É de uma superficialidade gritante este biopic em torno da atriz norte-americana Jean Sedberg, que apesar de se ter estreado e ter tido carreira no seu país, brilhou mais em França, em particular na chamada Nouvelle Vague.

E tudo começa por aqui com Kristen Stewart a replicar uma cena de Saint Joan de Otto Preminger, uma imagem dela (Joana D’Arc) queimada na fogueira, como que mostrando ao espectador o que acontecerá na vida real com a atriz Jean Sedberg, cuja carreira foi seriamente comprometida pelo FBI e pelo seu programa ilegal COINTELPRO, criado por J. Edgar Hoover para assediar, intimidar, difamar, desacreditar e neutralizar qualquer figura que representasse um perigo para a sociedade americana.

Também logo numa das primeiras cenas somos confrontados com a razão para esse boicote, intimidação e perseguição que o FBI lhe dirigiu. Num avião, um membro dos Panteras Negras faz uma cena para assegurar o lugar em primeira classe para outra figura negra. Seberg toma o seu partido e à saída do avião junta-se a outros elementos da organização revolucionária num protesto para os jornalistas a verem. Seguem-se doações atrás de doações a instituições vistas como desordeiras, tornando-a assim um alvo óbvio.

A partir daí o seu destino está traçado, seguindo o filme muitas vezes a linha da especulação de uma relação extraconjugal de Seberg com Hakim Jamal, tudo num momento telenovelesco que culmina com uma “peixeirada de meia noite” com a mulher do Pantera Negra de arma em punho a assediar Seberg na sua casa – com o FBI ciente de tudo e sem intervir. A inclusão da dinâmica bad cop (Vince Vaughn) / good cop (Jack O’Connell) soa igualmente plástica e repleta de lugares comuns, funcionando este último a certo momento um agente fustigado pela injustiça, não tão diferente da que vimos em A Vida dos Outros de Florian Henckel von Donnersmarck em 2008.

Tudo no filme é superficial, repleto de lugares comuns e Stewart e a diretora de fotografia Rachel Morrison preenchem com carisma visual e expressividade numa Jean Seberg e um filme muito mal trabalhados por um guião focado em faits divers, codrilhices e detalhes kitsch da época do que realmente em ir a fundo na vida desta mulher que acabaria por ter um final devastador: Seberg suicidou-se no final dos anos 70, e Romain Gary, marido da atriz na época destes eventos, nos anos 1960, não teve dúvidas em responsabilizar o FBI pelo estado mental fragilizado que acompanhou a atriz depois do assédio.

Por estas razões, Seberg é um desperdício de talentos, de uma história verdadeiramente trágica e repleta de urgência nos tempos que correm, isto porque o ativismo ganhou novos rostos e preponderância na atualidade e, do outro lado da barricada, está sempre alguém disposto a desacreditar as suas principais figuras. As “fake news” não são de agora, e Seberg foi uma vítima delas.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
seberg-contra-todos-os-inimigos-kristen-stewart-superficialidade-e-fait-diversSuperficial e demasiado interessado em "faits divers", Seberg é uma cinebiografia completamente falhada