negro da década de 1960: o membro da Nação do Islão, Malcolm X; o pugilista Cassius Clay, que se tornaria no futuro Muhammad Ali; o pai da música Soul, Sam Cooke; e o jogador de futebol americano, Jim Brown.
Momentos antes desse encontro, Cassius Clay derrotara Sonny Liston, e com toda a arrogância e “beleza” dos seus 22 anos foi consagrado como campeão do mundo de pesos pesados. A partir deste ponto, os quatro ícones negros dirigem-se para o quarto de um motel, mas o que se segue é uma sequência de situações em que despem a sua capa para o público, e em vez das estrelas e figuras de proa de movimentos civis, o que vislumbramos primordialmente é a “massa” com que são feitos, a sua humanidade, numa era de exigências de mudança no espectro social e político.
Será entre conversas, criteriosamente ensaiadas, e onde atores e a realizadora jogam com o espaço, o tom e a ênfase dramática do texto, entre o registo teatral e o cinematográfico, que surgem intensos e incendiados debates sob a condição e consciência negra, sendo o papel de cada um avaliado nessa batalha conjunta.
Kingsley Ben-Adir, no papel de Malcom X, é a chave de todas as conversas. Islâmico convicto, mas já longe ideologicamente dos pensamentos do movimento da Nação do Islão, regido por Elijah Muhammad, joga cartadas de conquista ao atacar Sam Cooke pelo papel de destaque que tem no mundo do entretenimento junto da população branca, sem produzir realmente conteúdos (músicas) que sirvam à emancipação do homem negro. Cassius Clay é também ele um alvo, não só de cobiça, no sentido de se tornar ele mesmo um filho do Islão, mas de como pode ajudar Malcom a construir um novo movimento que o afaste das amarras da Nação do Islão. E depois há ainda Jim Brown, famoso jogador de futebol americano, mas que ambiciona uma carreira no cinema. Também ele é criticado por Malcom, por alinhar no jogo dos brancos. “És o herói negro de um western que morre antes do final”, diz-lhe Malcom X, usando o eventual potencial desperdiçado de todos para tentar atraí-los para a sua batalha.
Há um momento muito interessante neste “One Night In Miami”, no meio das querelas entre os membros do grupo. Nele, Sam, Jim e Cassius tentam demonstrar – cada um à sua maneira – que só pelo facto de serem financeiramente emancipados (principalmente o músico), podem sair da esfera do domínio branco, servindo de inspiração a outros negros. Porém, para Malcom, isso é importante, mas o poder da palavra que todos podem usar dado o seu papel de figuras de revelo no “mundo branco” tem que ser usado com maior vigor e alcance.
Regina King joga todos estes elementos em conversas simples, às vezes até curtas, mas longe de qualquer simplicidade ou superficialidade, fazendo os atores e personagens entrarem e saírem do palco das discussões, que se estendem por outros espaços. O antes e depois, da famosa noite de conversa a 25 de fevereiro de 1964, é também trabalhado com bastante savoir faire pela realizadora, sabendo a montagem criar uma narrativa não linear bem articulada, de forma a dar ainda mais força aos diálogos incandescentes e reflexivos de um guião essencialmente bem elaborado.
No final, temos assim um belo exemplo de cinema a mexer-se por terras do streaming, com Regina King a contribuir com qualidade para a chegada de mais histórias negras ao cinema, sem cair no mero exercício de telefilme repleto de academismos e clichês, humanos e técnicos, como outros cineastas já o fizeram nesta década (veja-se “Selma“, por exemplo). E outra coisa que a atriz transformada em cineasta consegue é fazer-nos entender melhor – e querer saber mais – sobre a relação entre Malcom X e Muhammad Ali, ligação essa que será eventualmente foco de um documentário que o veterano Sam Pollard coagita desenvolver.















