Arrebatador mesmo nos momentos em que fita a tortura sem meios-tons, reproduzindo-a num dispositivo quase pornográfico na sua crueza, Moulin não pede licença aos padrões de comportamento da correção política vigente e ousa redesenhar a História como se fosse um “filme de monstros”. A criatura em jogo chama-se Klaus Barbie (1913-1991). Para fazer uma analogia com o cinema mais comercial, típica dos filmes de monstros, o Barbie do filme meteria medo a Darth Vader. É dono de frases como “A sua morte pertence-me e é uma escolha minha.” O agente da Gestapo, com a farda nazi, assombrou a projeção do novo filme de László Nemes em Cannes, graças a um intérprete que parece uma força da natureza: Lars Eidinger. Chega a ser difícil para um ator com a popularidade, em França, de Gilles Lellouche não ser ofuscado por Lars. A batalha é dura, mas Gilles aguenta-se. Nemes realiza um épico tão fora das normas que encontra espaço para os dois brilharem.
Não existe uma tónica de Wikipédia, ou seja, de biopic explicativa, neste concorrente à Palma de Ouro. Muita informação fica de fora. Nemes fia-se em arquétipos de Bem e de Mal. Lellouche e Lars dividem-se nesses lugares, cada um à sua maneira, mas ambos estão notáveis, assim como a direção de fotografia de Mátyás Erdély, marcada por um enquadramento visceral dos corpos, como é imagem de marca do realizador.
Em França, a personagem de Lellouche é uma lenda. Nascido em 1899, Jean Moulin foi um alto funcionário francês que se tornou uma das figuras centrais da Resistência durante a Segunda Guerra Mundial. Prefeito de Chartres no início da ocupação alemã, recusou colaborar com os nazis e acabou por ser recrutado por Charles de Gaulle para unificar os diferentes movimentos clandestinos franceses, desempenhando um papel decisivo na criação do Conseil National de la Résistance. Em 1943, foi preso pela Gestapo em Caluire, perto de Lyon, provavelmente após ter sido traído, sendo submetido a sucessivas sessões de tortura conduzidas por Klaus Barbie sem nunca revelar informações sobre a Resistência. Morreu durante o transporte para a Alemanha, tornando-se posteriormente um símbolo maior da luta antifascista em França e da ideia de resistência moral perante a barbárie nazi.
É esse o périplo que Nemes nos oferece. Onze anos depois da sua visceral estreia na longa-metragem com O Filho de Saul (2015), que lhe valeu um Óscar e o elogio de Steven Spielberg — “É o melhor filme que vi em anos” —, o artesão húngaro regressa à Croisette recorrendo a um vocabulário hollywoodiano de recriação histórica. Já tinha demonstrado vontade de se diversificar em 2025, ao disputar o Leão de Veneza com Órfão (2026), um belíssimo conto de amadurecimento centrado na reconfiguração política da Hungria durante a Guerra Fria. Sem recorrer ao dispositivo de planos-sequência com a câmara colada ao corpo das personagens — marca distintiva do filme de 2015 —, Nemes opta aqui por uma estrutura clássica, em que a música dos irmãos Evgueni Galperine e Sacha Galperine assume protagonismo.
Antes, em 2018, o austero Sunset (2018) — distinguido com o Prémio FIPRESCI no Festival de Veneza — já ensaiava essa transformação que agora se afirma plenamente com Moulin. Esta fase de viragem não implica perda de intensidade, mas antes um olhar mais meticuloso e também mais espetacular. O resultado do que faz com Lars Eidinger e Gilles Lellouche é de puro fervor.


















