Já lá vão 11 anos desde que The Tribe (Plemya, 2014) abanou com o Festival de Cannes e trouxe o realizador Valentyn Vasyanovych para o panorama do cinema internacional. Depois disso, o cineasta voltou a dar nas vistas em Veneza, em 2019, com Atlantis. Vencedor da secção Orizzonti, o filme situava-se na Ucrânia, em 2025, um ano depois de uma guerra catastrófica com os russos.
Atlantis é hoje considerado o primeiro filme de uma trilogia [da guerra] que se “encerra” agora com To The Victory. Pelo meio, o cineasta lançou ainda Reflection (2021), onde analisava o stress pós-traumático de um conflito que arrancou em 2014, logo após os eventos ligados ao Euromaidan.
Já com a invasão russa em larga escala de 2022 a assombrar o presente, em To the Victory! (2025) o cineasta imagina um estado pós guerra em 2026, acompanhando um realizador de cinema [interpretado pelo próprio Valentyn] a ter de lidar com inúmeros desafios – profissionais, criativos, mas também como pai e cidadão ucraniano.
Por ocasião da estreia do filme no Festival de Toronto, estivemos à conversa com Valentyn Vasyanovych e Volodymyr Yatsenko (produtor), que nos explicaram a génese de To the Victory! e o modo como a experiência pessoal do realizador se reflete na personagem que interpreta.

O título To the Victory! tem múltiplas interpretações, mas carrega nele também um elemento de ironia, pois a guerra em si é já uma derrota, mesmo com um triunfo militar. Por que escolheu este título e a palavra vitória?
Nesta “vitória” existe ironia, mas se olharmos bem percebemos que existe um verdadeiro ganho, ainda que com perdas enormes. Isto é, podemos olhar para isto como uma espécie de vitória que não é vitória, mas também não é derrota. As consequências da guerra são sempre traumáticas, mas em comparação com a possibilidade de deixarmos de existir enquanto país, considero que já é uma grande conquista. Dizer isto no século XXI até soa assustador, mas é o que realmente está a acontecer. Quero dizer, uma nação decide escravizar outra, e isso acontece na Europa no século XXI, o que é insano.
Portanto, para nós, o mais importante — mesmo que venhamos a perder algum território — não é a terra, mas sim as pessoas. É disso que trata o nosso filme: da população, do risco de podermos ser simplesmente apagados da face da terra em duas ou três gerações. Esse é o maior desafio que enfrentamos neste momento.
Claro que sei que muitas outras nações passam por situações semelhantes, mas não de forma tão dramática. Em 1991 éramos 52 milhões de pessoas, hoje somos 28. Isto é a tragédia, e claro que há ironia, da mesma forma que o título do filme é irónico, mas também precisa de ser algo que nos mantenha nos trilhos.
Há uma cena no filme, num Q&A num festival, em que o realizador que interpreta recebe uma pergunta muito frontal: o que é mais importante para ele, a realização pessoal ou a família? O que pesa mais?
Nessa cena levantei uma questão muito importante para mim: realização versus família. Não aceito ter de escolher. Felizmente, a minha família esteve na Áustria mas regressou à Ucrânia e por isso conseguimos fazer este filme. De alguma forma, é uma vitória minha. Vou lutar até ao fim para não abdicar nem de uma coisa nem de outra. O meu amigo mais próximo no filme divorciou-se. Outros amigos também se divorciaram. Muitas famílias foram destruídas pela guerra e pela distância.
O quanto existe de si no realizador que vemos em cena? O quanto é ficção?
Existe muito de mim, mas também muito dos meus amigos. Acrescentei coisas deles, roubei características, dividi experiências. É um retrato coletivo, um mosaico. Mas sim, há bastante de mim.
Apesar da seriedade dos tópicos abordados, existe sempre humor, às vezes muito negro, como na cena em que falam que antigamente as pessoas conheciam a Ucrânia por causa de Chernobyl e que agora todo o país é uma Chernobyl. Pegando nisso, alguém sugere criar uma agência de viagens para atrair turistas para os locais da guerra. Como trabalha a introdução desse humor?
Desde o início quis fazer uma espécie de comédia. Tentei fazer uma comédia sobre coisas tristes, sobre o drama que todos vivemos. O humor foi uma ferramenta, quase um tratamento psicológico coletivo. É importante não nos levarmos demasiado a sério, relativizar as nossas tragédias. A vida é curta e, perante a evolução da espécie, os nossos sofrimentos são insignificantes. O humor é uma forma de aguentarmos.

Existe também uma abordagem de estudo na relação entre o realizador e o filho, com o primeiro a dizer que o jovem vive dentro do computador e que devia viver a vida fora dele. Por seu lado, o jovem diz que o mundo mudou e que a vida está dentro do computador. Essa sequência tem como base a sua experiência própria?
Sim, é baseado em algo real. Está ligada ao meu filho, que passa demasiado tempo no computador. A minha filha, agora com 18 anos, também vive confusa com isso. Disse no filme tudo o que sinto: a desilusão com esta nova geração, porque acredito que precisam de conversas reais, de emoções vividas cara a cara. Caso contrário, perdem oportunidades preciosas numa vida que já é curta. Se viverem apenas online, não terão histórias para contar. A nossa geração tinha aventuras, bebia, viajava, arriscava. Eles não.
Existe uma ideia num futuro filme de abordar isso: falar da filha, dos amigos dela, jovens patriotas que foram para a frente de combate. Muitos já morreram ou ficaram feridos. É uma questão assustadora: o que acontece aos nossos filhos? Talvez o próximo filme seja sobre isso.
E que filhos estamos a criar num ambiente de guerra, ou seja, que adultos teremos depois dessa experiência?
Os miúdos, muito pequenos, já sabem distinguir drones “bons” e “maus”. Isto mostra como a guerra entra no quotidiano das crianças. Por isso critico a lei que permite aos jovens até 24 anos saírem da Ucrânia sem servir no exército. Considero um erro estratégico, pois torna a guerra “dos pais” e não da geração que herdará o país.
Com esse novo projeto, teremos assim mais que uma trilogia…
Não planeei a trilogia, mas ela tornou-se inevitável. A guerra dura há mais de dez anos e influencia tudo, e não se pode fazer cinema fingindo que ela não existe.
Todos os realizadores, depois de um filme, ficam esgotados, sem energia nem direção. A mim também me acontece. Mas sei que depois de uma pausa surge uma nova ideia. Não tenho escolha: quero filmar e só consigo fazê-lo aqui. Disse isso no próprio filme. Apesar das dificuldades, há quem esteja muito pior que eu — pessoas que perderam tudo, famílias assassinadas pelos russos. Em comparação, a minha situação é menos dramática.

