Quando Sergio Leone (1929-1989) lançou A Fistful of Dollars, em 1964 — produção que custou 220 mil dólares e arrecadou 19 milhões —, a solução para que um filme italiano encontrasse a dose certa de americanidade, sem perder o apelo universal, passou por pastichar os westerns norte-americanos através da hipérbole… do excesso. Leone estilizou ao máximo aquilo que, nos filmes matriciais, parecia subtil: da vermelhidão do sangue aos sulcos nos rostos poeirentos dos cowboys. Como base dramatúrgica, a obra carregava uma referência japonesa evidente, Yojimbo, de Akira Kurosawa (1910-1998), que, por sua vez, guardava afinidades com a comédia italiana e com a peça Arlequim, Servidor de Dois Patrões (1746), de Carlo Goldoni (1707-1793). De cada uma dessas influências, Leone extraiu os elementos mais vibrantes e, com uma paleta carregada, desenhou um novo caminho para o western.
É precisamente essa rota que a Disney decidiu seguir ao lançar um derivado da franquia Star Wars menos centrado no Lado Negro da Força e mais afastado da mitologia dos Jedi e dos Lordes Sith, procurando antes uma epopeia próxima das fundações do imaginário audiovisual norte-americano: as sagas de conquista do Oeste profundo. Afinal, no ethos dessa cultura, o espaço sideral não deixa de ser apenas mais um território por colonizar. O projeto The Mandalorian funcionou às mil maravilhas no streaming da Disney+, em parte graças ao carisma da sua estrela, Pedro Pascal — mesmo sem retirar o elmo —, mas também pela irresistível figura do pequeno Yoda, mais tarde conhecido como Grogu. Lançada em 2019, a série chega agora ao cinema transportando consigo aquilo que melhor dominava na narrativa serializada.
The Mandalorian and Grogu devolve a marca Star Wars ao grande ecrã após um hiato de sete anos nas salas, desde o naufrágio de Star Wars: The Rise of Skywalker, de J. J. Abrams. O filme expande o universo criado por George Lucas a partir da popularidade conquistada pela série protagonizada por Pascal. Coube a Jon Favreau, fundador da Marvel Studios, assumir a realização, demonstrando plena familiaridade com essa gramática pop.
A narrativa dá continuidade direta às aventuras de Din Djarin — ou Mando — e do pequeno Grogu, um poço de ternura. Tal como acontecia na série, existe aqui uma aposta clara em criaturas analógicas: notam-se bonecos e fatos palpáveis onde normalmente predominaria o CGI.
No centro da nova intriga está Din Djarin, novamente associado à Nova República fundada pela Princesa Leia, numa missão destinada a conter a expansão de células imperiais espalhadas pelos territórios periféricos da galáxia. Ao lado de Grogu, o mercenário mandaloriano atravessa diferentes sistemas planetários enquanto enfrenta caçadores de recompensas, sobreviventes do Império de Darth Vader e figuras ligadas ao submundo criminal. A missão inclui ainda o resgate de Rotta — interpretado por Jeremy Allen White —, herdeiro do mafioso cósmico Jabba the Hutt, num argumento de ritmo acelerado que amplia a dimensão aventureira da série televisiva e reforça a relação paternal entre o protagonista humanoide e a pequena criatura verde que educa como um filho.
A influência dos mangas Lone Wolf and Cub, de Kazuo Koike (1936-2019) e Goseki Kojima (1928-2000), é inegável, oferecendo à estrutura dramática um sabor nipónico — o seu próprio Yojimbo.
O elenco conta ainda com participações de Sigourney Weaver e de Martin Scorsese — apenas na voz —, embaladas pela banda sonora de Ludwig Göransson e por uma direção artística visualmente exuberante. A marca autoral que Favreau trouxe de Iron Man encaixa plenamente no universo da Lucasfilm, que ele ajuda a revitalizar mesmo quando aposta em tonalidades mais infantojuvenis para conquistar também o público mais novo. O pequeno escudo usado por Grogu faz parte desse encantamento.
Para a audiência nerd mais crescida, a luta contra uma serpente subterrânea entra diretamente para a posteridade das grandes sequências de ação do cinema-espetáculo de 2026, ano em que The Mandalorian and Grogu se destaca por possuir personalidade própria: um Sergio Leone intergaláctico, um spaghetti western servido com molho cósmico.



















