60 anos de chabadabada

(Fotos: Divulgação)

Um dos pilares do romantismo cinematográfico francês, Un homme et une femme (Um Homem e uma Mulher, 1966) vendeu cerca de 4,2 milhões de bilhetes em França na sua estreia, tornando-se um fenómeno de bilheteira e um clássico absoluto da história do cinema. Realizado por Claude Lelouch, o filme arrecadou dois Óscares — Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Argumento Original — além da Palma de Ouro em Cannes. Agora, seis décadas depois, regressou simbolicamente às areias da Croisette: no sábado, teve exibição no programa Cinéma de la Plage do Festival de Cannes, numa celebração dos seus 60 anos.

A escolha do clássico para ilustrar o cartaz oficial da edição de 2025 — pela primeira vez na história do festival através de um díptico — voltou a colocar o filme no centro da cinefilia mundial. As duas imagens escolhidas eternizam o abraço entre Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant na praia de Deauville, num gesto que sintetiza o romantismo melancólico que marcou gerações.

Hoje com 88 anos — nasceu a 30 de outubro de 1937 — Lelouch continua longe da reforma. Depois de lançar, em 2024, Finalement, protagonizado por Kad Merad, o realizador já prepara uma continuação intitulada Finalement, Ça Ne Finira Jamais.

Em entrevista recente ao C7nema, em Paris, defendeu a convivência entre tradição e modernidade no cinema:“Sou da geração da película em 35 mm, que viveu toda a riqueza sensorial dos negativos, mas é preciso seguir em frente, perceber que o mundo avança e que um telemóvel também oferece uma paleta de cores rica para um cineasta.”

Lelouch sempre seguiu um caminho muito próprio dentro da Nouvelle Vague. Enquanto cineastas como Jean-Luc Godard, François Truffaut, Agnès Varda ou Éric Rohmer privilegiavam a reflexão política e semiótica, ele apostava no melodrama romântico e na emoção frontal. Em Un homme et une femme acompanhamos o encontro entre dois viúvos — a argumentista Anne Gauthier e o piloto Jean-Louis Duroc — unidos pelo acaso e pela dor da perda.

A banda sonora de Francis Lai, embalada pelo célebre “chabadabada”, ajudou a transformar o filme num fenómeno global. O universo musical incluía ainda referências a Pierre Barouh, Baden Powell e Vinicius de Moraes.

Rodado com um orçamento reduzido de apenas 470 mil francos, o filme nasceu num momento particularmente difícil da carreira de Lelouch, após dois fracassos comerciais. O realizador recordou várias vezes que a ideia surgiu depois de uma viagem solitária por França, culminando num amanhecer numa praia onde viu uma mulher passear com o cão — imagem que acabaria por dar origem ao argumento.

O impacto de Un homme et une femme prolongou-se ao longo das décadas, gerando duas sequelas: Un homme et une femme : Vingt ans déjà (1986), apresentada em Cannes, e Les Plus Belles Années d’une Vie (2019), exibida no festival em 2019.

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